
Por: João Serra*
Ao novo Governo do PAICV, saído das eleições de 17 de maio de 2026, cabe transformar a alternância no poder numa verdadeira janela de oportunidade. O maior desafio que o executivo herda é imprimir à economia um crescimento mais robusto e, sobretudo, mais sustentável do que aquele que o país tem conhecido. Esse crescimento terá de traduzir-se, de facto, numa melhoria significativa das condições de vida dos cabo-verdianos. A verdade é que o crescimento registado nos últimos anos não se revelou sustentável nem produziu efeitos significativos no rendimento das famílias ou na criação de emprego.
Impõe-se ao Governo aproveitar esta viragem para realizar reformas estruturais que induzam um movimento de modernização e inovação com efeitos multiplicadores. Neste âmbito, o executivo deve fazer da reforma da Administração Pública uma prioridade inadiável: um aparelho redimensionado – mais enxuto e menos sorvedouro dos recursos do Estado –, ágil e flexível, capaz de responder à multiplicidade de demandas de um ambiente marcado pela complexidade e pela mudança acelerada. É a dieta institucional que o país há muito reclama.
Para o efeito, o novo Governo é chamado a definir uma visão de desenvolvimento assente numa estratégia de diferenciação sustentada e mobilizadora, propiciadora do consenso mais amplo possível, que responda aos desafios da economia globalizada em que o país tem de competir. Cabo Verde é uma Nação com forte identidade, de caráter tolerante e aberto ao exterior, cujos valores tiveram a sua melhor expressão sempre que se abriu ao mundo e se associou às dinâmicas de mudança e inovação.
Essa visão deverá colocar Cabo Verde no centro do processo de desenvolvimento à escala de África e global, promovendo o crescimento e o emprego através da qualificação das pessoas, das empresas, das instituições e de cada ilha, pelo desenvolvimento científico e pelo reforço da atratividade, da coesão social e da qualidade ambiental. Concretizá-la exige que o executivo identifique os fatores críticos e as vantagens competitivas do país, focalize nelas as políticas públicas e articule a estratégia nacional com os novos paradigmas de desenvolvimento mundial.
O Governo não pode, porém, iludir o diagnóstico: a baixa produtividade das empresas cabo-verdianas, a falta de competitividade a nível internacional e a pesada dívida pública que condiciona os investimentos em infraestruturas são desafios que se arrastam há vários anos. Por isso, impõe-se ao executivo foco na disciplina orçamental e a coragem de encetar reformas estruturais – educação, custos de contexto, regulação, fiscalidade e justiça – que promovam a competitividade da economia e a atração de mais investimento direto estrangeiro.
O maior desafio que o executivo herda é imprimir à economia um crescimento mais robusto e, sobretudo, mais sustentável do que aquele que o país tem conhecido. Esse crescimento terá de traduzir-se, de facto, numa melhoria significativa das condições de vida dos cabo-verdianos. A verdade é que o crescimento registado nos últimos anos não se revelou sustentável nem produziu efeitos significativos no rendimento das famílias ou na criação de emprego.
Compete igualmente ao Governo colocar a transformação digital no centro da sua agenda, pois é hoje uma alavanca incontornável: são as novas tecnologias que fomentam a globalização do século XXI e que, através das plataformas, permitem a participação de mais países e de empresas mais pequenas. À digitalização associam-se transformações disruptivas nos modelos de negócio e de relacionamento com o cliente, que trarão oportunidades únicas às empresas. Isso só acontecerá, porém, se o executivo lhes garantir o enquadramento que as coloque em posições competitivas mais vantajosas face ao exterior.
O novo Governo deve ainda promover uma efetiva política de industrialização e de aprovisionamento que libertem o país da excessiva dependência de importações e de cadeias de valor demasiado extensas, onde os riscos de disrupção são elevados. Urge recuperar autonomia, diversificando as fontes de produção e de abastecimento, com investimento nas indústrias e serviços ligados à transformação energética, ao digital e ao mar, de modo a criar emprego qualificado e produtos de maior valor acrescentado para exportação.
A transformação da agricultura deve constituir igualmente uma prioridade do investimento público e privado. Um setor agrícola mais moderno, produtivo e resiliente contribuirá para reduzir a dependência alimentar do exterior, reforçar a segurança alimentar e criar condições para o aumento das exportações, consolidando uma economia mais diversificada e sustentável.
Sendo o principal setor de atividade económica, o turismo exige do executivo um plano específico, de curto, médio e longo prazo, que o torne mais diversificado, sustentável, inclusivo e responsável. Cabo Verde tem condições para desenvolver o turismo de saúde, de natureza, de jogo, cultural e associado a eventos desportivos, e o Governo deve dotar o setor dos instrumentos financeiros à altura dessa ambição.
Superar estes problemas estruturais e abrir o país ao mundo cabe, em primeira linha, a quem governa: importa vencer as carências de qualificações, de suporte tecnológico, de coesão social e territorial, de ordenamento e de contexto jurídico e administrativo, mobilizar a confiança dos agentes e atrair o investimento privado. Isso passa por valorizar os fatores diferenciadores em que o país dispõe de vantagens comparativas, bem como o seu capital intelectual. Entre esses fatores destacam-se a identidade multicultural, a flexibilidade adaptativa e a capacidade relacional dos cabo-verdianos.
Três fatores diferenciadores de referência devem orientar essa aposta.
Primeiro, o oceano: com uma vasta zona económica exclusiva situada num eixo estruturante da rede global de fluxos de mercadorias, o mar é um espaço de oportunidades para rotas comerciais, logística e novos negócios ligados ao turismo, à energia, à biotecnologia e à aquacultura.
Segundo, a localização geográfica: Cabo Verde pode ser uma plataforma atlântica, um centro logístico intercontinental para pessoas e mercadorias, um espaço de fixação de indústrias de alto valor acrescentado – têxtil, calçado, energias renováveis ou agroalimentar – e um destino de eventos e nichos como o turismo desportivo, de montanha e sénior.
Terceiro, a cultura: a interligação única com o espaço da Língua Portuguesa abre perspetivas de cooperação e criação de valor na indústria de conteúdos e de software, na consultadoria internacional e nas parcerias estratégicas em comunicações, transportes, saúde ou formação de quadros.
Por fim – “last but not least” –, o executivo não deve esquecer que são os recursos humanos o principal fator de diferenciação de qualquer economia. Cumpre-lhe preparar a população cabo-verdiana para os desafios da sociedade do conhecimento, elevando os seus níveis de competência através da formação e da aprendizagem ao longo da vida para todos, incluindo a reconversão de competências, e de uma aposta no desenvolvimento científico e tecnológico. Para tal, é necessário implementar um plano ambicioso de requalificação das pessoas e dos processos, transversal a todas as áreas da governação. Esse deverá ser um verdadeiro plano tecnológico.
Praia, 25 de julho de 2026
*Doutorado em Economia
Blog: https://economianaserra.blogspot.com

