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Talento

David Levy Lima, um pintor de dois mundos

Fomos encontrar David Levy Lima no seu ateliê em São Pedro do Estoril, em Lisboa, ao acaso, sem aviso prévio. A tarde estava cinzenta e chuvosa, mesmo assim, estavam à porta vários quadros que logo me pareceram familiares. Assim que nos vê, a mim e ao Xan, manda-nos entrar para dentro do seu ateliê, um espaço atulhado de quadros, livros e ferramentas de trabalho.
Homem de conversa fácil, contador de histórias, em pouco tempo, estamos a falar da sua ilha natal, Santo Antão, dos seus tempos de estudante de liceu em São Vicente e depois, muito mais tarde, da vida em Portugal.
– Estou cá desde 1963 – afirma. – Vim estudar e cá fiquei.
 
Três irmãos pintores
David Levy Lima faz parte de um trio de irmãos artistas plásticos, formado por ele, Abraham e Miguel, de uma prole de 11, filhos de Maria da Penha Levy e João Francisco Lima, “Domila”. Cada um dos três irmãos tem estilo e rumo próprio, embora, amiúde, se juntem em amostras colectivas. A costela artística, revela David, herdaram-na do pai, um homem dinâmico, mobilizador e congregador de vontades, que marcou a Ribeira Grande do seu tempo.
– Somos onze irmãos, dos quais oito pelo menos poderiam viver da pintura – afirma com orgulho.
No seu caso, em se tratando do seu país natal, David Levy Lima é acima de tudo um pintor da memória que transporta consigo.
– Quando menos espero ‘estou’ com a luz de São Vicente, de Santo Antão, do Fogo, ou qualquer outra parte de Cabo Verde – confessa, ao mesmo tempo que explica as características de cada uma dessas luzes. – A do Fogo, lá em cima, na Chã das Caldeiras, é uma luz muito especial…
 
Dois mundos, Cabo Verde e Portugal
Homem de dois mundos, Cabo Verde e Portugal, este cabo-verdiano diz-se inteiramente à vontade na hora de trabalhar.
– Tanto pinto Cabo Verde, como pinto Portugal. Enquanto artista plástico, já representei um e outro em várias partes do mundo. Para todos os efeitos, tenho passaporte dos dois países.
Hoje David Levy Lima é um dos pintores cabo-verdianos mais conceituados em Portugal. Já expôs em vários lugares, como também noutros países da Europa, EUA e Cabo Verde, como não podia deixar. Um dos seus temas recorrentes é “músicos”, nomeadamente o homem do saxofone. E explica a razão desse fascínio:
– Quando era menino, em Santo Antão, havia um senhor que tocava clarinete e saxofone, o Juzim Clarinete. Era magrinho, parecia um clarinete, a figura dele fascina-me ainda hoje. Só mais tarde, em São Vicente, é que vim a conhecer o Luís Morais.
Do célebre saxofonista cabo-verdiano guarda a dor de não lhe ter pintado o retrato.
– O Luís, várias vezes, me desafiou para isso. Sempre que nos encontrávamos, ele dizia-me: “Quando é que fazemos aquele retrato?” Finalmente, um dia, na cidade da Praia, aquando de um dos congressos dos quadros cabo-verdianos da diáspora, resolvemos trabalhar no retrato, numa das salas da Assembleia Nacional, onde iria decorrer o congresso. Só que o Luís não parava, havia sempre alguém a chamá-lo para alguma coisa, para os ensaios, para entrevistas, resultado: acabamos por não fazer o retrato. O congresso foi em Abril e ele morreu em Setembro [de 2002].
 
Presidentes
David Levy Lima é autor dos retratos dos dois primeiros chefes Estado de Cabo Verde, Aristides Pereira (1975-1991) e António Mascarenhas Monteiro (1991-2001), presentes na galeria da Presidência da República de Cabo Verde, na cidade da Praia.
– Pensei que Pedro Pires [2001-2011] iria escolher um outro pintor, mas qual não foi o meu espanto quando, um dia, ele aparece-me aqui, no ateliê, a dizer que também tenho de pintar o retrato dele.
O retrato do comandante está quase pronto.
– Como podem ver, faltam apenas alguns retoques – diz David ao mesmo tempo que nos mostra o trabalho feito a partir de uma fotografia.
 
Hora di bai
Concluída a conversa, David Levy Lima acompanha-nos à rua. Agora a tarde está um pouco mais clara, parou de chover, alguns dos transeuntes que passam o cumprimentam e ele retribui. Mete conversa. Vê-se que é figura conhecida e estimada na zona, tem tempo para todos. Nisso mete conversa com dois dos empregados do restaurante colado ao seu ateliê.
– Aqui servem bom peixe, fresquinho! – diz-nos, antes de nos pormos novamente na estrada. – Uma vez o falecido Aristides Pereira, já depois de reformado, almoçou neste restaurante, indicado por mim. Ele e as pessoas que o acompanhavam gostaram.

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