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Da análise política – Cabo Verde: que liderança pode Francisco Carvalho protagonizar?

Por: Rui Pereira

Entre a equipa herdada, o novo treinador e o campeonato do futuro

Enquanto a seleção nacional de Cabo Verde continua a desafiar adversários historicamente mais poderosos nos grandes palcos do futebol mundial, o país inicia simultaneamente um outro campeonato, menos visível, mas potencialmente mais importante para o seu futuro. 

Trata-se do campeonato do desenvolvimento. Também aqui existe uma equipa. Também aqui existem treinadores, estratégias, resultados e classificações. A diferença é que, ao contrário do futebol, os resultados não se medem ao fim de noventa minutos, mas ao longo de anos e até de gerações.

As eleições legislativas de maio de 2026 podem vir a ser interpretadas precisamente sob esta perspetiva. A mudança ocorrida não parece significar apenas a substituição de um governo por outro. Talvez represente algo mais profundo: a crescente perceção de que o modelo de jogo que Cabo Verde vem praticando há décadas começa a revelar sinais de esgotamento. E isso levanta uma questão central: terá Francisco Carvalho sido escolhido apenas para substituir um treinador ou para mudar o próprio jogo que o país joga?

Durante quinze anos, José Maria Neves assumiu o papel de treinador da expansão. A sua estratégia consistiu em alargar o campo de jogo, construir infraestruturas, reforçar a presença do Estado, multiplicar oportunidades educativas e acelerar a modernização do país. 

Foi uma liderança ofensiva e transformadora. O país beneficiou dessa visão. Mas, com o passar do tempo, tornaram-se igualmente visíveis algumas fragilidades. A expansão nem sempre foi acompanhada por igual capacidade produtiva. O investimento cresceu mais rapidamente do que a criação de riqueza. O Estado tornou-se progressivamente o principal motor da economia.

Em 2016 entrou em campo um treinador diferente. Ulisses Correia e Silva recebeu uma equipa que necessitava de reorganização e equilíbrio. Apostou na estabilidade financeira, na credibilidade internacional, na modernização administrativa e na consolidação dos ganhos alcançados anteriormente. Durante uma década, a equipa tornou-se mais organizada e melhorou diversos indicadores. 

Contudo, também aqui surgiram limites. A estabilidade nem sempre produziu mobilidade social. A economia continuou a crescer sem alterar profundamente a sua estrutura. Muitos jovens continuaram a procurar oportunidades fora do país. O custo de vida aumentou. A habitação tornou-se mais difícil. E uma parte crescente da população passou a sentir que os bons indicadores macroeconómicos não se traduziam automaticamente numa melhoria concreta da sua vida.

Talvez a grande ironia da política cabo-verdiana contemporânea resida precisamente aqui. José Maria Neves e Ulisses Correia e Silva representaram modelos diferentes, mas acabaram por encontrar o mesmo limite estrutural. Um procurou desenvolver o país através da expansão do investimento. O outro através da consolidação da estabilidade. Contudo, nenhum conseguiu resolver plenamente a questão essencial: como criar uma economia capaz de produzir riqueza de forma sustentável e competitiva num pequeno Estado insular sem recursos naturais significativos?

Talvez o verdadeiro problema não seja apenas económico. Talvez seja estrutural. Ao longo de décadas, Cabo Verde construiu uma economia mais assente na circulação do que na produção. Circulam remessas. Circula ajuda externa. Circulam financiamentos. Circula turismo. Circula consumo. Mas produz-se relativamente pouco quando comparado com aquilo que se consome. O país habituou-se a viver mais da capacidade de atrair recursos externos do que da capacidade de gerar riqueza internamente.

Cabo Verde construiu uma economia mais assente na circulação do que na produção. Circulam remessas. Circula ajuda externa. Circulam financiamentos. Circula turismo. Circula consumo. Mas produz-se relativamente pouco quando comparado com aquilo que se consome. O país habituou-se a viver mais da capacidade de atrair recursos externos do que da capacidade de gerar riqueza internamente. É esta herança que Francisco Carvalho recebe. 

É esta herança que Francisco Carvalho recebe.

Não recebe uma equipa em crise. Recebe um país estável, democrático, respeitado internacionalmente e com importantes conquistas acumuladas. Mas recebe igualmente um país confrontado com desafios novos e exigentes. A inteligência artificial está a transformar economias inteiras. A competição global pelo talento intensifica-se. As alterações climáticas pressionam os pequenos Estados insulares. Os fluxos financeiros tornaram-se mais voláteis. A competitividade passou a depender cada vez mais do conhecimento, da inovação e da capacidade de adaptação.

O que ainda não sabemos é qual Francisco Carvalho surgirá efetivamente no exercício do poder.

O candidato da proximidade?

O reformador institucional?

O gestor transacional?

O líder transformacional?

Ou simplesmente o administrador do sistema herdado?

A história demonstra que muitos líderes chegam ao poder prometendo mudança e acabam absorvidos pelas lógicas que pretendiam transformar.

A acumulação dos cargos de Primeiro-Ministro e Ministro das Finanças sugere uma forte ambição de coordenação estratégica. A vantagem é evidente: maior coerência política e maior rapidez de decisão. O risco também é evidente: quando a mesma liderança concentra simultaneamente a definição da estratégia e o controlo dos recursos financeiros, reduz-se parte do contraditório interno que  frequentemente ajuda a corrigir erros.

Mas talvez a questão mais importante seja outra.

Conseguirá Francisco Carvalho conduzir Cabo Verde para além do modelo económico que tem predominado desde a independência?

Um modelo que, apesar dos seus sucessos, continua fortemente dependente de fatores externos e excessivamente apoiado no Estado como principal organizador da atividade económica.

Em muitos aspetos, o Estado tornou-se simultaneamente regulador, financiador, empregador, investidor e distribuidor de oportunidades. O resultado é que grande parte da sociedade passou a olhar para o Estado como solução para quase tudo. A questão é saber se um pequeno Estado pode continuar indefinidamente a suportar esse papel sem limitar a emergência de uma economia mais criativa, inovadora e empreendedora.

Conseguirá Cabo Verde transformar a diáspora num ativo produtivo e não apenas financeiro?

Conseguirá converter conhecimento em inovação e inovação em riqueza?

Conseguirá reduzir a dependência das importações e aumentar a capacidade produtiva nacional?

Conseguirá criar oportunidades suficientes para que os jovens escolham permanecer e construir o seu futuro no país?

Conseguirá fazer emergir uma economia mais competitiva do que assistida?

E, acima de tudo, conseguirá convencer os cabo-verdianos de que o país pode disputar um campeonato superior àquele em que tem jogado nas últimas décadas?

Talvez seja essa a verdadeira prova do novo treinador.

Porque as eleições terminaram. A equipa governamental está a entrar em campo. O apito inicial já foi dado.

E o campeonato do futuro apenas agora começou.

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