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Talento

Dom Arlindo, o nosso primeiro cardeal: Um poliglota entendido em textos canónicos

Pouco mais de 480 anos após a criação da Diocese de Santiago de Cabo Verde, a mais antiga circunscrição cristã criada no continente africano, o Papa Francisco eleva o primeiro cabo-verdiano a cardeal. E escolhe Dom Arlindo Furtado, um homem que, pela sua dedicação à fé e aos estudos, se fez líder e um poliglota, tendo sido chamado a traduzir para português livros didáticos a partir de originais em hebraico.
O Papa Francisco voltou, uma vez mais, a surpreender o mundo, no passado domingo, 4 de Janeiro, ao anunciar, “urbi et orbi”, vinte novos cardeais, parte dos quais vindos da “periferia” do mundo cristão. E, nessa leva, incluiu Cabo Verde, país que conhece a partir dos seus contactos com os cabo-verdianos radicados na Argentina.
Pois, segundo uma alta figura do Estado cabo-verdiano que com Francisco se encontrou há tempos, em Roma, o sucessor de Bento XVI fala de Cabo Verde para lá daquilo que está escrito nos livros de Geografia. “Ele lembra-se, por exemplo, da figura do ‘negro Manuel’, um beato do século XVII que os argentinos muito veneram, e que, segundo a lenda, era oriundo de Cabo Verde. Francisco conheceu e privou com cabo-verdianos no país dele. Portanto, ao contrário de João Paulo II que pediu o globo para lhe indicarem onde ficava Cabo Verde, este papa sabe onde fica o nosso país”.
Por isso, quando procura levar a Igreja ao “fim do mundo”, de onde ele próprio Francisco é oriundo, nada mais normal que o Vaticano tenha, desta feita, resolvido fazer justiça a Cabo Verde, designando, pela primeira vez em quase cinco séculos de cristianismo, um cabo-verdiano a cardeal. Uma escolha, diga-se, que encheu Cabo Verde de júbilo, mesmo entre os não católicos ou não crentes. Ainda por mais, e por feliz coincidência, no ano em que este arquipélago cristão, numa região de predomínio islâmico, completa os seus 40 anos de independência nacional.
Dom Arlindo
O certo é que a partir de Dezembro de 2003, quando o Papa João Paulo II nomeou-o primeiro bispo da nova Diocese de Mindelo, Dom Arlindo Furtado tornou mais visível a sua faceta de líder que já patenteava desde muito jovem. Ordenado bispo a 22 de Fevereiro de 2004, fez-se próximo dos fiéis e, no seu trabalho diário, foi mobilizando jovens para os caminhos do sacerdócio, de modo a colmatar a falta de padres para as paróquias das ilhas do norte do país.
A sua liderança mostrou-se em números, tanto assim é que, em uma década, viu perto de uma dezena de jovens ordenados padres, outros tornaram-se diáconos, além de uma dezena de homens casados que se colocaram ao serviço da igreja como diáconos permanentes.
Homem de trato sereno e bastante didático, D. Arlindo faz escola por onde passa e deixa marcas indeléveis, reconhecidas por quem trabalhou com ele tanto na diocese do Mindelo como em Santiago, Roma ou Coimbra, onde foi estudante, docente, pároco e tradutor.
Cultor de hebraico, aramaico…
A faceta de líder carismático de D. Arlindo fez-se perceptível em 40 anos dedicados à fé e à igreja, menos conhecida porém é a de tradutor e cultor de línguas antigas. D. Arlindo expressa-se fluentemente em hebraico, aramaico e grego, e cultiva línguas como italiano, francês, inglês, latim, além do seu materno crioulo e o do oficial português.
Respeitado dentro e fora do país muito antes de se tornar bispo, Arlindo Gomes Furtado foi chamado a participar na tradução, a partir dos originais em hebraico, dos livros sapienciais ou didáticos que falam da sabedoria dos homens e da experiência do amor de Deus na vida da comunidade.

  1. Arlindo trabalhou na tradução de três livros, quais sejam Provérbios, que fala de um Deus criador e justo, misericordioso e inefável; Eclesiastes, que mostra a instabilidade e a insegurança da vida presente, mas também “muitas coisas boas” que vêm de Deus; assim como Eclesiástico, conhecido também como “Sirac” e que mostra o “valor estável” da Lei de Deus.

