
Por: William Sena Vieira
Um dos maiores equívocos do desporto cabo-verdiano continua a ser a confusão entre competição e desenvolvimento.
Durante décadas, instalou-se a ideia de que participar em campeonatos, torneios ou competições internacionais significava, automaticamente, desenvolver o sistema desportivo nacional. Mas competir e desenvolver são conceitos distintos. A competição é um instrumento; o desenvolvimento deve ser o objetivo.
É verdade que, num determinado momento da nossa história, esta lógica fazia sentido. Um país recém-independente precisava de afirmar a sua identidade, conquistar reconhecimento internacional e ocupar o seu lugar entre as nações.
O desporto desempenhou esse papel com enorme mérito. A presença de Cabo Verde nas competições internacionais foi importante para afirmar a bandeira, fortalecer o sentimento nacional e demonstrar que o país era capaz de competir ao mais alto nível.
Contudo, cinquenta anos depois, o contexto mudou profundamente. O desporto mundial tornou-se uma indústria global, onde a competição representa apenas uma pequena parte da cadeia de valor. Hoje, as nações mais bem-sucedidas não medem apenas o número de medalhas conquistadas ou de torneios disputados; avaliam, sobretudo, o impacto económico, social e institucional que essas competições deixam como legado.
Por isso, a questão essencial já não deve ser quantas competições Cabo Verde disputou. A verdadeira pergunta é outra: o que ficou para o país depois de cada competição?
Que infraestruturas foram construídas? Que ativos foram criados? Quantos patrocinadores foram conquistados? Que receitas próprias passaram a existir? Quantos dirigentes e técnicos foram qualificados? Que empresas nasceram em torno do desporto? Que empregos foram criados? Que capacidade financeira foi desenvolvida para reduzir, progressivamente, a dependência do Orçamento do Estado?
Estas perguntas revelam a diferença entre uma política centrada na competição e uma política orientada para o desenvolvimento.
O desporto mundial tornou-se uma indústria global, onde a competição representa apenas uma pequena parte da cadeia de valor. Hoje, as nações mais bem-sucedidas não medem apenas o número de medalhas conquistadas ou de torneios disputados; avaliam, sobretudo, o impacto económico, social e institucional que essas competições deixam como legado. Por isso, a questão essencial já não deve ser quantas competições Cabo Verde disputou. A verdadeira pergunta é outra: o que ficou para o país depois de cada competição?
Durante muitos anos consolidou-se uma cultura de financiamento permanente. Todos os anos o Estado financia deslocações, estágios e participações internacionais, mas raramente se exige que esses investimentos produzam um retorno estrutural para as modalidades. O financiamento tornou-se um fim em si mesmo, quando deveria ser um instrumento para gerar autonomia, património e sustentabilidade.
Antes da atribuição de qualquer apoio público, deveria colocar-se uma questão simples: que valor acrescentado esta participação deixará para o país? A resposta não pode limitar-se ao resultado desportivo. Deve incluir indicadores concretos de desenvolvimento, como novas fontes de receita, valorização da marca da modalidade, formação de recursos humanos, fortalecimento institucional, criação de infraestruturas ou captação de investimento privado.
É precisamente aqui que se torna evidente a diferença entre os dois modelos.
A cultura da competição concentra-se no calendário desportivo. O foco está na preparação da equipa, na logística, nas deslocações e no resultado imediato. Quando termina a competição, termina também o ciclo de planeamento. Pouco permanece para além da classificação obtida.
Já a cultura do desenvolvimento encara cada competição como uma oportunidade de criar valor duradouro. Um campeonato internacional deve servir para atrair patrocinadores, reforçar a notoriedade da marca nacional, desenvolver competências técnicas, profissionalizar dirigentes, captar investimento, dinamizar o turismo desportivo, estimular novos negócios e gerar receitas que permitam fortalecer as organizações desportivas.
Nesta perspetiva, o verdadeiro sucesso não termina no apito final; começa precisamente quando a competição acaba e o legado permanece.
Cabo Verde possui um ativo extraordinário que são os seus atletas. Nunca houve tantos cabo-verdianos a competir nas principais ligas profissionais do mundo e em várias modalidades.
Paradoxalmente, esse sucesso individual ainda não se traduz num desenvolvimento estrutural do sistema desportivo nacional. Os atletas evoluíram para a economia global do desporto, mas muitas organizações continuam dependentes de modelos de financiamento concebidos há várias décadas.
Criou-se, assim, uma realidade contraditória: de um lado, profissionais altamente valorizados nos mercados internacionais; do outro, instituições nacionais que continuam a enfrentar limitações financeiras, estruturais e organizacionais muito semelhantes às do passado.
Talvez esteja precisamente aqui o maior desafio do desporto cabo-verdiano nas próximas décadas. O país já demonstrou que sabe competir. O que falta demonstrar é que também sabe transformar a competição em desenvolvimento.
A participação é importante, contudo, sem criar riqueza, sem deixar património, sem fortalecer as organizações e sem gerar autonomia financeira significa, na prática, confundir competição com desenvolvimento.
Competir é um meio.Desenvolver deve ser sempre o fim.

