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A outra face de Sékou Toure não descrita pelo Comandante Pedro Pires no seu livro “De Guerreiro a Homesm de Estado”

Por: Bruno Spencer

Foi lançado, há bem pouco tempo, aqui na Praia, o referido livro do Comandante Pedro Pires. Achei interessante o seu conteúdo. Pires fala da sua infância no Fogo, a ida a São Vicente para estudos liceais, depois a Portugal e o seu ingresso na luta armada conduzida pelo PAIGC, Partido Africano para Independência da Guiné e Cabo Verde, sob a liderança de Amílcar Cabral, e fala igualmente de outros fatos. 

Entendo, que há várias leituras que se podem fazer da obra, todavia gostaria de falar de uma personalidade muita referenciada no livro que é Sékou Toure, que foi Presidente da Guiné Conakry durante vários anos. 

O PAIGC para fazer a luta armada tinha de ter a retaguarda onde ficava a sua base principal. Essa base foi na Guiné Conakry (GC). Sékou deu grande apoio ao PAIGC e Pires relatou isso e falou sempre bem do líder. 

Apesar de Sékou Toure ter sido um grande pan-africanista e de ter apoiado os movimentos de libertação como o PAIGC, entre outros, foi também um grande ditador e sanguinário de África. 

Cerca de 50 mil pessoas morreram ou desapareceram durante o regime de Sekou Toure 

Quem o diz, é Amnistia Internacional. Sékou governou com mão de ferro. Para afastar as pessoas, inventava complôs que nunca existiram. Altos quadros, a chamada elite intelectual da GC, foram mortos. A GC tomou a independência em rutura com França.  Por falta de quadros, Sékou fez apelo aos quadros guineenses no exterior e dos outros países africanos. Muitos dos que responderam ao apelo, uma vez estando no país, viram a natureza do regime e acabaram por regressar aos seus países.  

Dos quadros que foram mortos é muito referido Keita Fodeba e Dialo Telli. 

Fodeba era fundador e Diretor do segundo maior ballet do mundo, denominado Ballet Africano que tinha a sua sede em Paris, França.

Telli foi o primeiro representante da GC junto das Nações Unidas, tendo feito um grande trabalho diplomático para que GC fosse admitido como membro dessa organização já que a  França, como antiga potência colonizadora, poderia vetar a entrada da Guiné Conacry. Mais tarde, Telli foi eleito, por duas vezes, Secretário-Geral da Organização da Unidade Africana, antecessora da atual União Africana. 

Quer Telli como Fodeba foram presos e mortos quando eram ministros.

Sékou, do seu palácio, participava nas torturas aos presos. Às vezes, mandava cartas aos presos ou telefonava-os, como aconteceu com Telli.

Embora havia outras prisões mas Camp Boiro era mais conhecido e referenciado. Nessa prisão, utilizava todos os meios, tortura, fome e mesmo assassinato para que os presos confessassem crimes que não tinham cometido e acusar os outros de os fazerem também. 

No Camp Boiro havia celas que se chamavam Diet Noire.  Uma vez estando ali, o preso não recebia nem alimentação, nem água e outros. Ao fim de alguns dias, o preso acabava por morrer ou sair bastante debilitado. Em Diet Noire, quando se fechava as portas, elas só podiam ser abertas com autorização de Sékou. Dialo Telli passou por Diet Noire e acabou por morrer. 

Se alguém fora da GC envolvesse nalgum ato contra o regime, prendia-se os membros da família no páis. Era uma forma de se fazer calar essa pessoa que se encontrava fora da Guiné Conakry.

 Dizia-se que Sékou Toure padecia do complexo de inferioridade porquanto não gostava que as pessoas soubessem que não chegou a fazer estudos superiores mas sim apenas um  curso profissional. Olhava sempre como ameaça quadros superiores competentes e com prestígio. 

Sékou Toure foi sindicalista, o que lhe ajudou muito  a se afirmar na política. Tinha grande capacidade oratória que atraia a multidões. Pude vê-lo no discurso que fez no Liceu Domingos Ramos, na Praia, quando veio, pela única vez, a Cabo Verde.

Apesar de Sékou Toure ter sido um grande pan-africanista e de ter apoiado os movimentos de libertação como o PAIGC, entre outros, foi também um grande ditador e sanguinário de África. Cerca de 50 mil pessoas morreram ou desapareceram durante o regime de Sékou Toure

Operação Mar Verde

Pires aborda essa operação várias vezes embora numa versão diferente das fontes consultadas por mim.

Com o desenvolvimento da luta armada, Portugal decidiu atacar o PAIGC na sua base principal que era na Capital, Conakry. 

