
Por: António Delgado Medina*
No passado dia 26 de julho de 2026, durante a sua 48.ª sessão, realizada em Busan, na Coreia do Sul, a UNESCO inscreveu as roças de São Tomé e Príncipe na Lista do Património Mundial da Humanidade.
A decisão constitui um marco histórico para aquele país irmão, ao reconhecer o valor universal de um conjunto de seis antigas roças que testemunham um sistema agroindustrial colonial ligado à produção de café e, sobretudo, de cacau, assente na migração e em formas de trabalho coercivo entre o final do século XIX e meados do século XX.
Ao tomar conhecimento desta decisão, pensei imediatamente em Cabo Verde.
Pensei na minha mãe, hoje com 94 anos, que trabalhou nas roças de São Tomé. Pensei na minha tia, irmã da minha mãe, que continua a viver naquele arquipélago. Pensei, sobretudo, nos milhares de cabo-verdianos cujas vidas ficaram para sempre ligadas àquele pedaço de terra africana.
Para muitas famílias do nosso país, as roças não são apenas um lugar da história; são parte integrante da sua memória familiar.
Foi precisamente durante a investigação que tenho vindo a desenvolver no âmbito da minha tese de doutoramento em Ciências Sociais, dedicada às políticas socioeconómicas de desenvolvimento como catalisadoras dos fenómenos migratórios em Cabo Verde, que compreendi uma realidade tantas vezes esquecida: a história das roças não pertence apenas a São Tomé e Príncipe. Pertence igualmente à memória coletiva de Cabo Verde. Compreender essa migração significa compreender como as secas, a fome, a pobreza e a ausência de oportunidades moldaram o destino de milhares de cabo-verdianos que partiram em busca da sobrevivência e de uma vida mais digna.
Ao longo desta investigação não me limitei à consulta de livros, documentos oficiais e estatísticas. Procurei ouvir aqueles que viveram essa experiência. Conversei com vários cabo-verdianos que trabalharam nas roças e encontrei nos seus testemunhos histórias marcadas pelo sacrifício, pela coragem, pela esperança e por uma extraordinária capacidade de resistência. Cada conversa deu um rosto humano aos números e confirmou que, por detrás de cada fluxo migratório, existem vidas, famílias, sonhos e profundas marcas emocionais.
No passado dia 26 de julho de 2026 a UNESCO inscreveu as roças de São Tomé e Príncipe na Lista do Património Mundial da Humanidade. (…) A história das roças não pertence apenas a São Tomé e Príncipe. Pertence igualmente à memória coletiva de Cabo Verde. Compreender essa migração significa compreender como as secas, a fome, a pobreza e a ausência de oportunidades moldaram o destino de milhares de cabo-verdianos que partiram em busca da sobrevivência e de uma vida mais digna.
As roças nasceram como grandes unidades agrícolas organizadas para responder à crescente procura internacional de café e, posteriormente, de cacau. Após a abolição formal da escravatura, o sistema colonial português passou a recorrer ao recrutamento de trabalhadores provenientes de vários territórios africanos, entre eles Cabo Verde, para assegurar a mão de obra necessária ao funcionamento dessas explorações.
O próprio dossiê de candidatura apresentado à UNESCO reconhece que este sistema assentou na migração forçada e em formas de trabalho coercivo, constituindo hoje um testemunho material de uma das páginas mais complexas da história colonial portuguesa.
Durante décadas, milhares de cabo-verdianos deixaram as suas ilhas empurrados pelas secas sucessivas, pelas crises alimentares e pela escassez de oportunidades. Muitos partiram acreditando que regressariam poucos anos depois. Alguns regressaram. Muitos outros permaneceram em São Tomé e Príncipe, onde constituíram família, criaram raízes e contribuíram, com o seu trabalho, para o desenvolvimento económico daquele país.
É precisamente por isso que este reconhecimento da UNESCO ultrapassa largamente a preservação de um conjunto de edifícios históricos. As roças são património de São Tomé e Príncipe, mas são igualmente lugares de memória da diáspora cabo-verdiana. Nas suas casas, nos antigos hospitais, nas escolas, nas igrejas, nos armazéns e nas plantações permanecem silenciosamente inscritas as histórias de milhares de homens e mulheres cabo-verdianos que ajudaram a construir aquela realidade.
Quando falamos de património, pensamos frequentemente em monumentos, edifícios ou paisagens culturais. Contudo, nenhum património adquire verdadeiro significado sem as pessoas que lhe deram vida. As paredes das antigas roças guardam memórias de trabalhadores anónimos que suportaram enormes dificuldades longe da sua terra natal, alimentando diariamente a esperança de proporcionar um futuro melhor às suas famílias.
Ao estudar as migrações cabo-verdianas compreendi igualmente que a mobilidade acompanha a nossa história há várias gerações. Mudaram os destinos, mudaram os meios de transporte e mudaram as circunstâncias económicas. Mas permanece o mesmo desafio nacional: criar condições para que emigrar seja uma escolha livre e consciente, e nunca a única alternativa para alcançar uma vida digna.
Talvez esta distinção internacional constitua também uma oportunidade para Cabo Verde olhar com maior atenção para esta parte da sua história. Ainda existem testemunhos vivos que importa escutar, fotografias que importa preservar, documentos que importa estudar e memórias que merecem ser registadas antes que desapareçam com aqueles que as viveram. Preservar esta herança não é apenas um dever histórico; é um compromisso com as gerações futuras.
A preservação do património não se faz apenas restaurando edifícios. Faz-se, sobretudo, preservando a memória das pessoas.
A UNESCO reconheceu agora o valor universal das roças de São Tomé e Príncipe. Cabe-nos, enquanto cabo-verdianos, reconhecer também o valor universal da memória daqueles que ali trabalharam, sofreram, sonharam e construíram uma parte importante da nossa história coletiva.
Porque as roças pertencem hoje ao Património Mundial da Humanidade.Mas a coragem, o sacrifício, a dignidade e a esperança dos milhares de cabo-verdianos que por elas passaram pertencem, para sempre, ao património da identidade de Cabo Verde.
27 de julho de 2026
*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

