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Como lidar com uma sociedade que está a empobrecer politicamente

Por: João Vieira-Baptista *

A cada ciclo eleitoral, repetimos os mesmos rituais. Mudam os protagonistas, renovam-se os slogans, multiplicam-se as promessas e inflamam-se as redes sociais. Contudo, permanece uma pergunta mais profunda e incómoda: estamos politicamente mais exigentes ou apenas mais barulhentos? Porque uma democracia pode continuar a realizar eleições, contar votos e alternar governos e, ainda assim, empobrecer politicamente. Esse empobrecimento começa quando deixamos de discutir ideias para discutir pessoas. 

Quando a competência passa a valer menos do que a pertença partidária. Quando uma crítica fundamentada é recebida não com um contra-argumento, mas com a pergunta mais reveladora da nossa pobreza cívica: “De que lado estás?” Como se pensar tivesse necessariamente um partido. Como se discordar fosse trair. Como se reconhecer mérito no adversário constituísse deserção. E como se a inteligência tivesse de apresentar cartão de militante antes de entrar no debate público. 

Talvez seja aqui que reside um dos maiores desafios da democracia cabo-verdiana contemporânea. Em sociedades pequenas, onde relações familiares, profissionais, comunitárias e partidárias se cruzam, aquilo que deveria ser uma divergência sobre políticas públicas transforma-se facilmente numa disputa sobre identidades. Já não perguntamos: a proposta é boa para Cabo Verde? Perguntamos: quem a apresentou? 

Se a medida vem do nosso partido, procuramos razões para defendê-la. Se vem do adversário, argumentos para destruí-la. Não investigamos para formar uma opinião. Investigamos para confirmar a opinião que já tínhamos. É o triunfo do viés de confirmação sobre o pensamento crítico. O debate público deixa de ser uma procura coletiva pela melhor solução e transforma-se numa competição entre claques. Há uma diferença fundamental entre convicção e fanatismo. Ter convicções significa defender princípios e estar preparado para justificá-los. O fanatismo começa quando já não importa aquilo que foi feito, mas apenas quem o fez.

É então que surge uma estranha moral política: exigimos excelência aos adversários e toleramos mediocridade aos nossos. Aquilo que ontem era incompetência torna-se amanhã “dificuldade conjuntural”. O que era clientelismo passa a ser “valorização dos nossos quadros”. A irresponsabilidade orçamental transforma-se, por conveniência, em “sensibilidade social”.

Mudam os governos. Mudam as palavras. A indulgência permanece. E assim nasce uma das patologias mais perigosas das democracias: a relativização da exigência. O problema deixa de ser a incompetência, a corrupção ou o abuso do poder. Passa a ser a incompetência, a corrupção ou o abuso do poder quando praticados pelo outro. Uma democracia assim pode continuar viva institucionalmente, mas começa a adoecer intelectualmente.

Quando o espaço público se torna agressivo, tribal e intelectualmente pobre, muitas das pessoas mais preparadas começam a retirar-se. Professores, investigadores, empresários, economistas, médicos, engenheiros, juristas e cidadãos com experiência acumulada concluem que o custo de participar é elevado. Se criticarem um Governo, alguém lhes atribuirá uma filiação partidária. Se elogiarem uma decisão da oposição, serão classificados. Se questionarem ambos, serão suspeitos para todos. Então calam-se. E esse silêncio tem um preço. Porque quando os moderados abandonam a praça pública, a praça não fica vazia. Fica entregue aos extremos. 

O conhecimento recua e o ruído avança. A argumentação desaparece e a indignação ocupa o seu lugar. A política começa a premiar as frases mais agressivas, os vídeos mais virais e as certezas mais simplistas. Nunca tantos cabo-verdianos tiveram tanta capacidade de participar no debate público. Da Praia a São Vicente, de Brockton a Lisboa, Paris, Roterdão ou Luxemburgo, podemos discutir, em tempo real, o futuro do mesmo arquipélago. A diáspora entrou definitivamente na praça pública cabo-verdiana. Mas há um paradoxo: nunca tivemos tanta informação disponível e tanta dificuldade em distinguir informação de opinião, conhecimento de convicção e argumento de propaganda.

