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Opinião

O nosso primeiro Cardeal

Cabo Verde, o país mais católico de África, vai ter, pela primeira vez, o seu Cardeal. A escolha recaiu sobre o bispo de Santiago, Dom Arlindo Gomes Furtado. Uma surpresa agradável com que o Papa Francisco brindou os cabo-verdianos. O próprio nomeado foi apanhado de surpresa. Nesse dia, encontrava-se em Santa Catarina, sua terra natal, a presidir a mais uma missa. Eu, também, a notícia apanhou-me de forma inesperada. Soube-a através do jornalista João Matos, da Rádio França Internacional, que me contactou para confirmar a notícia e obter as primeiras reacções do embaixador de Cabo Verde junto ao Vaticano, Antero Veiga, que é igualmente ministro do Ambiente, Habitação e Ordenamento do Território. Nada fazia prever que, a curto prazo, o arquipélago ia ter um Cardeal com assento no conclave que elege o Chefe Supremo da Igreja Católica.

O bispo de Santiago, que é conhecido pela sua simplicidade e humildade, entende que, pessoalmente, o título é imerecido porque o mérito é do trabalho e do papel da Igreja em Cabo Verde. Esta é a característica dos grandes homens. Foi assim quando foi nomeado bispo do Mindelo pelo Papa emérito Bento XVI e foi assim quando assumiu a Diocese de Santiago.

Durante a sua passagem pela Diocese do Mindelo, provocou grandes mudanças no comportamento das pessoas, que passaram a assistir com maior regularidade às missas dominicais e há quem diga que se registou uma espécie de reencontro dos mindelenses com a sua igreja.

Indubitavelmente, levou uma lufada de ar fresco ao processo de evangelização na região de Sotavento, processo esse continuado pelo seu sucessor o bispo Dom Ildo Fortes.

Ainda eu era muito jovem quando conheci o padre Arlindo Furtado, um homem que se entregou de corpo e alma ao serviço da Igreja Católica em Cabo Verde. Foi pároco da Freguesia de Nossa Senhora da Graça, tendo desempenhado estas missões com competência, generosidade e humildade, o que fez dele um homem muito querido e respeitado não só pelos seus pares, mas também pelos cabo-verdianos, de uma forma geral.

No dia da sua consagração como o 34º Bispo da Diocese de Santiago, o povo soube retribuir-lhe o carinho e amizade que sempre manifestou, quer enquanto padre, quer na qualidade de primeiro Bispo da Diocese de Mindelo. Só assim se justifica a presença massiva dos católicos no referido acto solene. Em suma, um banho de multidão só comparável à visita, em 1990, de João Paulo II, a primeira de um Papa a Cabo Verde. No meio desta grande moldura humana viam-se pessoas de variados estratos sociais. É mesmo que dizer que a cidade da Praia parou para assistir a uma das maiores procissões de que se tem memória no arquipélago.

Estamos no ano do 25º aniversário da primeira deslocação de um Papa a estas ilhas do Atlântico Médio. Foi a 25 de Janeiro de 1990 que João Paulo II, hoje santo, visitara este arquipélago a convite do falecido Presidente da República, Aristides Pereira, e do bispo emérito Dom Paulino Évora. Na ocasião, o Santo Padre desejara ao “querido povo cabo-verdiano um desenvolvimento autêntico, por uma solidariedade que leve à fraternidade, assentes nos direitos e liberdades fundamentais inseparáveis da dignidade humana”. E um ano depois dessas palavras proferidas pelo Pontífice registara-se a abertura política, abrindo, assim, a possibilidade de outros partidos concorrerem às eleições para a escolha dos dirigentes deste país.

Assim como o 25 de Janeiro se tornou uma data importante para os cabo-verdianos, o 14 de Fevereiro vai também sê-lo. Nesse dia, Dom Arlindo vai ser confirmado como Cardeal, o primeiro na história de Cabo Verde.

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