O Comandante Alpoim Calvão, da Marinha, e o General António Spínola, que era Governador da Guiné, elaboraram um plano de ataque e submeteram-no à aprovação do Presidente do Conselho de Portugal, Marcelo Caetano. Caetano aprovou o plano mas mediante a condição de que não se deixasse nenhum vestígio que indicasse a presença portuguesa nessa operação. 

É assim que vai nascer a aliança entre as forças portuguesas e os elementos da organização política, Frente Nacional de Libertação da Guiné (FNLG) que fazia oposição política ao regime da GC. Os portugueses utilizaram a FLNG para encobrir a presença de Portugal e para fazer a  comunidade internacional acreditar que a dita operação Mar Verde era um assunto interno da Guiné Conakry. 

A FLNG foi criada em 1966 em Abidjan, Costa de Marfim. A razão da sua criação adveio da ameaça que Sékou Toure tinha feito à Costa de Marfim. É que N´Krumak, Presidente de Gana, tinha sido derrubado e encontrou exilio em Conakry. Sékou, disse num discurso que iria repor N’Krumah no poder, passando por Costa de Marfim. 

Então, o Presidente da Costa de Marfim, H. Boigny, disse que não iria aceitar o ato e houve uma onda de solidariedade dos guineenses que viviam na Costa de Marfim para com o Presidente. 

Foi assim que foi fundado FLNG que tinha uma antena em Abidjan, Costa de Marfim, outra em Dakar e a sede era em Paris, França. 

Os principais objetivos da operação Mar Verde eram: libertação dos prisioneiros portugueses; destruir as infraestruturas do PAIGC e matar ou capturar Amílcar Cabral; destruir os aviões de combate, MIG, no Aeroporto; ajudar a FLNG a derrubar Sékou Toure. A operação teve lugar em 22 de Novembro de 1970.

O Comandante Alpoim Calvão, da marinha portuguesa, levou um ano a preparar a operação e recrutou os elementos da FNLG, sobretudo no Senegal e Gâmbia que eram na sua maioria da etnia Fula, em francês Peul. No total, foram 200 integrantes que foram treinados na Guiné Bissau, na Ilha de Soga, sob o regime de confidencialidade. A palavra de ordem era “Quem entrar alí não podia sair”. 

Aos elementos das FLNG, se juntaram membros das forças portugueses, incluindo, o tido temível Comando Africano, que era composto por naturais da Guiné-Bissau.

Da operação realizada, resultou a libertação de 26 prisioneiros portugueses. Também foram destruídas infraestruturas do PAIGC, como vedetas e barcos de guerra que estavam no porto de Conakry; a casa onde morava Amílcar Cabral bem como a sede do Partido foram atacados. Amílcar estava fora da GC.

Algumas vozes dizem que os portugueses, tendo libertado os prisioneiros, deixaram os membros da FLNG, sozinhos, a combaterem. O Comandante Alpoim Calvão Alpoim contrapõe, dizendo que, atendendo que a equipa encarregue de ir ao aeroporto para destruir os MIG se desertou, deu ordem para o regresso a Bissau. A equipa encarregue de ir ao aeroporto, recorde-se, era a mesma comandada pelo Tenente Januário Lopes, da Guiné Bissau, que, entretanto, temeu que os barcos de guerra pudessem ser bombardeados pelos MIG.

Pouca sorte, teve o Januário Lopes porque, apesar de ter rendido e mostrado que ele e seus homens não se envolveram na luta, as armas comprovavam o contrário. Sékou utilizou-os para provar perante ao mundo que a GC foi agredida e depois matou-os, todos, violando as leis internacionais, um avez que os prisioneiros de guerra não devem ser fuzilados, mas sim são guardados até o final da guerra. 

Foram as forças do PAIGC, cubanas e milicianos que salvaram o regime.  As forças armadas da GC estavam praticamente desmanteladas com as prisões e mortes havidas na chamada Complot Kanan Fodeba em 1969. Sékou aproveitou da operação Mar Verde para fazer purga no aparelho do Estado: dos 24 ministros, 17 foram presos e outros altos dirigentes foram também presos. 

Sékou Toure

Sékou Toure sabia ou colaborou com a operação Mar Verde

Já antes da referida operação, Sékou disse em discursos que a GC iria ser agredida. Consta que, um certo dia, deu a um funcionário uma maleta para ser entregue a alguém que estaria à espera no Aeroporto de Dakar. Porém, recusou-se a dizer ao funcionário o nome da pessoa que ia receber a maleta uma vez que, conforme justificou, não era necessário porque a pessoa iria ter com ele.

