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Opinião

Psicopedagogia: uma ciência em busca de uma identidade própria…

Pedro Clóvis Fernandes
Qualquer ciência emergente, portadora de uma nomenclatura que excite alguma estupefação e interesse, tende, não raras vezes, a tornar-se objeto de curiosidade e perscrutação, entre os que aquilatam que ela poderá propiciar um conjunto de vantagens relevantes com efeitos positivos no aprimoramento da sua atividade profissional.
Dizendo respeito ao sector da educação, referimo-nos, naturalmente, a um amplo e rico universo de agentes educativos, que vão desde os educadores de infância, sulcando os professores do ensino básico e secundário, até aos docentes universitários. Neste contexto, seja qual for o grau de ensino em que se está a exercer o magistério, parece haver, de facto, um denominador comum que é constantemente experienciado e partilhado por professores e alunos de todos esses níveis de ensino: Problemas de Aprendizagem.
Ora, num país que deposita fortes esperanças no sistema educativo, os casos de insucesso e abandono escolar são sempre motivos de forte preocupação. Por outro lado, há o risco de perda de vigor, brilho, confiança e prestígio por parte de seu público-alvo fundamental constituído por alunos, pais e encarregados de educação. Dentro deste quadro, recorrentemente se comete um pecado grave, quando professores e pessoal diretivo, com funções pedagógicas e administrativas, respetivamente, são, amiúde, feitos bodes expiatórios, atribuindo-lhes quase toda a responsabilidade pelo fracasso da escola, por esta não ter criado, supostamente, as condições ideais para que o aluno possa aprender e progredir na totalidade das suas dimensões.
Quando se fala de obstáculos que se opõem ao processo de ensino e aprendizagem, pensa-se em fatores de ordem diversa que suscitam e mantêm dificuldades de aprendizagem em determinado grupo de alunos, impedindo-os de seguir o normal desenvolvimento do programa educativo oficial. De modo não surpreendente, esses alunos apresentam, geralmente, um rendimento escolar abaixo do patamar médio e/ou mínimo das proficiências exigidas e, por isso, necessitam de apoio pedagógico acrescido, senão mesmo de um currículo alternativo.
Há já algumas décadas, diversos especialistas ligados ao mundo da educação têm vindo a estudar e investigar um domínio de conhecimento essencialmente virado para a resolução dos problemas de aprendizagem, ao qual chamaram de “Psicopedagogia”.
À primeira análise, o leitor pode supor que a Psicopedagogia é uma simples junção entre “Psicologia” e “Pedagogia”, as quais estão na base da sua formação. Essa visão muito redutora do conceito de Psicopedagogia deve ser integrada na dos primórdios do seu surgimento, meados do século XX, quando, nessa altura, se fazia crer que ela seria apenas uma “ aplicação da psicologia à pedagogia”.
Hoje sabe-se que a Psicopedagogia reveste-se de um carácter complexo e interdisciplinar que lhe permita, enquanto área de estudos, recolher contribuições em outros campos científicos, com vista a continuar a edificar um corpo teórico e práxico cada vez mais autónomo e consistente.
A principal particularidade da Psicopedagogia em atinência a outros ramos de conhecimento, que também lidam com questões do fracasso escolar, prende-se com o facto de que ela se ocupa essencialmente dos problemas de aprendizagem que são, neste caso, o seu objeto de estudo. Isto significa admitir que, antes do aparecimento da Psicopedagogia, nenhuma outra ciência humana tinha elegido o insucesso escolar como elemento central de sua investigação.
Entretanto, a Psicopedagogia atua sobre o processo de aprendizagem como um todo, procurando compreender e eliminar os diferentes fatores que produzem alterações tanto no ensino como na aprendizagem. Neste contexto, o psicopedagogo trabalha não só com o aluno, mas também com o professor, incidindo, neste último caso, a sua tarefa nas questões didático-metodológicas, na formação e orientação de professores. Além do espaço epistemológico (escola), o psicopedagogo intervém também na família e na comunidade.
Em Cabo Verde, a Psicopedagogia é, praticamente, ignota no nosso meio académico. Isso porque não há cursos nem de licenciatura, nem de mestrado nem de doutoramento no âmbito da mesma. Porém, a Universidade de Cabo Verde parece estar a dar os primeiros passos, com a criação recente de um Gabinete de Orientação Psicopedagógica, que está a funcionar, pelo menos em parte, sob o regime de voluntariado, mediante a contribuição de especialistas em Pedagogia, Psicologia, Sociologia e outras áreas afins.
Numa altura em que a retórica política gira em torno do aumento da qualidade de ensino, em todos os níveis do sistema educativo, cremos que a Psicopedagogia poderá afigurar-se como um aliado de peso no alcance desse tão almejado desiderato, se, efetivamente, todos os atores políticos e profissionais de educação lhe atribuírem uma atenção especial.
Por isso, é curial aproveitarmos a presente ocasião, que simboliza o Mês do Professor Cabo-verdiano, para refletirmos sobre a possibilidade de esta nova ciência vir a dotar-nos de melhores ferramentas e estratégias pedagógicas que nos permitem imprimir uma compreensão mais vasta e profunda dos fatores que fomentam o insucesso escolar de nossos educandos.

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