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Quando a esperança veste a camisola nacional

Por: Denise Resende*

E um pequeno país recorda ao mundo que o talento não se mede pela dimensão.

Durante dias, Cabo Verde respirou futebol. As ruas encheram-se de bandeiras, as famílias reuniram-se em frente aos ecrãs, os corações bateram ao mesmo ritmo e, por momentos, deixámos para trás as diferenças que tantas vezes nos dividem. Éramos apenas um povo unido por um sonho comum.

Independentemente  do resultado, os nossos Tubarões Azuis já tinham conquistado algo que nenhuma taça consegue medir: devolveram-nos o orgulho de acreditar. Mostraram que um pequeno arquipélago, com recursos limitados e desafios que todos conhecemos, pode competir entre os melhores do mundo quando há talento, trabalho, disciplina e uma vontade inabalável de vencer.

E não é apenas uma história de futebol. É uma lição sobre o país que podemos construir.

Durante demasiado tempo habituámo-nos a justificar os nossos limites pela escassez de recursos. Mas o percurso da nossa seleção recorda-nos uma verdade simples: o maior recurso de Cabo Verde nunca esteve debaixo da terra nem no tamanho do seu território. Sempre esteve nas suas pessoas.

O talento existe em todas as ilhas. Existe nas crianças que sonham ser futebolistas, médicas, engenheiras, artistas, professores ou cientistas. Existe nos jovens que todos os dias desafiam as dificuldades para continuar a estudar, trabalhar e acreditar. O problema nunca foi a falta de talento. O verdadeiro desafio continua a ser a falta de oportunidades para que esse talento floresça.

É precisamente por isso que o desempenho da nossa seleção deve ser visto como muito mais do que um feito desportivo. Deve servir de inspiração para uma reflexão nacional sobre o tipo de investimento que queremos fazer no futuro do país.

O verdadeiro legado desta seleção não está apenas nos resultados alcançados. Está na esperança que despertou em cada cabo-verdiano e na certeza de que o talento, quando encontra oportunidade, pode levar um pequeno país a desafiar gigantes.

Investir na educação não é apenas construir escolas. É garantir qualidade, equidade e oportunidades para que cada criança descubra e desenvolva o seu potencial. 

Investir no desporto não é apenas apoiar competições. É criar espaços seguros, formar treinadores, identificar talentos, promover estilos de vida saudáveis e oferecer caminhos alternativos para milhares de crianças e jovens. 

Investir na cultura, na ciência e na inovação é acreditar que o desenvolvimento de um país começa, antes de tudo, no desenvolvimento das suas pessoas.

O desporto ensina aquilo que dificilmente se aprende apenas nos livros: disciplina, resiliência, respeito, espírito de equipa, capacidade de lidar com a derrota e coragem para voltar a tentar. São competências que formam atletas, mas, acima de tudo, formam cidadãos.

Talvez a maior vitória destes dias tenha acontecido fora das quatro linhas. Durante noventa minutos, deixámos de lado diferenças políticas, sociais e ideológicas. Sofremos juntos, vibramos juntos e voltamos a sentir o orgulho de sermos cabo-verdianos. Essa união mostra-nos que, quando acreditamos num objetivo comum, somos muito maiores do que a nossa dimensão geográfica.

Agora que a emoção do Mundial começa a dar lugar à rotina, fica uma pergunta que não podemos deixar cair no esquecimento: estaremos dispostos a investir nas próximas gerações com a mesma paixão com que apoiámos a nossa seleção?

Porque os próximos Tubarões Azuis podem estar hoje numa escola, num bairro, numa comunidade ou num pequeno campo de terra batida. E, ao lado deles, podem também estar os próximos médicos, investigadores, empreendedores, artistas ou professores que ajudarão a transformar Cabo Verde.

O verdadeiro legado desta seleção não está apenas nos resultados alcançados. Está na esperança que despertou em cada cabo-verdiano e na certeza de que o talento, quando encontra oportunidade, pode levar um pequeno país a desafiar gigantes.

Que esta camisola continue a representar muito mais do que futebol. Que represente a coragem de acreditar nas nossas crianças, nos nossos jovens e no enorme potencial de Cabo Verde. Porque um país que investe nas suas pessoas nunca será pequeno aos olhos do mundo.

*Psicóloga, orientadora parental e especialista em proteção infantil, com intervenção em contextos comunitários e contributo em iniciativas de advocacy e políticas de proteção da criança em Cabo Verde.

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