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Sociedade

Marinheiro desaparece numa saga entre Cabo Verde e Turquia

Um dos quatro tripulantes que partiram do Mindelo a bordo do rebocador turco  Sir Michael sumiu dos olhos dos companheiros de viagem e outro encontrava-se retido num estaleiro na Turquia. Só dois regressaram a Cabo Verde, após uma intervenção polícia que obrigou os agentes do rebocador a devolver-lhes os documentos, passaporte e cédula marítima. Uma história com contornos de escravatura humana.
A saga de Ailton Neves, Victor, José Ventura e João Rocha iniciou-se no Porto Grande, Mindelo, quando foram contratados por agentes turcos para levar o rebocador Sir Michael para aquele país da Eurásia. Partiram no passado 26 de Setembro de 2014, mas desviaram a rota para Nigéria e Gana, onde rebocaram dois tankers e rumaram de seguida para a Europa.
Conta o jovem Ailton, um dos dois que regressaram a Cabo Verde após pedir a ajuda à polícia, que tiveram muitos problemas na viagem, perderam um dos tankers devido ao mau tempo e passaram 10 dias a tentar recuperá-lo. “Fomos obrigados a fazer manobras perigosas e depois de algum tempo disseram-nos que um rebocador italiano tentaria recuperar o tanker e nós seguiríamos viagem. Mas o nosso companheiro José Ventura, mais conhecido por Naiss Expediente, ficou supostamente a ajudar no rebocador italiano”, relata o jovem de 28 anos, que desembarcou do navio Vicente no verão passado para entrar nesta aventura turca.
Chegando ao estaleiro Tersane, em Istambul, depois do rebocador Sir Michael “mudar de bandeira por três vezes” durante a viagem, Ailton, Victor e João Rocha pediram informações de Naiss Expediente aos agentes turcos, mas foi-lhes recusada qualquer notícia. Entretanto, começaram a perceber que teriam dificuldades em sair da Turquia, porque, logo assim que chegaram ao destino, o capitão do rebocador sumiu e tiveram os seus documentos, cédula e passaporte, retidos.
A PÃO E SUMO
Os três marinheiros cabo-verdianos passaram dias em Tersane a pão e sumo, até resolveram pedir ajuda a um conhecido turco para entrar em contacto com a polícia do distrito de Tuzla. Só após a pressão da polícia, Ailton e Victor conseguiram recuperar os documentos e regressaram a Cabo Verde, com vida, no passado 7 de Janeiro. Para trás deixaram João Rocha, de 62 anos, que ficou à espera do passaporte e a cédula, e muitas horas de trabalho por receber.
Ailton conta que chegou a trabalhar 14 horas seguidas sem descanso durante a primeira semana. Teve de reclamar ao comandante e só depois passou a trabalhar menos. Ainda fizeram muitas horas extraordinárias quando perderam o tanker, mas os agentes não lhes pagaram os extras. Portanto, uma autêntica escravatura.
Sobreviventes de dias difíceis, assim que chegaram a São Vicente, os dois marinheiros deram o caso a conhecer às autoridades marítimas, sobretudo para que estas possam tentar desvendar o “sumiço” de José Ventura e ajudar João Rocha a voltar são e salvo ao país.
Mas o problema que se coloca é que os tripulantes do Sir Michael fizeram contratados directamente com os agentes turcos, sem intermediário ou conhecimento das autoridades cabo-verdianas. Sendo assim, como disse ao A NAÇÃO o capitão dos Portos de Barlavento, António Duarte Monteiro, é muito complexo seguir o rasto do marinheiro dado como desaparecido pelos colegas e do outro que ficou em Istambul.
Entretanto, ainda durante a nossa conversa, o capitão dos Portos ligou para a pessoa que agenciou o rebocador em São Vicente no sentido de dar seguimento ao caso. Até o fecho desta edição não foi possível ter acesso a informações da pessoa que agenciou o rebocador. Mas o primeiro passo será perceber quem foram os agentes turcos que contrataram os marinheiros e depois cruzar as informações.
E a confirmar o desaparecimento de José Ventura e a retenção dos documentos de João Rocha, o Ministério de Relações Exteriores de Cabo Verde é chamado a intervir nesse processo para descobrir o paradeiro desses cidadãos cabo-verdianos.
 
 
 

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