 Sékou Toure também recomendou ao funcionário que não dissesse a ninguém, mesmo ao chefe dele, a missão que lhe fora atribuída. 

Passado algum tempo, o funcionário terá visto a mesma pessoa que tinha entregue a maleta a falar com alguém no Ministério dos Negócios Estrangeiros na Guiné Conacry. Coincidentemente, a mesma pessoa fazia parte dos elementos capturados, na sequência da operação Mar Verde. O mesmo funcionário confirmou ter reconhecido a foto dessa pessoa num jornal.

Sékou Toure ordenou, no dia 9 de Novembro, que os 26 prisioneiros portugueses que se encontravam no interior da Guiné Conakry fossem transferidos para a cidade de Conakry, sendo que a operação Mar Verde, como se sabe, ocorreu a 22 de Novembro. Ademais, a prisão onde os presos foram colocados não ficava longe da praia de mar onde as forças portugueses desembarcaram-se. 

Entretanto, também consta que Portugal tentou negociar a libertação dos presos, mostrando interesse em pagar dinheiro, caso fosse necessário. Cabral estaria de acordo, considerando que manter os presos significava um custo acrescido e que o dinheiro eventualmente recebido serviria para investir nas zonas libertadas, nomedamente em áreas como a educação e saúde. 

Mas Sekou Toure se opôs. Portugal chegou mesmo a pedir a mediação do líder cubano, Fidel Castro. Sékou  Toure terá recebido, indiretamente, o dinheiro sem que o PAIGC soubesse e, por isso, criou todas as condições para que os prisioneiros fossem libertados.

Um outro dado revelado é que a final da copa de futebol era sempre realizada na Capital, Conakry. Todavia, uma vez que essa final iria coincidir com o dia da operação Mar Verde, Sékou decidiu que fosse antecipado e realizado fora da capital, fato que causou estranheza às  pessoas uma vez que essa disputa realizava-se sempre em Conakry.

A antiga União Soviética, através dos seus serviços secretos, tinha conhecimento de que iria haver ataque ou desembarque no Porto de Conakry e alertou Sékou, oferecendo mesmo ajuda para defesa do país, mas Sékou não deu atenção e fez orelhas moucas às informações que lhe foram dadas. Entretanto, investigadores aguardam que, com a desclassificação dos documentos, mais informações poderão vir a ser conhecidas.

“Sékou nos traíu”, disse Amílcar Cabral

Quando se deu a referida operação Mar Verde, Amílcar Cabral encontrava-se fora e quando regressou, vindo o que tinha acontecido, disse aos seus próximos “Sékou nos traíu»

Associação das vítimas do regime apelam à preservação do património histórico

Os locais onde se prendiam, torturavam e matavam os presos eram Camp Boiro e outras prisões. Também havia um local onde as pessoas eram enforcadas, publicamente, e valas onde se enterrava as pessoas. 

Os corpos nunca eram restituídos às famílias e eram enterradas em sítios desconhecidos pelas famílias. Às vezes, os restos de cadáveres eram descobertos enquanto  se executavam trabalhos em terrenos trabalhando o terreno. Sabendo que tinham sido encontrados restos de cadáveres, o regime mudava o local de enterramento das pessoas por forma que não se descobrisse os restos mortais.

Sékou Touré morreu em 1984 e, uma semana depois do seu funeral, deu-se um golpe de Estado que pôs termo ao seu regime. 

Embora tendo havido vários governos após a era de Sékou, os membros da associação das vítimas reclamam que não tem havido uma política de preservação de patrimónios históricos. Defendem que deve haver a preservação desse patrimóniopor forma a honrar a memória dos que foram mortos e torturados. Eles clamam por uma política de reconciliação que passa pelo reconhe imento das pessoas que foram mortas inocentemente.

Nota: Para elaborar este artigo, fiz as seguintes consultas: O livro, Camp Boiro, Livre 1 Sept ans sous le Mont Gangan de Mamadou B. Barry, “Petit Barry”, Esse autor exerceu altos cargos entre os quais, Diretor da Rádio e Diretor de Gabinete de Imprensa do Presidente da República. Também consultei um segundo livro do mesmo autor, Sept Ans Aprés: Retour Au Camp Boiro.  

Mamadou B. Barry foi preso e passou vários anos na cadeia. Ele deu várias conferências de imprensa sobre o regime e podem ser vistos no Google e Yahoo.fr. Consultei ainda a entrevista que Alpoim Calvão deu sobre os acontecimentos de 11 de Novembro. A entrevista está no Google.

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