
Por: Rui Pereira
Há países que administram o presente e há países que constroem o futuro. Enquanto uns governam condicionados pelo calendário eleitoral, outros orientam as suas decisões por uma visão capaz de atravessar gerações, transformando cada escolha do presente num investimento estratégico para o amanhã.
É precisamente neste ponto que emerge uma das questões mais relevantes da atualidade cabo-verdiana: terá Cabo Verde uma verdadeira visão estratégica de futuro ou continuará a navegar entre programas de governo, planos setoriais e respostas conjunturais, sem um horizonte nacional suficientemente mobilizador?
A pergunta não é apenas política. É, acima de tudo, civilizacional. Porque as nações não se distinguem apenas pela qualidade dos seus governos, mas pela clareza da ideia que possuem sobre o país que desejam construir. Governar é gerir o presente; liderar é organizar o futuro. E são poucos os povos que conseguem transformar esta diferença numa verdadeira cultura nacional.
Ao longo da sua história, Cabo Verde demonstrou uma extraordinária capacidade de resistência. Sobreviveu à escassez de recursos, às secas prolongadas, ao isolamento geográfico e às limitações inerentes à sua condição arquipelágica. Transformou dificuldades em oportunidades, consolidou instituições democráticas respeitadas e construiu um Estado cuja estabilidade constitui hoje uma referência em África. São conquistas inquestionáveis e merecedoras de reconhecimento.
Contudo, a história ensina igualmente que nenhuma sociedade vive eternamente dos êxitos do passado. Há um momento em que cada geração deixa de ser apenas herdeira da obra construída pelos seus antecessores e passa a ser responsável pela definição do próximo ciclo histórico. É precisamente nesse ponto que Cabo Verde parece encontrar-se.
Durante décadas, o país edificou o seu percurso de desenvolvimento sobre pilares que se revelaram decisivos: a estabilidade política, a ajuda internacional, as remessas da diáspora, o turismo, o investimento público e a credibilidade externa. Esse modelo permitiu expandir infraestruturas, melhorar indicadores sociais, reforçar a administração pública e consolidar a confiança dos parceiros internacionais.
Mas o mundo do século XXI já não é o mesmo que moldou essas escolhas.
Existe uma diferença profunda entre possuir projetos e possuir uma visão estratégica. Os projetos respondem a necessidades concretas, têm objetivos definidos e um horizonte temporal limitado. Uma visão, pelo contrário, transcende governos, ultrapassa legislaturas e inspira sucessivas gerações em torno de um mesmo propósito nacional. Os projetos resolvem problemas; as visões transformam destinos. Foi assim que Singapura passou de um pequeno território sem recursos naturais a uma das economias mais competitivas do mundo.
A economia global deixou de premiar apenas quem dispõe de recursos naturais. Premia, sobretudo, quem produz conhecimento, inovação, tecnologia e talento. A inteligência artificial está a transformar setores inteiros, a digitalização redefine os mercados, as alterações climáticas desafiam particularmente os pequenos Estados insulares e a competitividade mede-se cada vez mais pela capacidade de antecipar tendências do que pela dimensão territorial ou demográfica.
Perante esta realidade, a pergunta decisiva deixou de ser quanto Cabo Verde consegue crescer. A verdadeira questão consiste em saber para onde pretende crescer e qual o lugar que ambiciona ocupar no mundo das próximas décadas.
Existe uma diferença profunda entre possuir projetos e possuir uma visão estratégica. Os projetos respondem a necessidades concretas, têm objetivos definidos e um horizonte temporal limitado. Uma visão, pelo contrário, transcende governos, ultrapassa legislaturas e inspira sucessivas gerações em torno de um mesmo propósito nacional. Os projetos resolvem problemas; as visões transformam destinos.
Foi assim que Singapura passou de um pequeno território sem recursos naturais a uma das economias mais competitivas do mundo. Foi assim que a Irlanda reinventou a sua economia através do conhecimento e da inovação. Foi assim que o Ruanda decidiu reconstruir não apenas as suas instituições, mas também a confiança coletiva na possibilidade de um futuro diferente.
Nenhuma destas transformações nasceu exclusivamente de uma boa gestão administrativa. Nasceu da existência de uma visão clara, persistente e suficientemente mobilizadora para sobreviver às mudanças políticas.
É precisamente aqui que a reflexão sobre Cabo Verde ganha maior importância. Qual é a grande visão nacional para 2050? Que posição pretende o país ocupar na economia atlântica? Que papel deseja desempenhar na economia azul, na transição energética, na economia digital, na investigação científica, na valorização da diáspora ou na formação de talento? Existe um pensamento estratégico suficientemente sólido para orientar estas escolhas ou continuaremos a responder às urgências do presente sem construir, simultaneamente, o futuro?
Estas perguntas adquirem especial significado num momento em que se inicia um novo ciclo político. Francisco Carvalho assume a liderança do Governo não sobre um país em colapso, mas sobre uma democracia consolidada, instituições estáveis e uma economia confrontada com desafios estruturais que exigem muito mais do que boa administração. Exigem capacidade de transformação.
É precisamente aqui que se distingue a governação da liderança. Governar é assegurar o funcionamento das instituições, executar políticas públicas e responder às necessidades imediatas da população. Liderar, porém, significa criar condições para que o país seja amanhã diferente daquilo que é hoje. Significa antecipar desafios, mobilizar inteligências, construir consensos estratégicos e preparar oportunidades que ainda não são visíveis para a maioria dos cidadãos.
Talvez seja esta a maior responsabilidade histórica da atual liderança política: ajudar Cabo Verde a passar de uma cultura de gestão para uma cultura de visão. Porque os pequenos Estados não vencem pela dimensão do seu território nem pela abundância dos seus recursos. Vencem pela qualidade das suas instituições, pela inteligência das suas escolhas e pela capacidade de transformar limitações em vantagens competitivas.
A verdadeira riqueza de uma nação começa sempre por uma ideia. Uma ideia suficientemente forte para unir governos, oposição, universidades, empresas, municípios, diáspora e sociedade civil em torno de um mesmo horizonte nacional. Sem essa convergência, os programas sucedem-se, os projetos multiplicam-se e os governos alternam-se, mas o país corre o risco de caminhar sem uma direção estratégica claramente definida.
É por isso que a questão inicial permanece inteiramente atual: terá mesmo Cabo Verde uma visão estratégica de futuro? Ou possuirá apenas um conjunto de políticas públicas, por mais meritórias que sejam, incapazes de formar uma verdadeira arquitetura nacional de desenvolvimento?
Responder a esta pergunta talvez constitua o maior desafio político da presente década. Porque o futuro nunca acontece por acaso. O futuro constrói-se, planeia-se e lidera-se. E as nações que deixam de o imaginar acabam, inevitavelmente, por viver o futuro que outros imaginaram por elas.

