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Kafka em Cabo Verde: ressentimento, mediocridade e linchamento

Por: João Serra*

Franz Kafka, o arquiteto literário dos labirintos da alma, nunca pisou o solo vulcânico de Cabo Verde, mas a sua prosa é o único instrumento capaz de mapear a topografia do absurdo que se ergue quando o poder se alia ao ressentimento. Este ensaio é, em certa medida, o réquiem de um ciclo: o do MpD, que ontem viu o seu décimo ano de governação interrompido pela derrota eleitoral frente ao PAICV. Não é, porém, um obituário sobre nomes ou siglas, mas sobre o sistema de intimidação digital que esse poder tolerou e, por vezes, alimentou, e que sobreviverá a qualquer mudança de mãos se não for escrutinado. 

Na dinâmica das redes sociais, num microcosmo em que as reputações são, simultaneamente, capital e alvo, não estamos perante meras contendas digitais. Estamos a testemunhar a encenação de “O Processo”, de Franz Kafka, em tempo real: um julgamento onde o réu desconhece o seu crime exato, a acusação é uma hidra de mil cabeças anónimas, a defesa é fútil e a sentença é o exílio cívico, tudo sob o olhar vigilante e cúmplice de um poder que lucra com o espetáculo.

O ponto de partida deste processo é a publicação de um pensamento independente, seja um texto de opinião, uma análise crítica ou uma simples interrogação capaz de perturbar a quietude do consenso. É o suficiente para ativar, peça por peça, a complexa maquinaria de aniquilação.

A primeira linha de assalto é composta pelos tribalistas ideológicos doentios, as sentinelas do dogma. A sua ignorância não é ausência de informação, mas recusa ativa e militante de qualquer facto que contradiga a sua fé. Para eles, as ideias não são para ser compreendidas, mas classificadas como “amigas” ou “inimigas”. Praticam uma hermenêutica da suspeição: descontextualizam frases, distorcem argumentos e invertem o ónus da prova, forçando por vezes o autor a defender-se de acusações delirantes. Pior ainda: com frequência, nem leem o conteúdo, bastando-lhes a imagem ou o nome do autor. Funcionam como infantaria preconceituosa e descartável, incumbida de criar o caos inicial e assinalar o alvo às forças seguintes.

Atrás deles avança o vasto e amorfo exército da mediocridade – o reino dos recalcados e frustrados, funcionalmente inúteis à sociedade no que à produção de valor ou conhecimento diz respeito. Incapazes de construir, encontram o seu único propósito na demolição. A visão de quem se destaca pelo intelecto, pela coragem ou pelo rigor não faz mais do que lhes recordar a própria insignificância, enquanto o ataque “ad hominem” funciona como uma terapia coletiva, uma projeção da sua autoaversão. 

Esta dinâmica conta com um braço profissionalizado, composto por gestores públicos, funcionários e políticos, alguns deles remunerados a peso de ouro, que convertem o tempo de serviço numa plataforma de comando para a guerrilha digital, fenómeno observável em certos cafés da Praia e do Mindelo, mesmo durante o horário de expediente. Justificam a conduta como defesa “patriótica”, mas defendem apenas o sistema que lhes garante cargos e privilégios em troca de lealdade, e não de competência.

A primeira linha de assalto é composta pelos tribalistas ideológicos doentios, as sentinelas do dogma. A sua ignorância não é ausência de informação, mas recusa ativa e militante de qualquer facto que contradiga a sua fé. Para eles, as ideias não são para ser compreendidas, mas classificadas como “amigas” ou “inimigas”. (…) Cai agora um governo; resta saber se cai com ele a máquina que o serviu. O réu, no final, compreende a lição mais terrível de Kafka: o processo é, em si mesmo, a punição.

O motor que incendeia esta aliança profana é a inveja, elevada à categoria de ferramenta de gestão política. Muitos destes agressores dependem diretamente das benesses do poder: emprego, estatuto e palco de influência obtidos não por mérito, mas por subserviência ao partido que até ontem exercia o poder. O pensador livre é uma anomalia intolerável, prova viva de que a relevância pode ser alcançada fora do curral, e a sua destruição torna-se imperativo para a manutenção do “status quo”. Este assassinato de caráter beneficia do apoio velado das instituições, na medida em que as suas agendas convergem. A ambas interessa a manutenção de um ambiente de intimidação capaz de desencorajar o escrutínio e silenciar a crítica. O linchamento de um dissidente transforma-se, assim, num espetáculo pedagógico, destinado a advertir todos os que ousem afastar-se da ortodoxia dominante.

A execução final é levada a cabo pela maldade gratuita, e é aqui que o processo transita da inveja para o puro sadismo. 

A análise de Arthur Schopenhauer ressoa com precisão cirúrgica: “sentir inveja é humano, saborear a desgraça alheia é diabólico”. Os agressores ultrapassam a fronteira do ressentimento humano e entram no território do prazer demoníaco, retirando uma satisfação genuína da humilhação e do sofrimento alheios. 

Nietzsche foi ainda mais incisivo ao observar que “a visão de um sofredor faz bem, mas a de um fazedor de sofrimento faz ainda melhor…” Fazer sofrer é, para estes indivíduos, a sua forma de se sentirem poderosos, de exercerem controlo sobre uma realidade que, de outra forma, os esmaga. 

Trata-se de um frenesim de caça em matilha, em que a dor infligida ao outro serve de analgésico para as próprias frustrações, enquanto o escárnio partilhado em grupos privados lhes confere o sentimento de poder e de pertença que as suas vidas estéreis lhes negam.

Contudo, o que transforma este drama de aldeia numa autêntica tragédia kafkiana é a impunidade absoluta, calculada e sistémica, sobre a qual assenta toda a estrutura. Esta máquina de difamação não opera num vácuo. Prospera à sombra de um Estado que se demite da sua função protetora. As instituições de controlo social, em particular os tribunais, pouco ou nada fazem para a conter. 

A vítima que ousa procurar justiça entra num segundo labirinto, ainda mais perverso: lentidão processual, custos proibitivos, dificuldade de identificar agressores por detrás de perfis falsos e falta de especialização para lidar com a violência digital. O próprio ato de procurar justiça transforma-se numa segunda punição, exaurindo recursos e destruindo a confiança na lei. Esta inação não é uma mera falha do sistema; é uma mensagem política. O espaço digital tornou-se uma zona de exceção onde a lei da selva prevalece sobre o Estado de direito.

O resultado é a instalação de um regime de intimidação intelectual. O alvo direto fica exausto e silenciado, mas o impacto mais duradouro recai sobre os que assistem ao espetáculo. A mensagem é simples: a dissidência tem custos. A autocensura emerge como forma de proteção, e o debate público degrada-se gradualmente, tornando-se menos plural, menos livre e menos capaz de acolher o contraditório.

Conclui-se, assim, que este ensaio kafkiano não é uma mera metáfora literária. É a descrição clínica de um sistema de controlo social adaptado ao século XXI, onde a burocracia não é feita de papelada, mas de partilhas e comentários; onde os guardas não usam farda, mas perfis falsos; e onde a condenação não conduz à prisão física, mas ao isolamento social e à morte civil. É o triunfo da mediocridade organizada, um mecanismo concebido para desencorajar a independência de pensamento e assegurar a reprodução das hierarquias existentes. 

Cai agora um governo; resta saber se cai com ele a máquina que o serviu. O réu, no final, compreende a lição mais terrível de Kafka: o processo é, em si mesmo, a punição.

Praia, 20 de junho de 2026

*Doutorado em Economia

Blog: https://economianaserra.blogspot.com

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