
Por: Nuno Flores e Rita Rainho
A hora aproximava-se e verificámos a mala. Estava tudo: roupa, produtos de higiene, as encomendas para entregar, um cadeado, o lanche e um chocolate, escolhido para acalmar o nervosismo da primeira viagem de avião.
A mala foi despachada. Já a caminho do controlo de segurança, surgiu uma informação guardada até ao último instante:
– M traze nha martel na mala.
– Hum?
Quem ia viajar era Maísa Fortes, calceteira de Alto de Bomba. O martelo acompanhava-a desde 2020, quando participou na formação Amdjer na Obra no âmbito da Iniciativa Outros Bairros (IOB). Era o instrumento do seu ofício. Mas, naquele momento, era muito mais do que isso.
Para perceber porque é que uma mulher leva um martelo na primeira viagem de avião, é preciso recuar alguns anos.
Em 2019, a Iniciativa Outros Bairros, promovida pelo Ministério das Infraestruturas, Ordenamento do Território e Habitação, passou a exigir que parte dos trabalhadores das empreitadas fossem moradores desempregados dos bairros intervencionados.
Parecia uma solução robusta para criar emprego local. Até que um dia chegaram ao escritório do IOB localizado em Alto de Bomba várias mulheres. A reivindicação era simples e difícil de ignorar: o salário recebido pelos homens nem sempre chegava a casa.
Mas não bastava contratá-las; era preciso aprenderem um ofício. A resposta já existia dentro do próprio país. No Carriçal, extremo leste da ilha de São Nicolau, um grupo de mulheres tinha aprendido a calcetar. O isolamento da localidade, ainda marcada hoje por muitos km por calcetar transformara essa necessidade coletiva numa aprendizagem. Foi desse contexto que nasceu um conhecimento que, mais tarde, viajaria para outra ilha.
Em novembro de 2020, seis mulheres do Carriçal deslocaram-se a São Vicente para formar dez mulheres de Alto de Bomba. A transmissão não foi apenas técnica. Foi uma passagem de confiança entre mulheres que conheciam, por experiência própria, o que significa conquistar um lugar num trabalho tradicionalmente masculino.
Quem ia viajar era Maísa Fortes, calceteira de Alto de Bomba. O martelo acompanhava-a desde 2020, quando participou na formação Amdjer na Obra no âmbito da Iniciativa Outros Bairros. Era o instrumento do seu ofício. Mas, naquele momento, era muito mais do que isso. (…) O martelo seguia cuidadosamente protegido na mala. Acompanhava Maísa na sua primeira viagem à cidade da Praia, onde participaria no lançamento do livro Iniciativa Outros Bairros – um urbanismo invisível, relacional e comprometido com as lutas sociais de Alto de Bomba, Cabo Verde.
Aprendeu-se a escolher a pedra, a manejar o martelo, assentar a calçada, calcular a área, fazer as mestras, mas aprendeu-se também outra coisa: que o conhecimento podia circular de mulher para mulher e continuar a multiplicar-se. Pouco tempo depois, seriam as mulheres de Alto de Bomba a formar outras mulheres da mesma comunidade, sonhando já levar essa aprendizagem a todo o Cabo Verde.
A formação deu origem aos primeiros contratos, a novas obras e a novas formações conduzidas pelas próprias mulheres. Quando a Iniciativa terminou, o grupo Amdjer na Obra continuava ativo, organizado e preparado para procurar novas oportunidades.
Talvez por isso Maísa não tenha hesitado em colocá-lo na mala. Um martelo pesa. Ocupa espaço. Pode criar problemas no aeroporto. Mas aquele martelo já não era apenas uma ferramenta. Era a prova de que as políticas públicas podem deixar mais do que uma obra construída. Podem deixar um ofício, uma profissão e uma história que continua a viajar, mesmo depois de terminada a Iniciativa.
A resposta à pergunta feita no aeroporto acabou por chegar naturalmente e sem que nunca mais a esqueçamos. Maísa sorriu e disse:
Es martelo é k dam nha traboi. Es martel é k ta dam nha na fim d’ mês. E ê ess martel k ta levam aoj pa primer vez pa Praia.
Não era apenas o martelo de Maísa. Era o martelo de uma aprendizagem que passou de mulheres de São Nicolau para mulheres de São Vicente, destas para outras mulheres de Alto de Bomba e, como diziam a um dado momento, para Cabo Verde e para o mundo.
O martelo seguia cuidadosamente protegido na mala. Acompanhava Maísa na sua primeira viagem à cidade da Praia, onde participaria no lançamento do livro “Iniciativa Outros Bairros-um urbanismo invisível, relacional e comprometido com as lutas sociais de Alto de Bomba, Cabo Verde”.
À primeira vista, parece apenas um detalhe curioso. Mas talvez seja a melhor definição do próprio livro. Uma investigadora leva um computador. Uma fotógrafa leva uma máquina fotográfica. Uma calceteira leva um martelo. Não como adereço. Não como um símbolo, mas como instrumento de trabalho: aquele que transformou uma formação num trabalho, um trabalho numa vida mais autónoma.
Talvez este seja, afinal, um livro-martelo: um livro que nasceu de uma transformação e recorda que uma política pública se mede pelas mãos das pessoas. Há livros que se leem. E há livros que continuam a calcetar futuros.
Através do martelo, enquanto ferramenta discursiva de base popular, a Maísa não só contou a sua história e o seu envolvimento com a IOB, como interpelou o Estado sobre o dever de proteger os direitos à habitação digna, às infraestruturas básicas, ao trabalho e à participação nas decisões políticas sobre o lugar onde vivem, sobretudo quando esses direitos são subordinados a interesses económicos e imobiliários.
Enquanto tudo isto acontecia na Livraria Nho Eugénio, em Abril de 2026, na cidade da Praia, a conversa entre Maísa Fortes, Rosário Luz e Mirceia Delgado, desenrolava-se em contraponto com a campanha para as legislativas, transmitida pelas televisões de todo o país.
Entre as habituais promessas destacou-se a do cabeça de lista por São Vicente do partido vencedor das eleições – hoje Ministro do atual Governo – de que a Iniciativa Outros Bairros não só iria continuar, como se iria ampliar. O compromisso, porém, contrasta com a experiência relatada por Maísa, que revela como a incapacidade do Estado para garantir esses direitos continua a alimentar desigualdades territoriais.
Hoje, essa promessa já não pertence ao campo eleitoral, mas ao da ação política. A continuidade da IOB, constantemente reivindicada pelos moradores que o martelo de Maísa representa, só fará sentido se vier acompanhada de medidas concretas de justiça territorial que vão além da mera execução de obras. Isso implica enfrentar as desigualdades das zonas autoproduzidas e assumir a sua transformação, bem como a continuidade da IOB, como uma responsabilidade permanente e contínua do Estado.

