Os trabalhadores da antiga TICV/BestFly dizem-se indignados perante o incumprimento parcial dos compromissos assumidos no âmbito do processo de despedimento colectivo da empresa. Acusam também o vice-primeiro-ministro de não ter cumprido a promessa de apoio jurídico. Coisa que Olavo Correia nega.
Numa carta endereçada a várias entidades, os reclamantes alegam que, na reunião realizada no dia 28 de Novembro de 2024, com representantes do Governo, foi-lhes assegurado que “seriam criadas condições para garantir o pagamento integral dos valores em dívida por parte da BestFly/TICV, bem como apoio jurídico institucional aos trabalhadores afetados, tendo em conta a complexidade e sensibilidade do processo”.
Alegam que o Estado procedeu ao pagamento de apenas 30% dos montantes em dívida aos trabalhadores e que permanece por regularizar os remanescentes das indemnizações e outros valores da responsabilidade da BestFly/TICV, “situação que continua a penalizar dezenas de trabalhadores e respetivas famílias”.
“Até ao presente momento, os trabalhadores continuam sem qualquer solução concreta relativamente aos valores em falta, vivendo numa situação de incerteza, desgaste financeiro e emocional”, acrescentam.
O colectivo faz questão de denunciar que o suporte jurídico prometido pelo vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Olavo Correia, “nunca chegou a ser efetivamente disponibilizado aos trabalhadores, deixando-os praticamente entregues a si próprios num processo complexo e desigual, onde muitos não possuem condições financeiras para suportar assistência jurídica adequada”.
Segundo a carta, os trabalhadores da antiga TICV alegam que não estão a pedir privilégios nem favores políticos. Estão apenas a exigir o cumprimento integral dos compromissos assumidos publicamente; o pagamento dos 70% ainda em dívida por parte da BestFly/TICV; o apoio jurídico prometido aos trabalhadores; transparência e respeito institucional perante cidadãos que durante anos serviram o setor dos transportes interilhas em Cabo Verde.
“Não podemos aceitar que promessas feitas ao mais alto nível do Estado caiam no esquecimento, enquanto trabalhadores e famílias continuam à espera de respostas concretas”, enfatizam.
Rasto de dívidas
A abrupta suspensão das operações da BestFly Worldwide em Cabo Verde, formalizada após o colapso das relações entre a operadora angolana e as autoridades aeronáuticas, afectou o sector dos transportes no país. Mais do que isso, a saída da accionista maioritária da TICV deixou um rastro de asfixia financeira que atinge os trabalhadores e fornecedores.
O encerramento definitivo das actividades ocorreu após a Agência de Aviação Civil (AAC) revogar a autorização de um contrato de wet lease que visava suprir a paragem forçada da frota habitual.
Ao bater com a porta, alegando um ambiente de negócios “tóxico e punitivo”, a operadora angolana abandonou o mercado doméstico. Contudo, o passivo acumulado permanece em solo cabo-verdiano, transformando- se num pesadelo real para dezenas de famílias e empresas.
Para os trabalhadores da TICV/BestFly, a interrupção dos voos foi acompanhada pela incerteza salarial, falta de pagamento de indemnizações e a ausência de respostas claras sobre o futuro laboral.
No tecido empresarial, os prejuízos são igualmente severos. Fornecedores de serviços em terra, empresas de manutenção, prestadores de catering e as próprias operadoras estatais — como a TACV, que chegou a recusar bilhetes emitidos pela BestFly devido à ausência de repasse financeiro – enfrentam calotes que ascendem a milhões de dólares.
Olavo Correia nega promessa de apoio jurídico
Contactado pelo A NAÇÃO, o vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Olavo Correia, disse que não tem nota de nenhuma solicitação de apoio jurídico feita pelos trabalhadores da antiga TICV/BestFly.
A chegada da BestFly a Cabo Verde aconteceu em 2021, num cenário de quase paralisia dos transportes aéreos interilhas, precipitado pelos impactos económicos da pandemia da COVID-19. O processo desenrolou-se em duas fases principais: uma entrada de emergência e, posteriormente, a compra da estrutura que já operava no país.
Até Maio de 2021, as ligações aéreas domésticas eram asseguradas de forma exclusiva pela TICV (Transportes Interilhas de Cabo Verde), empresa que pertencia maioritariamente ao grupo espanhol Binter Canárias.
Com a quebra drástica de passageiros (cerca de 70%) devido à pandemia, a Binter e o Governo entraram num diferendo sobre o modelo de apoio financeiro e subsídios para manter a operação. Sem entendimento, a empresa espanhola deixou de disponibilizar bilhetes e programar voos a partir de 17 de Maio de 2021, ameaçando isolar as ilhas.
Perante a crise iminente, o Governo recorreu ao grupo de origem angolana BestFly World Wide. A 17 de Maio de 2021, a BestFly iniciou formalmente as operações em Cabo Verde sob um contrato de concessão emergencial de seis meses.
Mas o plano da BestFly sempre foi ir além do contrato de emergência. Em Julho de 2021, o grupo avançou para a compra de 70% do capital social da TICV (que ainda pertencia à Binter). Os restantes 30% ficaram nas mãos do Estado.
Com esta aquisição, a BestFly herdou a estrutura jurídica e o Certificado de Operador Aéreo (AOC) que já existiam, passando a operar comercialmente sob a marca BestFly Cabo Verde a partir de outubro de 2021.
Embora tenha entrado para resolver uma crise de conectividade e chegado a expandir a frota com jatos regionais (como o Embraer E-190) para voos regionais, a operação da companhia enfrentou mais tarde sérios problemas de regularidade e sustentabilidade, culminando na suspensão das suas atividades e do seu certificado de operador em abril de 2024.
Daniel Almeida
Publicado na Edição 980 do Jornal A Nação, de 11 de Junho de 2026

