
Por: Américo Medina
A propósito de uma crítica ao artigo de Silvino da Luz
O título do artigo do AV é forte(?)…, mas já a “tese” que lhe precede está colada com cuspo e grávida de equívocos. Sustentar que entrámos no “fim da geografia como significado geoestratégico” porque drones, satélites comerciais e processamento de dados alteraram a guerra moderna parte de uma constatação correta — a tecnologia transformou profundamente o exercício do poder — para chegar a uma conclusão que não decorre dela. Na realidade a tecnologia não aboliu a geografia, alterou a maneira de a explorar, defender, negar e valorizar.
É aí que começa o equívoco da crítica falhada ao artigo do Comandante Silvino da Luz. O autor constrói uma oposição entre “posição no mapa” e “capacidade tecnológica” que simplesmente não existe na estratégia contemporânea, existe apenas amálgama que faz com o que ele leu e, mal terá interpretado! É que geografia e tecnologia não são alternativas, são sim multiplicadores uma da outra. Uma posição estratégica sem capacidades pode permanecer subaproveitada ou tornar-se vulnerável mas, capacidades avançadas sem acesso, logística, cobertura, infraestrutura, energia, comunicações, portos, aeroportos, estações terrestres, corredores marítimos e espaço aéreo também não se projetam por magia.
Basta observar e, nada mais nada menos, precisamente os exemplos convocados para declarar a morte da geografia, senão vejamos: drones dependem de alcance, bases, comunicações, espectro, logística e distância ao objetivo; satélites dependem de órbitas, cobertura, estações de solo, terminais e redes terrestres e, a própria Starlink, apresentada quase como símbolo acabado de um poder libertado do território, não existe num espaço abstrato pois que serve utilizadores localizados, opera através de espectro regulado e integra uma arquitetura física distribuída. E há um dado ainda mais eloquente: segundo a União Internacional das Telecomunicações, mais de 99% do tráfego internacional de dados continua a ser transportado por cabos submarinos, facto incontornável! Ora cabos têm rotas, rotas têm pontos de amarração, pontos de amarração situam-se em territórios e, os territórios têm jurisdição, vulnerabilidades e valor estratégico – Alguma dúvida Sr. AV?
A OTAN, muito menos informada e up to date do que o Sr. AV, parece igualmente não ter recebido a notícia do “fim da geografia”, nem este ainda lhes enviou esse seu manual acerca! É que a OTAN, quando reforça a proteção de cabos e outras infraestruturas críticas no Báltico, combina presença naval, aeronaves de patrulha, drones, sensores e vigilância…, ou seja: tecnologia nova aplicada a um espaço geográfico concreto, ponto final parágrafo! Vejam que, a entrada da Finlândia e da Suécia mudou a geometria estratégica do Báltico justamente porque o território, as costas, os acessos e as linhas de comunicação continuam a importar, mostrando-nos de forma inequívoca que a tecnologia não substitui a posição; aumenta o valor de quem sabe utilizá-la. E se ainda persistirem dúvidas na fantástica cabeça do AV, ele que pergunte ao Dr. Prof. Ph.D e ex-colega José Gonçalves, acerca dos ensinamentos que ele retirou da relação entre tecnologia e geografia ao tentar erradicar os cancelamentos devidos à bruma-seca aí na complexa geografia de São Pedro!
Também é excessivo reduzir a reflexão do Comandante Silvino da Luz a uma espécie de reciclagem de Mahan, Mackinder e Spykman. Estes autores fazem parte do património clássico da geopolítica, naturalmente. Mas, o artigo em causa não se limita a dizer que Cabo Verde possui valor estratégico porque está “bem colocado no mapa”, nada disso! Fala de FIR, portos, aeroportos, telecomunicações e dados, vigilância da ZEE, segurança marítima, monitorização ambiental, logística, cooperação, navegação aérea, ciência e tecnologia. Pode discutir-se a profundidade com que cada vetor é desenvolvido, devido creio às limitações do número de caracteres impostas pelo jornal…, já não é intelectualmente rigoroso transformar o texto numa caricatura de determinismo geográfico para depois refutar essa caricatura.
Há, aliás, uma formulação muito simples que resolve grande parte desta discussão, na minha opinião pois que, geografia continua a ser potencial sim senhora, e capacidade converte potencial em poder; às instituições e à diplomacia, compete converter isso em influência. O erro, para mim, não está em reconhecer o valor geoestratégico de Cabo Verde(!)…, o erro estará sim, em imaginar que esse valor se realiza automaticamente. Silvino da Luz não precisa de estar errado para que seja necessário acrescentar drones, inteligência artificial, sensores, cibersegurança e processamento de dados à equação. É precisamente essa atualização que um debate realmente sério é bem intencionado, deveria fazer.
