
Por: Bruno Spencer
Muitas vezes quando se fala dos heróis, só é visto o lado bom, ficando a outra face para o desconhecimento. Considero que, nestas situações, nunca deve deve haver espaço para dogmatismos ou endeusamento aos heróis. Deve-se enaltecer o bom que qualquer herói possa ter feito, mas também criticar o mal que terá feito. A crítica é sempre livre e ajuda-nos a ter o melhor conhecimento daqueles que consideramos heróis.
Kwame Nkrumah foi o primeiro Presidente do Gana que, por sua vez, foi o primeiro país da África Negra a ascender à independência, em 1957.
Nkrumah foi um grande pan-africanista que apoiou os chamados movimentos de libertação das antigas colónias portugueses e de outras latitudes. Para além do apoio diplomático, politico e militar, também havia no Gana a rádio que fazia as suas emissões de propaganda contra o então regime colonial português. O nosso conterrâneo, malogrado Dr. Leitão da Graça chegou a ser locutor dessa rádio.
Nkrumah é acusado de ter feito uma política económica que levou o Gana ao desastre. Houve vários atentados contra ele antes da sua deposição. Também reprimiu violentamente os seus opositores. Estávamos na época do chamado mono partidarismo em Africa e da chamada Guerra Fria.
A dada altura, Nkrumah, foi solicitado para que fosse a Vietnam mediar a paz na guerra entre o Vietnam do Norte e o Vietnam do Sul. Em 1966, estando ausente, já na China, os miliares tomaram o poder no Gana. Acredita-se que foi uma armadilha para o afastar do poder. Tanto assim é que, uma vez deposto, houve manifestação nas ruas do Gana em apoio aos militares que o depuseram.
O artigo ora escrito, fi-lo com várias leituras feitas, sobretudo do livro de Mamadou B. Barry, intitulado CAMP BOIRO, LIVRE II, SEPT ANS APRÉS: RETOUR AU CAMP BOIRO À CONAKRY.
Barry é um quadro da Guiné Conakry, que desempenhou altos cargos no tempo do Presidente Sékou Toure até vir a cair em desgraça com ele, como aconteceu com outros quadros. Passou vários anos na cadeia, onde enfrentou tortura e outros maus tratos. Conhecedor profundo da história da Guiné Conakry, fala-nos do exílio de Nkrumah nesse país. Também pude recolher as informações sobre a conferência de imprensa que o referido autor deu aquando da apresentação do seu referido livro e que está publicado no You Tube.
Uma vez deposto, Nkrumah escolheu Guiné Conakry como país do seu exílio
Derrubado em 1966, houve vários países africanos que ofereceram exílio a Nkrumah. Egipto dirigido por Nasser; Argélia dirigido por Boumediene; Tanzânia dirigido por Nyerere; Mali dirigido Modibo Keita e Guiné Conakry dirigido por Sékou Toure. A escolha recaiu sobre o último.
Uma das razões que o levou a escolher a Guiné Conakry como terra do seu exílio foi o facto de Gana e Guiné estarem, na altura, ligados por um tratado que se intitulava (UEIA), União dos Estados Independentes da África que previa a criação de um conselho económico e uma defesa comum e outros.
Outra razão dessa escolha por Conakry tem a ver com a proximidade entre os dois países já que NKrumah mantinha o sonho de umdia retomar o poder.
Sékou, não só mostrou abertura para receber o seu hóspede, como também designou-o coPresidente da Guiné Conakry mas na prática isso nunca aconteceu.
Kwame Nkrumah foi o primeiro Presidente do Gana que, por sua vez, foi o primeiro país da África Negra a ascender à independência, em 1957. Nkrumah foi um grande pan-africanista que apoiou os chamados movimentos de libertação das antigas colónias portugueses e das outras colónias. (…) Nkrumah é acusado de ter feito uma política económica que levou o Gana ao desastre. Houve vários atentados contra ele antes da sua deposição. Também reprimiu violentamente os seus opositores
Tentativa de assassinato de Nkrumah através do envenenamento na sua própria alimentação
Uma vez estando instalado em Conakry, Nkrumah dispunha de uma residência destinada aos grandes hóspedes. Tinha um chefe de protocolo, cozinheiro e um chefe da sua segurança que era um Comissário da Polícia de nome Abdoulaye Coumbassa. Entre outras atividades, Nkrumah jogava xadres e tánis, estudava a língua francesa e dirigia mensagens na rádio, apelando os ganeses a afastarem os militares que lhe tinham apeado do poder.
