
Por: Luís Carvalho*
A morte de Alberto Mota Gomes, aos 91 anos, deixa Cabo Verde mais pobre, privando o país de um homem que soube juntar ciência, desporto, cultura e, sobretudo, uma extraordinária dimensão humana.
Hidrogeólogo de reconhecido mérito, antigo futebolista internacional cabo-verdiano e primeiro seleccionador nacional de futebol, Alberto Mota Gomes, carinhosamente conhecido por Engenheiro Betinho, faleceu domingo, 23 de agosto, na cidade da Praia, deixando uma marca profunda em várias gerações.
Falo dele também a partir de uma experiência pessoal e profissional que guardo com particular estima. Foi com Alberto Mota Gomes que fundámos a revista Geociências, do então Instituto Superior de Educação (ISE), uma publicação que procurava dar espaço à divulgação científica e ao conhecimento produzido em Cabo Verde.
Coube-me, nessa iniciativa, a responsabilidade de assumir a função de editor principal da revista, numa colaboração que me permitiu conhecer mais de perto não apenas o técnico e académico, mas também o homem.
E é precisamente essa dimensão humana que hoje gostaria de destacar.
Betinho era um homem simples, afável, disponível e de trato fácil. Tinha uma maneira muito própria de transmitir conhecimento, sem arrogância e sem fazer pesar sobre os outros o enorme saber que acumulou ao longo de décadas de actividade profissional.
No domínio da hidrogeologia, particularmente nas perfurações destinadas à prospecção e captação de água subterrânea, era considerado uma verdadeira referência. Os que com ele trabalharam repetiam, com admiração, uma frase que traduzia bem a confiança que depositavam no seu conhecimento: “Mota Gomes não falhava.”
Alberto Mota Gomes parte aos 91 anos, mas deixa um legado que continuará presente nos estudos sobre as águas subterrâneas de Cabo Verde, na memória do futebol nacional e, sobretudo, nas pessoas que tiveram o privilégio de trabalhar e conviver com ele. (…) Tinha uma maneira muito própria de transmitir conhecimento, sem arrogância e sem fazer pesar sobre os outros o enorme saber que acumulou ao longo de décadas de actividade profissional.
Bastava indicar-lhe um determinado local para procurar água no subsolo e Betinho, baseado na sua experiência e no conhecimento profundo da geologia de Cabo Verde, fazia a sua avaliação. E, segundo testemunhos de muitos dos seus antigos colaboradores, quando dizia que havia água naquele sítio, raramente se enganava.
Mais do que um técnico competente, era um homem apaixonado pelo seu trabalho e profundamente comprometido com o desenvolvimento de Cabo Verde. Conhecia o terreno, conhecia as rochas, conhecia os sinais da natureza e sabia interpretar aquilo que, para muitos, passava despercebido.
A sua trajectória no futebol constitui igualmente uma parte importante da história desportiva do país. Antes e depois da independência, esteve ligado ao futebol cabo-verdiano, tendo representado o arquipélago como jogador internacional e assumido posteriormente a responsabilidade de ser o primeiro seleccionador nacional.
Ciência e futebol, aparentemente mundos distintos, encontravam em Alberto Mota Gomes uma mesma característica: disciplina, conhecimento, espírito de equipa e dedicação.
Mas é do homem que fica a memória mais forte. Para mim, fica a lembrança de um homem de ciência que acreditava na importância de comunicar o conhecimento e de uma personalidade cuja simplicidade contrastava com a dimensão do seu percurso.
A fundação da revista Geociências foi uma dessas experiências que permanecem. Mais do que criar uma revista, procurámos criar um espaço de divulgação científica, e Betinho teve um papel determinante nessa caminhada.
Hoje, perante a sua partida, resta-me reconhecer publicamente a dívida de gratidão para com esse homem que foi, ao mesmo tempo, cientista, desportista, professor e amigo.
Alberto Mota Gomes parte aos 91 anos, mas deixa um legado que continuará presente nos estudos sobre as águas subterrâneas de Cabo Verde, na memória do futebol nacional e, sobretudo, nas pessoas que tiveram o privilégio de trabalhar e conviver com ele.
Dada a sua dedicação ao estudo do vulcanismo em Cabo Verde, um dos montes formados na sequência da erupção vulcânica de 1995 passou a chamar-se Monte Mota Gomes, uma homenagem a este grande geólogo.
Descanse em paz, Engenheiro Betinho. Cabo Verde agradece-lhe o muito que fez pelo país.
*Agência Inforpress