A “crítica” sobre a China merece tratamento semelhante. É perfeitamente legítimo dizer que o artigo poderia ter desenvolvido mais explicitamente o papel da China na atual recomposição internacional – Quem escreve para os jornais sabe que as redações impõem limites de caracteres! Mas uma omissão não destrói uma tese, sobretudo quando o texto defende expressamente uma leitura multipolar, relações Norte-Sul e Sul-Sul e maior projeção de Cabo Verde no espaço africano. A ascensão chinesa, longe de demonstrar a irrelevância da geografia, reforça a importância das rotas marítimas, dos portos, das cadeias logísticas, dos pontos de passagem e da infraestrutura digital.
Mas, a meu ver, mais problemática é a afirmação de que a China seria hoje “dominante nas cadeias de semicondutores”, apresentada com a autoridade de Chip War(!)…, quando todos sabemos que, a realidade é bem mais complexa. A cadeia dos semicondutores é talvez um dos melhores exemplos contemporâneos de especialização geográfica e interdependência: desenho, software, equipamentos de litografia, materiais, fabricação, encapsulamento e montagem distribuem-se por diferentes países e empresas. A TSMC, em Taiwan, continua na vanguarda da fabricação avançada e iniciou produção em volume de 2 nanómetros no final de 2025 e, a própria concentração de capacidades críticas em determinadas geografias é uma das grandes vulnerabilidades estratégicas da indústria. Ora, convenhamos que, Invocar os chips para anunciar o fim da geografia é, portanto, uma escolha curiosa porque, umas poucas indústrias estão aí demonstrando precisa e tão claramente o contrário!!
Depois vêm os números do Orçamento, em que AV, faz a comparação entre 172,2 milhões de escudos de assistência técnica não residente e 5,3 milhões de assistência técnica residente à primeira pode soar contabilisticamente interessante, desde que a classificação e o perímetro sejam/fossem corretamente interpretados. O problema surge quando desses dois números se salta para a conclusão de que “quem produz hoje o conhecimento técnico da nossa defesa não é o país”. Ora, isso, em nome do rigor não é uma conclusão estatística! É sim, uma inferência que exigiria conhecer a natureza dos contratos, o conteúdo da assistência, quem define requisitos, quem comanda, quem opera, que conhecimento é transferido, que competências existem nas Forças Armadas e qual a dependência efetiva em cada sistema crítico. Temos como negar que uma rubrica orçamental mede despesa, e que não mede, por si só, soberania intelectual?!
O mesmo raciocínio deve ser aplicado ao King Air 360ER. Mesmo admitindo uma opção governamental de alterar ou descontinuar o modelo de operação da aeronave, isso não demonstra, por si, “dependência estrutural” de Portugal, Estados Unidos, França e União Europeia. Uma decisão sobre um meio concreto pode resultar de custo, doutrina, disponibilidade, formação, manutenção, prioridades ou opção de política pública. Para provar dependência estratégica seria necessário demonstrar quais funções soberanas Cabo Verde é incapaz de assegurar, por quanto tempo, em que cenários e com que consequências. Fora disso todo o resto deixa de ser análise e acho que nem opinião é mas pura adjetivação, que é o forte do Sr. AV!
Há, além disso, uma confusão recorrente( até nas academias muitos fazem isso) entre autonomia estratégica e autarcia tecnológica. Nenhum pequeno Estado — e, na realidade, nenhuma grande potência — produz internamente todas as tecnologias críticas de que depende. Soberania moderna não significa fabricar tudo sozinho (vejam como as gigantes AIRBUS e BOEING deixaram de ser construtoras/fabricantes para serem montadoras)…, significa saber quais capacidades têm de permanecer sob comando nacional, quais podem ser obtidas por parceria, quais redundâncias são indispensáveis, que dependências são aceitáveis e quais se tornam riscos intoleráveis. Para Cabo Verde, a pergunta que creio ser sensata formularmos não é se “produzimos tudo?” mas será acerca da nossa cavidade de conservamos liberdade de decisão, consciência situacional, capacidade de comando e acesso resiliente às funções essenciais.
A passagem sobre África, à boa maneira e estilo do AV, é igualmente mais declarativa do que demonstrativa. Dizer que Cabo Verde “nunca esteve à altura de assumir, com consequências, a sua situação africana” pode expressar uma opinião política legítima mas, não constitui análise enquanto não forem definidos critérios, períodos, decisões e resultados contra os quais essa afirmação possa ser testada. E nisso, vejo que há uma ironia adicional: o artigo de Silvino da Luz que se pretende criticar dedica precisamente uma parte substantiva à CEDEAO, à União Africana, ao pan-africanismo, à integração regional e ao papel que Cabo Verde deve assumir como Estado africano insular. Acusar o texto de relutância perante África é, no mínimo, uma leitura difícil de conciliar com o texto efetivamente publicado.
A digressão posterior sobre Francisco Carvalho, Pedro Pires, José Maria Neves e a escolha da pasta das Finanças torna ainda mais visível a deslocação do argumento. Nada disso demonstra ou refuta a validade geoestratégica do Atlântico Médio, a relevância da ZEE, o valor da FIR do Sal ou a necessidade de capacidades tecnológicas. É puro comentário político-partidário enxertado à força e de forma inoportuna numa discussão estratégica. Pode ter interesse noutro artigo mas aqui, enfraquece a pretensão de que estamos perante uma refutação conceptual!
