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Da análise política – Eleições no MpD: O futuro tem futuro?

Por: Rui Pereira

Jacques Séguéla deu a uma das suas obras um título extraordinariamente provocador: O Futuro Tem Futuro. A pergunta que hoje se pode colocar ao Movimento (MpD) para a Democracia é quase a mesma, embora politicamente mais incómoda: terá o futuro do MpD ainda futuro?

Não se trata apenas de saber quem sucederá a Ulisses Correia e Silva. Paulo Veiga, Herménio Fernandes ou Luís Filipe Tavares poderão vencer a eleição interna. Mas a verdadeira eleição talvez seja outra: conseguirá o MpD voltar a antecipar Cabo Verde?

Porque foi, em grande medida, dessa capacidade que nasceu.

Entre finais dos anos 80 e 1991, Cabo Verde já parecia social e politicamente maior do que o sistema que o enquadrava. Circulavam outras ideias, aspirações e uma crescente exigência de pluralidade. O MpD emergiu nessa mudança que já germinava na sociedade. Essa talvez tenha sido a sua primeira grande inteligência histórica: perceber que Cabo Verde estava a mudar antes de a mudança se tornar inevitável.

Em 1991 não ganhou apenas um partido. Abriu-se um novo ciclo político, institucional e mental. Trinta e cinco anos depois, a pergunta é perturbadora: poderá o partido que nasceu de uma mudança histórica voltar a produzir mudança dentro de si próprio?

Depois de dez anos de governação e da derrota de 17 de maio, seria tentador pensar que o MpD precisa apenas de nova liderança, reorganização e preparação para recuperar o Governo. Talvez precise de muito mais: de um choque político e intelectual suficientemente forte para voltar a colocá-lo à frente do seu tempo.

Porque mudar de líder é relativamente fácil. Mudar de época é muito mais difícil.

O grande risco seria substituir nomes mantendo a mesma interpretação do país. Isso produziria mudança sem transformação: uma renovação administrativa da derrota. Partidos inteligentes não estudam derrotas apenas para descobrir onde perderam votos. Procuram descobrir o que deixaram de compreender na sociedade.

Terá mudado apenas o voto dos cabo-verdianos ou estará a mudar o próprio Cabo Verde?

Existe uma geração menos presa às fidelidades políticas da independência e da abertura democrática; uma diáspora diferente; novas classes profissionais, desigualdades e formas de comunicar; cidadãos mais impacientes perante habitação, transportes, emprego, rendimento, saúde, educação e mobilidade social. E talvez exista uma transformação ainda mais profunda: o eleitor pode estar a tornar-se politicamente mais rápido do que os partidos.

O MpD surgiu quando Cabo Verde reclamava pluralidade, abertura e mudança. Trinta e cinco anos depois, a História coloca-lhe uma ironia: o movimento que ajudou Cabo Verde a mudar terá agora de provar que é capaz de mudar porque Cabo Verde mudou. (…) Nesta eleição, a questão maior não é saber quem será o próximo presidente do MpD. É saber se o próprio MpD conseguirá chegar ao futuro antes de o futuro chegar a ele.

Se for assim, o problema do MpD não será recuperar o passado. Será compreender o futuro.

Recuperar o Governo e construir futuro não são a mesma coisa. Recuperar o Governo pode fazer-se combatendo o PAICV, explorando erros, reorganizando estruturas e preparando 2031. Construir futuro exige algo mais raro: uma nova ideia de Cabo Verde.

Que economia pode sustentar o país? Que Estado precisamos? Que modelo produtivo? Que política para jovens e diáspora? Como transformar conhecimento e tecnologia em produtividade? Como converter a localização atlântica numa vantagem económica?

É isto que deveria incendiar intelectualmente o próximo MpD. Porque um grande partido não existe apenas para substituir outro no Governo. Existe para oferecer ao país uma interpretação diferente do futuro.

Talvez o próximo líder tenha, por isso, de fazer algo aparentemente contraditório: unir o MpD e, simultaneamente, desarrumá-lo. Unir para impedir fraturas. Desarrumar para impedir que a unidade se transforme em acomodação.

Talvez o MpD não precise apenas de paz interna. Precisa de inquietação intelectual.

Precisa de jovens capazes de desafiar dirigentes, militantes capazes de discordar, quadros da diáspora, universidades, empresários, pensadores e sociedade civil. Precisa de voltar a ser lugar de produção de ideias e não apenas máquina de produção de candidaturas. Porque partidos que deixam de discutir ideias acabam por discutir pessoas. E partidos que discutem pessoas durante demasiado tempo acabam por deixar de discutir o país.

Há ainda Ulisses Correia e Silva. O próximo líder não poderá apagar os dez anos anteriores para parecer renovador, nem transformar-se em simples continuador. Terá de realizar uma operação mais sofisticada: herdar sem ficar prisioneiro da herança.

Reconhecer realizações, compreender erros e abrir outra etapa. Nenhuma renovação séria começa com amnésia. Mas nenhuma revolução política começa com nostalgia.

É aqui que regressamos a Jacques Séguéla. O futuro não pode ser apenas continuação do presente. Tem de conter imaginação e antecipação. Um partido que pretende dirigir o futuro precisa de imaginar aquilo que ainda não existe.

Foi isso, de alguma maneira, que aconteceu quando o MpD apareceu na transição para os anos 90. A questão histórica de 2026 é saber se consegue fazê-lo novamente.

E há um paradoxo decisivo: o eleitor mais importante desta eleição interna é precisamente aquele que não poderá votar nela – o cidadão que deixou de votar no MpD.

Os militantes escolherão o presidente. Mas serão os cabo-verdianos que se afastaram do partido que decidirão se essa escolha significou realmente alguma coisa. Por isso, quando forem contados os votos, a pergunta menos importante talvez seja: quem ganhou o MpD?

A verdadeira pergunta será: nasceu apenas um novo líder ou começou a nascer um novo pensamento político?

O MpD surgiu quando Cabo Verde reclamava pluralidade, abertura e mudança. Trinta e cinco anos depois, a História coloca-lhe uma ironia: o movimento que ajudou Cabo Verde a mudar terá agora de provar que é capaz de mudar porque Cabo Verde mudou.

Talvez seja este o seu verdadeiro reencontro com o futuro: não regressar a 1991, mas recuperar a ousadia de 1991. A capacidade de perceber antes. De pensar antes. De propor antes.

Porque partidos com passado existem muitos. Partidos capazes de antecipar o seu tempo são muito mais raros.

Nesta eleição, a questão maior não é saber quem será o próximo presidente do MpD. É saber se o próprio MpD conseguirá chegar ao futuro antes de o futuro chegar a ele.

Só então poderemos responder à pergunta inspirada em Jacques Séguéla: o futuro do MpD tem futuro?

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