O conhecido jornalista da Rádio de Cabo Verde (RCV) José Leite, 62 anos, morreu hoje em Portugal, onde se encontrava em tratamento médico. A notícia do óbito foi confirmada à Inforpress pelo colega de profissão Orlando Lima. A família ainda não informou sobre a realização das cerimónias fúnebres.
José Manuel Lima Leite, nasceu em São Vicente a 12 de Dezembro de 1963, foi jornalista na RCV, estação na qual desempenhou vários cargos e apresentou programas como “Noite Ilustrada”, “Serra da Estrela” e “Top às 10 Mais”, entre outros, além de ter exercido funções na direcção.
Segundo o jornalista Orlando Lima, Cabo Verde e a comunicação social perderam um “profissional competente, cuja entrega, rigor, ética e profissionalismo” eram algumas das suas principais características.
“Ele foi um dos melhores jornalistas de Cabo Verde, um profissional com uma entrega enorme e muito rigoroso. Queria sempre o melhor para o jornalismo em Cabo Verde”, disse a mesma fonte, que espera que a jovem geração saiba valorizar todo o trabalho que José Leite realizou em prol do jornalismo.
Além de jornalista, José Leite foi professor universitário e mentor de vários profissionais que actualmente ocupam órgãos de comunicação social no país.
“Ele foi meu professor, meu mentor na entrada para a antiga Rádio Nacional de Cabo Verde (RNCV). Viveu o jornalismo e ajudou na criação de uma nova geração de jornalistas que temos em Cabo Verde”, informou.
Um “homem íntegro, com alto espírito altruísta”
Para o vice-reitor da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), João Almeida, que também é jornalista, José Leite foi um “homem íntegro, com alto espírito altruísta, rigoroso e frontal, com forte compreensão do outro”.
Destacou que ele ensinou a todos a fazer um jornalismo com ética, equilíbrio e foi um dos defensores acérrimos da democracia cabo-verdiana.
“Ele começou desde muito novo na rádio, nos anos 80, depois saiu para se formar na Universidade do Porto (Portugal) e regressou à rádio onde fez toda a sua carreira e formou outros jovens consigo”, declarou.
João Almeida lembrou que José Leite foi quem criou o primeiro grande programa de auditório e debate na rádio do período democrático em Cabo Verde, denominado “Noite Ilustrada”, que era transmitido à noite.
“As pessoas paravam para ouvir a ‘Noite Ilustrada’, porque era um debate que promovia encontros de diferentes perspectivas, o que chamamos de polifonia, mas também pontos convergentes que nos permitem viver em sociedade. Esse era o Zé Leite”, afirmou, acrescentando que o programa simbolizava aquilo que o jornalista representava.
Segundo João Almeida, entre as grandes lembranças que guarda de José Leite está o facto de este ser um professor que ensinava ética profissional, na sua dimensão humana e também deontológica, enquanto conjunto de normas de conduta de uma profissão.
Um profissional que pautava pela defesa da ética e da independência do jornalismo
Conhecido entre os colegas da profissão como Zé Leite ou simplesmente Zé, ele era visto como um profissional que pautava pela defesa da ética e da independência do jornalismo cabo-verdiano.
Tanto assim é que por causa do seu programa ‘Noite Ilustrada’ foi alvos de processos instaurados na Radiotelevisão Cabo-Verdiana (RCT).
Esse processo culminou no cancelamento do programa e o caso foi levado ao Supremo Tribunal de Justiça, órgão que 12 anos mais tarde lhe viria a dar razão.
José Leite foi também a voz que apresentou o Festival da Baía das Gatas por mais de 19 edições.
O delegado da RTC em São Vicente, Gabriel Delgado, destacou que José Leite “deu um grande contributo para a comunicação social em Cabo Verde” e que “a sua partida deixa toda a classe consternada”.
A família ainda não informou sobre a realização das cerimónias fúnebres.
PR reage à morte de Zé Leite
Numa publicação nas redes sociais, o Presidente da República, José Maria Neves lamentou profundamente a morte de José Leite um “grande vulto do jornalismo cabo-verdiano”.
“Não perdia nenhum dos seus programas, particularmente a Noite Ilustra, que acompanhava com muito interesse. Um homem de caráter, um jornalista ousado, inteligente e criativo, desafiava os poderes constituídos e contribuía para o aprofundamento e elevação do debate público e para a formação de uma opinião pública autónoma e muito bem informada”, lê-se na publicação.
“Nestes tempos de fake news e má informação, em que verdades públicas vão cedendo lugar a verdades alternativas ou narrativas criadas, vale a pena valorizar na sua devida dimensão Homens da grandeza de José Leite: livres, corajosos, de caráter e sábios”, escreveu ainda o PR.
No final da mensagem de despedida, José Maria Neves prestou a sua homenagem “a este grande jornalista” e deixou expresso o quanto aprendeu “com os debates por ele lançados na esfera pública”.
“Meus pêsames à família enlutada, aos amigos e aos profissionais da comunicação social. Descanse em paz, caro amigo, José Leite”, finalizou.
40 anos ao serviço da RCV
José Leite é nacionalmente conhecido por dedicar mais de quatro décadas à Rádio de Cabo Verde como editor e apresentador de noticiários, mas, igualmente, de programas de música e pela sua atuação na defesa da ética e independência do jornalismo.
Foi também docente e amplamente reconhecido como a voz do emblemático Festival de Música da Baía das Gatas, tendo apresentado 19 edições do evento.
C/ Inforpress e RTC