Chegamos, finalmente, à proposta dos 10 a 20% do investimento do Cabo Verde Digital/TechPark para tecnologia dual. A ideia de estimular tecnologia dual, competências nacionais em drones, sensores, análise de dados, cibersegurança, observação marítima ou inteligência artificial é discutível no melhor sentido da palavra: merece estudo, nada de achismo. A percentagem, porém, aparece sem qualquer demonstração pois eu pergunto…, porquê 10%(?); porquê 20%? Qual ameaça se pretende mitigar? Qual missão? Qual conceito de operações? Qual mercado? Que competências existem? Qual regime de procurement? Qual enquadramento de exportação e segurança? Qual retorno civil e militar? Que custo de oportunidade terá retirar esses recursos a outras prioridades digitais?Como muitos de nós, eu aprendi que estratégia séria começa por ameaças, missões e capacidades; só depois chega à tecnologia e ao orçamento. Ora fixar primeiro uma percentagem e procurar depois uma estratégia que a justifique é inverter a sequência recomendada em qualquer lado e alinhado com as boas práticas!
As referências a Anduril, Helsing e Shield AI também impressionam mais pelo nome do que pela comparabilidade…, AV adora e vibra com essas coisas! As três, são empresas inseridas em ecossistemas industriais, financeiros, militares e de contratação pública de enorme escala. A Anduril anunciou uma ronda de 1,5 mil milhões de dólares em 2024; a Helsing levantou 600 milhões de euros em 2025, depois de 450 milhões na ronda anterior; a Shield AI anunciou em 2026 um pacote de financiamento de 2 mil milhões de dólares…, mas não significa que Cabo Verde deva abdicar de ambição tecnológica. Significa precisamente que não se pode apresentar esses casos como se bastasse reservar uma percentagem do TechPark para reproduzir, em miniatura, o ecossistema que os produziu.
Há um caminho muito mais realista e, curiosamente, muito mais coerente com o artigo de Silvino da Luz: escolher nichos em que a geografia de Cabo Verde cria procura, dados, ambiente de teste e vantagem operacional. Maritime Domain Awareness; fusão de AIS, radar, dados satelitais e sensores; drones de vigilância marítima; monitorização da ZEE; comunicações resilientes; cibersegurança de infraestruturas críticas; busca e salvamento; meteorologia; gestão de tráfego aéreo; deteção de pesca ilegal; manutenção e integração de sistemas. Aqui, sim, TechPark, universidades, Forças Armadas, Guarda Costeira, ASA, operadores privados e parceiros externos poderiam formar um ecossistema de tecnologia dual com utilidade concreta e potencial exportador.
Mas repare-se no paradoxo: esse caminho só faz sentido porque Cabo Verde tem a geografia que tem! É a dimensão oceânica, a localização atlântica, a ZEE, a FIR, as rotas, os portos, os aeroportos e a exposição a determinados riscos que justificam precisamente essas tecnologias. A suposta refutação termina, portanto, por confirmar a premissa que pretendia derrubar – Amálgama intelectual total, diria!
Há um ponto do texto crítico com o qual vale a pena concordar sem hesitação: posição geográfica, sozinha, não chega, ! Mas, nunca chegou…(!), um ativo estratégico sem capacidade, doutrina, investimento e instituições pode ficar adormecido ou ser instrumentalizado por terceiros. Mas dizer isto é muito diferente de decretar o “fim da geografia”. Na minha opinião devemos é deixar de celebrar a geografia apenas como destino e começar a administrá-la como um ativo da maior relevância!
Como muitos dizem e eu estou absolutamente de acurado, será exatamente aí que a reflexão de Silvino da Luz conserva mérito. Pode e deve ser atualizada com a China, inteligência artificial, constelações de satélites, sistemas autónomos, cibersegurança, resiliência de cabos submarinos e novas formas de conflito. Atenção, porém, actualizar não é invalidar e, modernidade tecnológica não é sinónimo de amnésia geopolítica.
No século XXI, poder estratégico não é geografia ou tecnologia, passou a ser geografia com tecnologia, capital humano, instituições, alianças, capacidade de decisão e credibilidade. Cabo Verde terá tanto mais poder de negociação quanto melhor conseguir combinar esses fatores, esta sim é, na minha opinião a discussão que interessa.
Temos evidências nos últimos anos que nos vêm da frente leste, do Estreito de Ormuz, do Médio Oriente, da Gronelândia/Dinamarca/Trump que a geografia não morreu, tornou-se sim mais exigente. Até do Aeroporto Internacional “Cesária Évora”, ali ao lado da minha porta vêm lições interessantes entre a relação que continua a haver entre geografia e tecnologia! Perguntem ao Dr. Prof. Ph.D e ex-Ministro José Gonçalves!
Américo Medina
Consultor no Aerospace

