Numa altura em que o debate global em torno da Inteligência Artificial (IA) é dominado por avisos catastróficos e disputas hegemónicas entre superpotências, o especialista Hélio Varela rejeita as narrativas de “perda de controlo” e defende uma abordagem pragmática. Sustenta, numa entrevista com A NAÇÃO, na China, que o verdadeiro risco reside na concentração do poder tecnológico e propõe uma estratégia ambiciosa para Cabo Verde.

A proliferação de alertas vindos de cientistas e líderes da indústria de que a Inteligência Artificial (IA) está a ultrapassar a capacidade humana de controlo tornou-se uma constante no debate público. Em vários países e sociedades, o alarme foi accionado para os riscos desta nova tecnologia que tem a China e os EUA como os dois grandes concorrentes.
No entanto, para o especialista Hélio Varela, há que separar a real complexidade técnica dos interesses políticos latentes. Embora reconheça que a velocidade de evolução da IA coloca enormes desafios à regulação, à segurança, ao emprego e à privacidade, Varela adverte contra o fatalismo existencial.
“Estamos perante uma tecnologia extremamente poderosa, mas o que questiono é a passagem do reconhecimento desses riscos para uma narrativa quase inevitabilista de que estamos a perder o controlo ou de que a IA representa necessariamente uma ameaça existencial”, afirma. Para este especialista, a vaga de dramatismo esconde uma disputa geopolítica pela liderança global do novo “petróleo” do século XXI.
Varela aponta para a ironia das posições adotadas pelos blocos dominantes. Enquanto os EUA advogam uma abordagem mais paternalista e fechada em nome da segurança, a China tem promovido o acesso aberto (open source) sob o lema de um desenvolvimento inclusivo e partilhado.
“O futuro da humanidade está a ser definido neste palco. Antes de servirmos de caixa de ressonância de qualquer narrativa, devemos pensar o que estes modelos significam para Cabo Verde”, adverte.
A solução, segundo o analista, passa por aplicar à IA a mesma lógica que serviu para gerir outras tecnologias disruptivas e perigosas no passado: criar regras, instituições, fiscalização e responsabilidade. Contudo, deixa uma pergunta central: “Quem controla o controlo?”.
“Não podemos permitir que, em nome da segurança, se construa um sistema internacional em que meia dúzia de países ou empresas decidam quem pode desenvolver IA e quem fica condenado a ser apenas consumidor. O maior risco pode não ser uma IA demasiado aberta, mas sim uma IA demasiado concentrada, gerando um novo colonialismo digital”.
Pensar pela própria cabeça
Como pequeno país insular e consumidor direto de tecnologias desenvolvidas nos EUA, China e Europa, Cabo Verde enfrenta o desafio de se proteger e afirmar num cenário dominado por gigantes. Para Hélio Varela, a resposta não passa por um protecionismo irrealista nem pela tentativa impossível de produzir semicondutores avançados, mas sim por uma soberania tecnológica pragmática.
“Soberania não significa necessariamente produzir tudo. Tecnologias como o GPS e a própria Internet mostram que o presente e o futuro são partilhados”, explica.
Para este especialista, soberania digital significa ter a capacidade de escolher, compreender, adaptar e substituir tecnologias sem ficar refém de um único fornecedor ou ecossistema.
A chave dessa estratégia reside no aproveitamento dos modelos de código aberto (open source), que hoje constituem a base de cerca de 98% das soluções de software no mundo.
“Os modelos abertos são transformadores para os países africanos. Permitem-nos experimentar, adaptar os modelos às nossas realidades, incorporar as nossas línguas e desenvolver soluções próprias num mundo focado na co-criação”, salienta.
O especialista deixa um apelo à autonomia de pensamento das nações em desenvolvimento: “A questão fundamental não é se vamos utilizar tecnologia americana, europeia ou chinesa. Devemos utilizar todas as que favoreçam o nosso desenvolvimento. A questão é: continuaremos a ser donos das nossas decisões, dos nossos dados e do nosso conhecimento? Nunca como hoje a frase ‘pensar pela própria cabeça’ fez tanto sentido”.
Produtividade e escalabilidade: a vantagem de ser pequeno
O fosso de produtividade entre as economias desenvolvidas e em desenvolvimento pode alargar-se drasticamente se a IA for adotada de forma desigual. Varela ilustra este risco com uma comparação simples: entre duas empresas com a mesma produtividade atual, aquela que integrar IA conseguirá realizar em uma hora o trabalho que antes levava dez. Em poucos anos, a diferença deixa de ser tecnológica para se tornar uma fratura económica intransponível.
Ainda assim, o especialista prefere ver o cenário como “um copo meio cheio” para Cabo Verde. “Não devemos medir a adoção da IA pelo número de pessoas que utilizam o ChatGPT, mas sim pelo quanto ela aumenta a produtividade real da economia, na Administração Pública, turismo, banca, saúde, educação, agricultura e transportes”.
É precisamente na escala reduzida do país que reside a grande oportunidade estratégica. “Cabo Verde é pequeno. Aquilo que algumas vezes consideramos uma fragilidade pode transformar-se numa vantagem nacional. Podemos formar rapidamente uma parte significativa da população, testar políticas públicas, criar sandboxes regulatórias e digitalizar setores completos, transformando o país num laboratório de aplicação da IA para África”.
Para dar este salto, Varela convoca uma nova geração de líderes políticos e empresariais dotados de coragem reformadora e autoestima. “Se esta geração não aproveitar esta ‘onda IA’ e mantiver práticas tradicionais, estará a condenar o país a uma preocupante regressão. Mas se houver ousadia, podemos viver um ciclo de desenvolvimento nunca antes visto”.
A urgência da matemática, da física e do pensamento crítico
Uma das maiores preocupações manifestadas por Hélio Varela prende-se com o rumo do sistema educativo e o crescente afastamento dos estudantes das ciências exatas. “Falamos muito em ensinar os jovens a utilizar a IA, mas utilizar uma ferramenta não é o mesmo que compreender a tecnologia”.
O especialista lembra que por baixo das interfaces amigáveis da IA estão a matemática, a estatística, a álgebra linear, os algoritmos e, nas infraestruturas físicas, a eletrónica e a física. “Se os nossos jovens se afastarem destas disciplinas, seremos excelentes consumidores da tecnologia alheia, mas dificilmente seremos criadores”.
Para contornar esta ameaça, propõe uma reformulação profunda desde o ensino básico, através do reforço do pensamento lógico e da matemática desde os primeiros anos de escolaridade, da introdução da programação e computação no currículo escolar, assim como o uso da própria IA como tutor personalizado para acelerar a aprendizagem.
Defende, no entanto, a valorização das humanidades, filosofia e ética, pois “quanto mais poderosas forem as máquinas, mais importante será saber formular as perguntas certas, distinguir factos de manipulação e compreender o impacto humano das decisões”.
No mercado de trabalho, Varela desmistifica o pânico do desemprego em massa, explicando que a IA transforma tarefas e não apenas profissões. Funções com trabalho cognitivo repetitivo, como atendimento básico, processamento documental e contabilidade operacional, serão automatizadas, mas isso poderá tornar os profissionais mais produtivos.
Além disso, aponta para a exportação de serviços como uma oportunidade histórica: “um profissional cabo-verdiano aumentado por IA reduz as desvantagens da localização geográfica e pode prestar serviços a partir de Cabo Verde para qualquer parte do mundo”.
DA

