
Por: Rui Pereira
Comecemos pelo impossível. Às vezes, é a melhor maneira de descobrir uma verdade.
Não lhes troquemos inteligência, personalidade ou convicções. Troquemos apenas o tempo e a biografia. Demos a Joana dezasseis anos como Primeira-Ministra: cimeiras, crises, chefes de Estado, decisões difíceis, vitórias, derrotas, exposição internacional. Acrescentemos cinco anos no Palácio do Plateau. Continuaríamos a perguntar se teria “estatura presidencial”? Agora façamos o contrário. Retiremos a José Maria Neves os dezasseis anos de Governo, décadas de centralidade política, projeção internacional e cinco anos de Presidência. Deixemos a inteligência, a cultura política, a comunicação e a personalidade. Olharíamos para os dois exatamente como olhamos hoje?
Aqui começa o jogo. Porque em política nunca concorre apenas uma pessoa; concorre também tudo aquilo que o tempo construiu à sua volta. José Maria Neves traz uma longa biografia de poder e de Estado. O país conhece-lhe a voz, os gestos, o pensamento, as virtudes e os defeitos. Foi Primeiro-Ministro. É Presidente. Joana Rosa traz outra biografia: mulher bonita, elegante, inteligente, com experiência governativa e parlamentar, conhecimento das instituições e presença política própria. Nunca foi Presidente. E Cabo Verde nunca teve uma mulher Presidente.
Coloquemos as duas biografias sobre a mesa. Neves pode dizer: experiência. Joana pode responder: renovação. Ele: previsibilidade. Ela: possibilidade. Ele convoca aquilo que fez; ela, aquilo que poderá fazer. Mas cuidado: experiência pode significar segurança ou repetição; possibilidade pode significar risco ou esperança. A política começa precisamente quando as palavras deixam de ter um único significado.
É aí que o confronto ganha sabor. Neves poderia perguntar: para quê experimentar aquilo que ainda não conhecemos? Joana poderia devolver: para quê repetir aquilo que já conhecemos? Nenhuma pergunta vence a outra por antecipação, porque uma presidencial não escolhe um Primeiro-Ministro com menos poderes. Escolhe autoridade sem governação quotidiana, influência sem comando, palavra sem excesso de palavra, proximidade sem perda de distância.
Presidenciais são também eleições de sensação política. Quem transmite serenidade? Quem inspira confiança? Quem parece mais independente? Quem fala para além do seu partido? Quem representa melhor o país? Quem possui aquela combinação difícil entre autoridade e contenção? Nesse momento, Neves já não compete apenas com Joana, nem Joana apenas com Neves. Cada um compete com a ideia de Presidente que existe na cabeça do eleitor.
E entram as legislativas de 17 de maio. Entram na sala, naturalmente, mas não ocupam todas as cadeiras. Nas legislativas, o eleitor respondeu: quem quero que governe? Nas presidenciais responderá: quem quero no Plateau enquanto esse Governo governa? Parece a mesma política, mas a pergunta mudou. E quando muda a pergunta, o mesmo eleitor pode mudar de resposta.
Um poderá pensar: mudei o Governo, quero agora uma Presidência experimentada. Outro: se quis mudança no Governo, por que interrompê-la à porta do Plateau? Um terceiro poderá ignorar ambos os cálculos e escolher simplesmente quem, durante a campanha, lhe parecer mais presidencial. É aqui que a matemática perde autoridade e a psicologia eleitoral entra sem pedir licença.
Façamos outra conta. Neves tem passado presidencial; Joana não. Mas ter passado significa possuir experiência para apresentar e memória para ser julgada. Não o ter significa ausência de prova, mas também ausência de desgaste presidencial. Neves é conhecido; Joana tem mais espaço para ser descoberta. O conhecido pode tranquilizar ou cansar. O novo pode entusiasmar ou inquietar. A política diverte-se precisamente a trocar o sinal das nossas certezas.
(…) diante do boletim, o cabo-verdiano não poderá fazer a experiência que fizemos neste artigo: não poderá dar o passado de Neves a Joana, nem retirar o futuro de Joana e dar, todo ele, a Neves.
E há o género. Joana Rosa seria uma mulher a disputar o imaginário presidencial de um país que nunca colocou uma mulher no Plateau. Isso poderá significar muito para alguns, pouco para outros e nada para muitos. A pergunta eleitoral, porém, será mais exigente: qual dos dois conseguirá fazer mais cabo-verdianos reconhecerem nele — ou nela — a figura presidencial que desejam naquele momento?
Chegamos então à campanha e o nosso laboratório acaba. Já não podemos emprestar dezasseis anos a Joana nem retirar dezasseis anos a Neves. Ficam os dois, frente a frente, com aquilo que realmente são. Quem domina melhor um debate? Quem conserva serenidade sob pressão? Quem lê melhor o Estado? Quem surpreende sem parecer aventureiro? Quem exibe experiência sem parecer preso ao passado? Quem aproxima sem banalizar a função? Quem se distancia sem parecer ausente? E, sobretudo, quem cresce?
Esta talvez seja a pergunta mais perigosa de uma campanha. Há candidatos que começam grandes e chegam pequenos. Outros começam como curiosidade, tornam-se hipótese, depois possibilidade e, quase sem aviso, alternativa. É nesse movimento que uma presidencial escapa às previsões.
Os partidos contam. As máquinas contam. As ilhas e a diáspora contam. As alianças contam. Mas contam também coisas que nenhuma folha Excel domina: confiança, simpatia, autoridade, cansaço, curiosidade, receio, esperança — e aquele pequeno instante em que o eleitor olha para alguém e pensa: “Por que não?” Ainda não é um voto. Mas já deixou de ser uma rejeição. E entre uma rejeição que desaparece e um voto que nasce cabe uma campanha inteira.
Talvez, então, o duelo seja este: José Maria Neves terá de conseguir que aquilo que o país conhece continue a despertar interesse; Joana Rosa, que aquilo que o país ainda não conhece desperte confiança. Ele terá de demonstrar que conhecer não significa já saber tudo. Ela, que desconhecer não significa arriscar tudo.
E aqui os dois finalmente se encontram. Um não pode apagar o passado; a outra não pode pedir um passado emprestado. Ambos terão de disputar o presente.
Então, quem venceria?
Voltemos ao título. E se Joana Rosa fosse José Maria Neves? Talvez a provocação esconda uma pergunta ainda melhor: quanto do que hoje julgamos ser força de um candidato pertence à pessoa — e quanto pertence ao tempo, ao cargo, à memória e às circunstâncias que fomos acumulando sobre ela?
É por isso que uma presidencial pode ser tão fascinante. Coloca experiência contra expectativa, memória contra curiosidade, continuidade contra renovação e depois baralha tudo, porque o mesmo eleitor pode querer segurança e mudança, autoridade e novidade, experiência e futuro.
Até ao dia da votação, podemos somar partidos, subtrair desgastes, multiplicar expectativas e dividir probabilidades. Faltará sempre uma parcela: aquilo que acontece dentro do eleitor quando ninguém o está a observar.
E talvez seja aí que se esconda toda a eleição.
Porque, diante do boletim, o cabo-verdiano não poderá fazer a experiência que fizemos neste artigo: não poderá dar o passado de Neves a Joana, nem retirar o futuro de Joana e dar, todo ele, a Neves.
Terá apenas dois campos de ideias, dois nomes com as suas correntes de sentimentos e uma só escolha final.
E nesse instante saberemos se, para ser Presidente, pesou mais a História que cada um trazia — ou o futuro com Memória que cada um conseguiu fazer o eleitor desejar.