As redes sociais eliminaram intermediários, mas também filtros. Uma afirmação tecnicamente absurda pode viajar mais depressa do que uma explicação rigorosa porque é mais curta, emocional e conveniente. O algoritmo não pergunta se uma ideia é verdadeira. Pergunta se ela provoca reação. Uma democracia que forma as suas convicções exclusivamente pela lógica do algoritmo corre o risco de trocar a cidadania pela Um país pequeno não pode permitir-se uma política intelectualmente pequena. Somos um país de escassos recursos endógenos, elevada vulnerabilidade externa, dependência energética, desafios demográficos, emigração persistente, desigualdades territoriais e uma economia exposta às oscilações e externalidades da conjuntura internacional. Isso deveria obrigar-nos a uma política de enorme qualidade. 

Precisamos discutir dívida pública, produtividade, educação, transportes, conectividade, habitação, fiscalidade, energia, inteligência artificial, qualificação profissional, emigração jovem, diáspora e sustentabilidade económica com uma seriedade muito superior à permitida pelos slogans eleitorais. Cabo Verde não necessita apenas de políticos capazes de ganhar eleições. Necessita de dirigentes capazes de compreender a complexidade do país que pretendem governar. E necessita de cidadãos capazes de distinguir popularidade de competência, eloquência de conhecimento, propaganda de política pública e promessa de possibilidade. Talvez o verdadeiro teste de maturidade política não seja a coragem de criticar o adversário. Isso é fácil. 

A verdadeira coragem democrática consiste em criticar os nossos quando estão errados e reconhecer os outros quando estão certos. Um militante que nunca discorda do seu partido pode ter renunciado ao julgamento próprio. Um cidadão que considera todas as decisões do adversário erradas não está a avaliar políticas públicas. Está a proteger uma identidade. Democracias maduras precisam de pessoas suficientemente livres para dizer: “Apoio este partido, mas nesta matéria está errado.” Ou: “Não apoio aquele partido, mas nesta questão tem razão.” Parece pouco. Na realidade, é uma revolução cultural. Significa colocar o país acima da tribo e a consciência acima da conveniência.

O voto também mede a inteligência coletiva de uma sociedade

Cada eleição revela mais do que a distribuição de mandatos. Revela aquilo que uma sociedade recompensa. Se premiamos competência, os partidos procurarão competência. Se premiamos seriedade, procurarão seriedade. Se exigimos preparação, terão de apresentar pessoas preparadas. Mas, se recompensamos espetáculo, insulto, populismo, tribalismo e promessas impossíveis, não deveremos surpreender-nos quando a oferta política se adaptar a essa procura. A qualidade da classe política não nasce num vazio. Em larga medida, ela responde ao nível de exigência da sociedade que a escolhe.

Por isso, talvez o maior desafio para Cabo Verde já não seja apenas quem vence as eleições. A pergunta intelectualmente mais importante é outra: Que tipo de política estamos a ensinar os nossos políticos a praticar através daquilo que premiamos, desculpamos e toleramos? Porque um país pode empobrecer sem perder dinheiro. Pode empobrecer quando perde referências. Pode empobrecer quando normaliza a incompetência. Pode empobrecer quando transforma adversários em inimigos. Pode empobrecer quando os mais preparados se calam e os mais ruidosos passam a definir a agenda. E pode empobrecer, sobretudo, quando deixa de fazer perguntas difíceis porque prefere respostas confortáveis. Cabo Verde construiu uma das experiências democráticas mais respeitadas do continente africano. Preservá-la exige mais do que eleições livres. Exige uma cultura de cidadania à altura das instituições que construímos. 

A democracia não se mede apenas pela liberdade de escolher quem governa. Mede-se também pela inteligência, independência e exigência com que fazemos essa escolha. No fim, cada eleição escolhe governantes. Mas também revela o país que nos estamos a tornar. Em democracia não se escolhe apenas quem governa. Escolhe-se, também, a qualidade da política que se está disposta a tolerar. 

 

*PhD in Business Economics, MsC in Computer Engineering/ Biostatistics and Biometry

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