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O mercado da memória

Por: Estêvão Rodrigues

Há mercados onde se compram alimentos. E há mercados onde a alma regressa a casa.

Nunca consigo olhar um mercado apenas como o lugar onde o dinheiro troca de mãos e os produtos mudam de dono. Para mim, o mercado é o último elo da longa peregrinação da terra até ao homem. É ali que a semente termina a sua viagem e começa outra: a da vida que se renova em cada mesa, em cada família, em cada gesto de partilha. Ali, os alimentos deixam de ser mercadorias. Tornam-se memória. Tornam-se cultura. Tornam-se identidade.

Cada grão repousado sobre uma lona transporta uma história invisível. Cada monte de feijão, de milho ou de amendoim encerra dias de sol inclemente, noites de esperança, mãos calejadas, rostos queimados pelo vento e olhos que aprenderam a confiar na chuva, mesmo quando ela parecia ter-se esquecido do caminho.

Comemos pão, milho ou feijão, mas alimentamo-nos também de recordações. Recordo uma conversa com uma fisioterapeuta cabo-verdiana que me deixou uma inquietação daquelas que permanecem muito para além das palavras. Dizia ela que talvez o nosso impulso de guardar comida, de encher a despensa e até de comer para além da fome seja uma memória antiga, gravada nas profundezas do corpo, herança silenciosa das crises alimentares que atravessaram gerações.

Mercado do Aldo Dondo, Cuanza Norte, Angola

Talvez a escassez nunca desapareça por completo. Talvez continue escondida em algum lugar da alma, fazendo-nos acreditar que amanhã poderá faltar aquilo que hoje temos em abundância. Não sei se a ciência confirma essa hipótese. Mas o coração compreende-a sem precisar de provas.

E, no meu esforço persistente para perder peso, descubro que a verdadeira batalha não acontece apenas entre o prato e a vontade. Ela trava-se também entre a memória e o presente, entre o menino que conheceu a incerteza da colheita e o homem que hoje precisa de aprender que a abundância não exige excesso.

Basta imaginar uma simples massa de milho com molho de galinha, preparada à moda cabo-verdiana, para o tempo perder a sua autoridade.

A minha mãe, Badjuda, regressa inteira. Não entra pela porta. Nasce do aroma.Senta-se à mesa.

Sorri em silêncio.

Nunca consigo olhar um mercado apenas como o lugar onde o dinheiro troca de mãos e os produtos mudam de dono. (…) Cada grão repousado sobre uma lona transporta uma história invisível. Cada monte de feijão, de milho ou de amendoim encerra dias de sol inclemente, noites de esperança, mãos calejadas, rostos queimados pelo vento e olhos que aprenderam a confiar na chuva, mesmo quando ela parecia ter-se esquecido do caminho. (…) Hoje sei que nunca compro apenas alimentos. Compro memórias. Compro gratidão. Compro um pedaço da infância que insiste em permanecer viva.

E, por breves instantes, deixo de ser o homem que a vida construiu para voltar a ser apenas kel rapsinhu di Fontes de Almeida, correndo descalço entre pedras, poeira e sonhos.

Depois chegam o feijão e o amendoim. Frescos, secos ou ainda presos às ramas, nunca são apenas grãos. São chaves. Abrem portas que o tempo nunca conseguiu fechar.

Volto às achadas de Fontes de Almeida, onde a terra árida ensinava muito antes da escola. Ali aprendi que a esperança também se semeia.

Milho e feijão partilhavam o mesmo covacho, como dois irmãos confiados ao mesmo destino. Cresciam olhando o céu, esperando a bênção de Nhu São Pedro, enquanto os homens olhavam a terra e as mulheres aprendiam a esperar sem desistir.

Semear era um acto de fé. Colher era uma graça. E quando a chuva escolhia outros caminhos, restava-nos apenas recomeçar, porque há povos que fazem da esperança a sua forma de resistência.

Talvez seja por isso que nunca atravesso um mercado com indiferença. Sempre que encontro montes generosos de feijão ou de amendoim-macarra em Cabo Verde, ginguba em Angola – compro sempre um pouco mais do que preciso. Não por necessidade. Mas por gratidão.

Cada compra é uma homenagem silenciosa. Cada punhado de grãos é um diálogo com o passado. Cada saco que levo comigo transporta muito mais do que alimento. Transporta afecto.

Vejo novamente a minha avó Dondona. Vejo a minha mãe Badjuda. Curvadas sobre as achadas secas de Fontes e Mitra, enfrentando um sol que parecia nunca ter piedade.

Vejo-as caminhando para as feiras dos Órgãos e de São Domingos. Levam sacos aos ombros. Mas o verdadeiro peso não era o dos grãos. Era o da sobrevivência.  Era o futuro da família.Era a dignidade de quem recusava desistir.

Compreendo agora que foram essas mulheres as primeiras engenheiras da esperança que conheci. Não construíram pontes nem edifícios. Construíram vidas. Construíram futuros. Construíram-me.

É por isso que esta fotografia não mostra apenas um mercado.Mostra uma herança. Uma linhagem de mulheres que transformaram sementes em alimento, trabalho em dignidade e sacrifício em amor.

Cada monte de feijão é uma página da minha infância. Cada medida vendida prolonga uma história que começou muito antes de mim.

Cada mulher que comercializa os frutos da terra faz renascer, diante dos meus olhos, aquelas que me ensinaram que cultivar a terra é também cultivar o amanhã.

Hoje sei que nunca compro apenas alimentos. Compro memórias. Compro gratidão. Compro um pedaço da infância que insiste em permanecer viva.

E, sem dar por isso, continuo a conversar, em silêncio, com as mulheres extraordinárias que fizeram de mim quem sou.

Porque há mercados onde se vende comida. E há mercados onde a terra encontra o homem. Onde o passado alimenta o presente. E onde a alma, por fim, reencontra as suas raízes.

Amherst, Massachusetts, USA, 1 de Agosto de 2026

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