Estudioso, o ainda bispo de Santiago soube absorver orações, cânticos e poemas, escritos e vividos à luz da fé que se encontram nesses livros e com eles não só vai fazendo a sua história dentro da igreja, como ajuda a construir novos caminhos da fé cristã.
A caminho dos 500 anos
Como homem humilde que é, deixou qualquer vaidade mundana de lado quando soube da sua elevação a cardeal neste domingo, 4 de Janeiro. D. Arlindo preferiu dizer que se trata do reconhecimento da história e do papel da Igreja Católica em Cabo Verde. “Eu acho que são essas duas coisas que se conjugam: o apreço pela história e pelo papel da Igreja em Cabo Verde e a integração de mais gente do Sul para a responsabilidade ao nível da Igreja Católica”, frisou Arlindo Furtado, 65 anos, em declarações à agência Lusa.
Não deixa de ser verdade o esforço do Papa Francisco em reconhecer a importância histórica da diocese de Santiago, a primeira criada em África em 1533, mas também se apresenta como um reconhecimento pelo trabalho dedicado deste estudioso cabo-verdiano.
Mais, no momento em que a diocese de Santiago caminha para daqui a 18 anos, em 2033, comemorar os 500 anos da sua criação, nomear um cardeal cabo-verdiano é um modo de o Papa designar um interlocutor com quem possa delinear cada pormenor para marcar essa data importante não só para a Igreja Católica como para a história de Cabo Verde.
Por outro lado, como certifica D. Arlindo Furtado, o facto de o Papa Francisco ser um homem do Sul, natural da Argentina, também procura dar à Igreja um equilíbrio em termos de responsabilidades. “No passado, a Igreja estava muito dominada, com peso grande do hemisfério Norte, da Europa e da América do Norte. Mas agora, o Papa tenta equilibrar um bocadinho, integrando pessoas do Hemisfério Sul, porque é onde a Igreja está a crescer mais rapidamente. É um papa realista, objetivo, equilibrado e inteligente”, elogiou.
O certo é que, a partir de 14 de Fevereiro, Arlindo Gomes Furtado, o santa-catarinense que já aos 14 anos entrou para seminário menor e seguiu o caminho da fé, tornar-se-á o primeiro cabo-verdiano elevado a cardeal. Passará a ser também um dos 13 cardeais-eleitores que podem participar no colégio para a escolha de um novo Papa.
40 anos depois
Como uma peça que a história lhe prega, D. Arlindo Furtado recebeu a notícia da sua elevação a cardeal quando estava em Santa Catarina de Santiago, a sua terra-natal, a fazer o que faz há quase 40 anos: servir a igreja.
Não estava em Figueira das Naus, onde nasceu a 4 de Outubro de 1949, como quarto filho do casal Ernesto Robalo e Maria Furtado, mas em Chã de Tanque. Seja como for, encontrava-se próximo de onde partiu em 1963 para, a 1 Outubro do mesmo ano, entrar no seminário menor de São José, Cidade da Praia, para fazer os estudos liceais. Menos de oito anos depois, a 11 de Setembro de 1971, partia para Coimbra, Portugal, cidade onde concluiu o curso de Teologia, no Instituto Superior de Estudos Teológicos, tendo regressado a Cabo Verde em 1976.
Ordenado diácono pelo hoje bispo emérito D. Paulino Livramento Évora, a 9 de Maio de 1976, Arlindo Furtado ficou a trabalhar na Paróquia de Nossa Senhora da Graça. Tornou-se padre a 18 de Julho do mesmo ano e logo após foi nomeado Vigário Paroquial de Nossa Senhora da Graça.
Reconhecendo a sua veia de pedagogo, os responsáveis da igreja atribuíram-lhe a função de reitor do Seminário Menor de São José, de 1978 a 1986. Nessa data, rumou a Roma para se licenciar em Ciências Bíblicas pelo Instituto Bíblico de Roma. Quatro anos depois regressaria a Cabo Verde para, em 1991, voltar a Coimbra, desta vez para leccionar Grego Bíblico, Hebraico, História e Geografia do Povo Bíblico e outras cadeiras do Antigo Testamento, no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra (Portugal). Nesse período, foi também administrador paroquial de Amel e Vila Pouca. O desempenho como aluno e docente fez com que ele fosse convidado a integrar a equipa dos tradutores dos livros didáticos.
Regressa ao país em 1995 para assumir a Paróquia de Nossa Senhora da Graça, passando também a ser membro do Conselho Nacional de Educação, professor na Escola de Formação da Polícia e depois Vigário Geral da Diocese de Cabo Verde.
Nasce a Diocese de Mindelo
Quando em Dezembro de 2003, o Papa João Paulo II cria a Diocese de Mindelo nomeia Arlindo Gomes Furtado o seu primeiro bispo. Quase 30 anos após tornar-se Diácono, foi ordenado Bispo por D. Paulino Livramento Évora, na zona de Quebra Canela, na Praia, em 22 de Fevereiro de 2004. Cinco anos depois, no dia 15 de Agosto de 2009, D. Arlindo assumia a diocese de Santiago, e agora elevado a cardeal.
Uma escolha elogiada e comemorada pelo Presidente da República, pelo Primeiro Ministro, pelo presidente do MpD, por vários presidentes de câmaras municipais, assim como pelo bispo da Diocese do Mindelo, Dom Ildo Fortes, fiéis da Igreja Católica e pela maioria dos cabo-verdianos. Todos realçam as qualidades do homem e o facto de essa nomeação colocar o nome de Cabo Verde, uma vez mais, na boca do Mundo, sendo mais um elemento de promoção deste pequeno país.

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