O cozinheiro, antes de servir a refeição ao ex-Presidente, provava-a sempre. Ora, num dia, o dito cozinheiro ausentou-se da cozinha e, quando regressou, acabou por desmaiar-se ao provar a alimentação que tinha preparado. Foi levado ao hospital, mas acabou por morrer.
Na ocasião, pairou uma perplexidade total sobre quem teria colocado o veneno na comida, sabendo que a residência era bem vigiada. No entanto, sem que Nkrumah fosse informado, Coumbassa, que falava muito bem o inglês e sabia segredos do ex-Presidente, foi preso e interrogado, apesar de ter alegado que estava inocente. Porém, acabou por ser fuzilado sem poder defender a sua inocência perante qualquer tribunal. Era assim que funcionava o regime de Sékou Toure.
Nkrumah tinha mais confiança em Amílcar Cabral
Perante o que aconteceu com o seu cozinheiro, Nkrumah ficou aflito e passou a confiar mais em Amilcar Cabral que o visitava sempre, levando a alimentação necessária. A admiração de Cabral para o ex-Presidente também era grande.
Nkrumah morreu, em 1972, na Roménia, vítima de cancer, e os seus restos mortais foram levados para Conakry. No discurso fúnebre que proferiu, Amílcar Cabral afirmou que “Não foi a doença do câncer que matou Nkrumah mas o câncer da traição..”.
Nkrumah e o depósito bancário em Londres, Inglaterra: a esperteza do seu gurada-costas
Krumah tinha um guarda-costas do Gana, de nome John, que trabalhava com ele antes de ter sido derrubado. Tinha muita confiança nele e o mesmo estivera no exílio com ele.
O ex-Presidente tinha uma grande quantidade de dinheiro e confiara ao dito guarda-costas que o depositasse num banco em Londres. John que rabalhava há vários anos, não dispunha de meios e a família dele, mulher e filhos, passava por dificuldades no Gana. Vendo a quantidade de dinheiro que levava para Londres, pensou em dipositar um quarto do montante em seu nome, ficando os restantes três quartos para Nkrumah.
Chegado a Londres, concretizou esse objetivo e regressou a Conakry sem dizer nada ao ex-Presidente sobre o sucedido.
Mais tarde, Nkrumah viria a receber os documentos do banco com informações sobre o depósito efetuado. Surpreendido, chamou o guarda-costas para saber as razões de tal procedimento.
Não aceitando as razões que levaram o John a praticar o sucedido, pediu a Sékou que matasse o seu guarda-costas. Sekou não o matou, optando por enviá-lo para prisão.
Mamadou B. Barry, outor do livro já mencionado, viria a encontrar o John na prisão. O guarda-costas garantiu a Barry que, se saísse vivo da prisão, o dinheiro que tinha no banco daria para refazer a sua vida.
Mais tarde, ainda na prisão onde John e outro ganês se encontravam, foram-lhes informados que Nkrumah tinha morrido. Logo, John pôs-se a chorar, para estranhesa dos colegas da prisão, já que foi Nkrumah a causa da sua prisão. Em resposta, Jonh justifiocu que esteve muito tempo a trabalhar com o Presidente e que lhe tinha muita amizade.
John acabaria por ser libertado juntamente com o seu companheiro ganês e acompanharam os restos mortais de Nkrumah que foram transportados de Conakry para serem sepultados no Gana.
O legado de Nkrumah
Tido como grande pensador africano, Nkrumah publicou mais de quarenta livros, entre os quais se destaca “AFRICA DEVE SE UNIR”. Nesse livro, defende que a unificação do continente é a única via através da qual se pode assegurar o seu desenvolvimento.
No testamento que fez em Conakry, outorgou a June Milne, historiadora, a publicação de todos os seus escritos. Milne para além da publicação dos livros, também recolheu e organizou um arquivo com documentos do ex-Presidente quando esteve em Conakry.
Ela gostaria que esse arquivo de Nkrumah tivesse ficado na Guiné mas, não existindo condições, acabou por transferi-lo para a Universidade Howard, em Washington, DC, Estados Unidos da América. A escolha dessa Universidade não é por acaso porquanto foi onde muitos afroamericanos estudaram e se formaram.
Nkrumah dava grande atenção à chamada diáspora africana, descendentes de escravos africanos na América de Norte e nas Caraíbas.
A historiadora June Milne poderia ter recolhido mais documentos do antigo presidente no Gana, só que muitos foram distruídos quando os militares chegaram ao poder.
Nota. No seu livro, Barry fala o que aconteceu depois com os militares que derrubaram Nkrumah no Gana, assim como outras histórias interessantes desse país.

