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Crónicas do território: A Seleção Nacional e o saque silencioso da Marca Cabo Verde

Por: César Freitas* 

Há semanas que circulam pelas ruas de Cabo Verde camisolas com o emblema da Federação Cabo-verdiana de Futebol, o brasão da República e as cores nacionais – produzidas, importadas e comercializadas sem qualquer autorização, sem pagamento de royalties, sem controlo de qualidade, sem que um único escudo contribua para o desenvolvimento do desporto ou da cultura do nosso país.

Isto não é entusiasmo popular. Isto é oportunismo comercial disfarçado de patriotismo.

Enquanto arquiteto e urbanista com décadas de trabalho em torno da identidade construída do nosso território – das pedras do centro histórico da Ribeira Grande aos planos de ordenamento das cidades em crescimento -, reconheço neste fenómeno um padrão que conheço bem: a incapacidade estrutural de proteger e valorizar os nossos ativos intangíveis.

Uma nação que não protege os seus símbolos não está apenas a perder receita. Está a perder a narrativa sobre si mesma.

O problema não é a camisola. É a ausência de política

Nenhum país que respeite a sua identidade, deixa os seus símbolos nacionais à mercê de quem chega primeiro ao mercado. Portugal, Marrocos, Senegal – países com os quais nos comparamos cada vez mais no plano desportivo – registam e licenciam as suas marcas, cobram royalties, criam linhas oficiais de merchandising e transformam o orgulho nacional em valor económico real.

Em Cabo Verde, o que temos é um vácuo. E no vácuo, prospera a cópia.

A Federação Cabo-verdiana de Futebol, o Governo e o setor privado nacional precisam de agir de forma coordenada e urgente. Não para punir o entusiasmo – esse é genuíno e deve ser celebrado. Mas para garantir que esse entusiasmo gere valor para o país, e não apenas para quem tem a logística de importar em grandes quantidades.

A identidade como ativo territorial 

O que está em causa não é apenas futebol. A Seleção Nacional tornou-se hoje um dos mais poderosos veículos de promoção internacional de Cabo Verde – mais eficaz do que muitas campanhas de turismo, mais reconhecível do que muitos programas de diplomacia cultural. A pergunta certa não é “como evitar a cópia?”. A pergunta certa é: “como transformar este momento numa política de marca nacional duradoura?”

Enquanto profissional que trabalhou durante anos na política e regulação da arquitetura e do urbanismo, incluindo no plano institucional da Ordem dos Arquitetos, sei que a identidade de um lugar não se decreta. Constrói-se com instrumentos: legislação, regulação, licenciamento, incentivos ao setor criativo local e, sobretudo, com uma visão clara de como queremos ser reconhecidos no mundo.

A camisola que não tem licença não é apenas uma perda de receita para a FCF. É uma oportunidade perdida de afirmar que Cabo Verde tem criadores, tem designers, tem uma estética própria que merece chegar ao mercado.

A camisola que não tem licença não é apenas uma perda de receita para a FCF. É uma oportunidade perdida de afirmar que Cabo Verde tem criadores, tem designers, tem uma estética própria que merece chegar ao mercado. (…) A Seleção Nacional já faz a sua parte cada vez que entra em campo. Chegou o momento de o país fazer a sua – protegendo o que é seu, valorizando quem cria e transformando o orgulho colectivo numa fonte de desenvolvimento que beneficie todos os cabo-verdianos.

O que proponho 

Primeiro: a criação urgente de um Programa de Licenciamento Oficial da Marca Desportiva Nacional, gerido pela FCF em parceria com o Governo, que permita a empresas nacionais produzirem réplicas e artigos oficiais, com qualidade certificada e contribuição para um Fundo de Desenvolvimento Desportivo.

Segundo: a integração deste programa numa estratégia mais ampla de Marca País – que articule futebol, música, gastronomia, arquitetura e design num discurso coerente sobre o que Cabo Verde é e quer ser. Não são domínios separados. São as dimensões da mesma identidade.

Terceiro: a criação de um Selo de Autenticidade – “Cabo Verde Original” – que certifique produtos, experiências e serviços produzidos no país com qualidade e respeito pela nossa cultura. Um instrumento simples, mas com poder simbólico e económico imenso.

Estes instrumentos não são complexos de implementar. São complexos de vontade política. E é precisamente aí que o debate precisa de chegar.

O que está verdadeiramente em jogo 

Há uma ideia que atravessa todo o meu trabalho profissional, de Lisboa à Praia, do urbanismo à arquitetura, da sustentabilidade ao desenvolvimento imobiliário: o valor de um lugar não está apenas nos metros quadrados ou nas infraestruturas. Está na narrativa que constrói sobre si mesmo. Nas histórias que conta. Na forma como cuida da sua memória e projeta o seu futuro.

Cabo Verde tem uma narrativa extraordinária. Uma diáspora global. Uma música que chegou ao mundo antes do futebol. Uma arquitectura que é síntese de culturas. E agora uma Seleção que nos faz orgulhosos cada vez que entra em campo.

Deixar que terceiros lucrem com essa narrativa, sem que o país beneficie, não é ingenuidade. É uma opção política – ainda que inconsciente.

Uma janela que não pode ficar aberta sem ser aproveitada

Existe hoje uma circunstância política favorável que seria irresponsável ignorar. O novo Ministério que tutela simultaneamente a Cultura, as Indústrias Criativas, a Juventude e o Desporto reúne, numa única pasta, todas as peças necessárias para responder a este desafio de forma integrada. É uma arquitectura institucional rara – e que raramente se repete. Usá-la bem, nos próximos meses, pode significar a diferença entre deixar passar mais uma oportunidade ou construir uma política de identidade nacional com impacto real e duradouro.

Para isso, os instrumentos já existem ou estão ao alcance. O organismo nacional de protecção da propriedade industrial – responsável pelo registo de marcas, nomes e imagens – tem competência para agir. As alfândegas têm capacidade de travar na fronteira a entrada de produtos contrafeitos, desde que exista uma lista clara de marcas protegidas e vontade de aplicar a lei. 

A indústria nacional – carpintaria, têxtil, design gráfico, artes visuais – tem capacidade produtiva e criativa para responder a uma procura licenciada, gerando emprego qualificado e remunerado dentro do país.

O que falta não são meios. É a decisão de os colocar a trabalhar em conjunto, com urgência e com visão.

A Seleção Nacional já faz a sua parte cada vez que entra em campo. Chegou o momento de o país fazer a sua – protegendo o que é seu, valorizando quem cria e transformando o orgulho colectivo numa fonte de desenvolvimento que beneficie todos os cabo-verdianos.

*Arquiteto, urbanista e fundador da César Freitas Arquitetos (CFA), com escritórios na Praia e no Mindelo. Foi Bastonário da Ordem dos Arquitetos de Cabo Verde entre 2010 e 2017.

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