
Por: Filipe Santos*
Três vinhos, três medalhas. Agora é preciso transformar reconhecimento internacional em rendimento, emprego e oportunidades.
Três medalhas internacionais honram o Fogo. Mas só uma economia organizada paga as contas de quem planta, colhe, transforma e vende.
Nos dias 25 e 26 de agosto, os vinhos da Adega Cooperativa de Chã das Caldeiras foram avaliados na 34.ª edição do CERVIM, o Mundial de Vinhos Extremos, em Châtillon, Itália. O resultado, divulgado a 5 de setembro, é histórico: o Chã Rosé 2025 conquistou a Grande Medalha de Ouro, enquanto o Chã Branco 2025 e o Passito 2025 receberam Medalhas de Ouro. Três vinhos, três distinções, num concurso que reuniu mais de 1.100 produtos de 28 países. Cabo Verde esteve entre os melhores.
Com estas distinções, a Adega passa a somar dez medalhas internacionais: nove em concursos ligados ao CERVIM e uma no Concours Mondial de Bruxelles. A entrega oficial está marcada para 21 de novembro, no Vinseum, na Catalunha, e o Chã Rosé 2025, premiado com Grande Ouro, ganha também projeção no espaço do CERVIM durante o Merano Wine Festival. O mérito pertence aos agricultores, à cooperativa, aos técnicos e às famílias de Chã das Caldeiras, que transformam solo vulcânico, escassez de chuva e persistência em qualidade reconhecida no mundo.
Os números disponíveis também mostram potencial. O documento oficial «Governo em Ação no Fogo» regista que a produção de vinho em Chã passou de 68.400 litros, em 2019, para 128.736 litros, em 2022, um crescimento de cerca de 88 por cento. É uma referência histórica, não um dado da produção atual. Ainda assim, demonstra que existem escala, capacidade produtiva e margem para crescer.
O problema é que o reconhecimento internacional, por si só, não garante rendimento estável. Entre a vinha e a mesa do consumidor há certificação, embalagem, transporte, promoção, financiamento, distribuição e acesso aos mercados. Quando uma destas peças falha, o produtor trabalha mais, assume o risco e recebe menos. E a ilha perde empregos e oportunidades capazes de fixar os seus jovens.
O estudo de viabilidade da Zona Económica Especial do Fogo identificou o agronegócio, o geoturismo, a agroindústria e a economia azul como setores estratégicos. Recorda igualmente que o Fogo concentra 15 por cento da população agrícola e 19 por cento da superfície agrícola do país. Ao mesmo tempo, revela fragilidades na coesão territorial: no índice de 2023, São Filipe surge em 9.º lugar, Santa Catarina do Fogo em 18.º e Mosteiros em 20.º.
O problema é que o reconhecimento international, por si só, não garante rendimento estável. Entre a vinha e a mesa do consumidor, há certificaçǎo, embalagens, transporte, produção, financiamento e acesso aos mercados. Quando uma dessas peças falha, o produtor trabalha mais, assume o risco e recebe menos. E a ilha perde emprego e oportunidade de fixar os seus jovens.
É esta a contradição que temos de vencer: uma ilha com produtos de excelência continua longe de transformar plenamente essa excelência em prosperidade partilhada.
O Programa do Governo 2026 – 2031 promete reforçar as cadeias de valor através da transformação, conservação, armazenamento, certificação e comercialização, ligando a produção nacional ao turismo, à restauração, às compras institucionais e à diáspora. A orientação está escrita. Mas um programa não se mede pelo que promete; mede-se pelo que executa. Para o Fogo continuam por apresentar calendário, financiamento, responsáveis e metas públicas.
Defendo, por isso, um Pacto do Fogo para os Produtos de Origem, construído com os três municípios, produtores, cooperativas, empresas, universidades e diáspora. Ainda em 2026, esse pacto deve definir cinco compromissos concretos, com responsáveis e prazos.
Primeiro, um calendário público para a certificação, o controlo de qualidade e a rastreabilidade dos vinhos do Fogo e de Chã das Caldeiras, alargando progressivamente o modelo ao café e a outros produtos locais.
Segundo, um balcão único de apoio ao produtor e ao exportador, capaz de tratar de licenciamento, rotulagem, normas sanitárias, alfândegas, financiamento e venda digital.
Terceiro, uma rota económica e turística que ligue o vinho e a fruta de Santa Catarina, o café e os produtos dos Mosteiros, e o comércio, a logística e o património histórico de São Filipe.
Quarto, acordos transparentes de fornecimento com hotéis, restaurantes, aeroportos, lojas nacionais e distribuidores da diáspora, para que o produto do Fogo esteja onde Cabo Verde recebe, serve e vende.
Quinto, um quadro anual de resultados que mostre, sem propaganda, o volume vendido, o preço pago ao produtor, os empregos criados, as exportações realizadas e a participação de jovens e mulheres.
O financiamento deve combinar recursos já previstos para a agricultura, o turismo, o empreendedorismo e o desenvolvimento regional com investimento privado e cooperativo, mediante concursos públicos e prestação de contas. Não proponho mais uma estrutura pesada. Proponho coordenação, metas, transparência e mercado.
A responsabilidade é partilhada, mas não pode ser diluída. Ao Governo compete criar regras, infraestruturas, instrumentos financeiros e diplomacia económica. Aos municípios cabe facilitar o investimento local, organizar o território e promover a ilha em conjunto. Aos produtores e às empresas compete preservar a qualidade, profissionalizar a gestão e cooperar.
O produtor não pode continuar a servir apenas de cenário para discursos e fotografias. Tem de estar no centro da decisão económica e ser o primeiro a beneficiar do valor que ajuda a criar.
A ilha do Fogo já provou que consegue transformar lava em vida e dificuldade em qualidade. Agora, é preciso transformar reconhecimento em rendimento, tradição em empresa e qualidade em oportunidades para os nossos jovens.
Para terminar, dizer que a ilha do Fogo agradece as medalhas, mas não vive de aplausos. Precisa de regras, logística e mercado para transformar qualidade em rendimento para quem trabalha.
*Deputado Nacional eleito pelo círculo eleitoral do Fogo

