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Opinião

40 anos e a necessidade de uma nova agenda para a diáspora

Paulo Mendes

Existem várias formas, não coincidentes entre elas, de olharmos para os 40 anos de independência de Cabo Verde. Porém, prevalece um denominador comum nestes diferentes olhares sobre as quatros décadas de afirmação de Cabo Verde: um enorme orgulho do percurso que o nosso país tem trilhado e uma forte dose de esperança de que conseguiremos ultrapassar as enormes dificuldades ainda pela frente.

Neste exercício de balanço dos nossos 40 anos como nação independente, convocar os milhares de emigrantes cabo-verdianos e dos seus descendentes para uma relação renovada com Cabo Verde é, na minha perspectiva, um dos elementos centrais e diferenciadores para os próximos tempos. Não fazê-lo é desperdiçar um enorme potencial e parece-me que se não criarmos uma nova agenda, em que as enormes vontades existentes possam encontrar um sentido estratégico de ação, estaremos inevitavelmente a ir neste sentido.

É lugar-comum afirmar que a diáspora cabo-verdiana assume um papel relevante no processo de desenvolvimento de Cabo Verde que se traduz em diferentes esferas da nossa existência coletiva enquanto nação. Apesar das limitações estatísticas, os dados mais seguros sugerem que a população emigrada da 1.ª geração deverá rondar meio milhão e se considerarmos os descendente o universo da diáspora cabo-verdiana é constituído por mais de 800 mil pessoas que vivem, assumem e (re)definem a cabo-verdiana a partir de diferentes espaços geográficos.

Perante o novo contexto dos processos migratórios, do próprio enquadramento atual de Cabo Verde, do aceleramento do processo da globalização e do acesso às novas tecnologias, é imperioso concretizarmos uma rutura na forma como a diáspora se relaciona com Cabo Verde e vice-versa.

Apesar da inequívoca importância que a diáspora tem assumido no desenvolvimento de Cabo Verde, a percepção que eu tenho é que ao longo deste 40 anos, a relação que a diáspora tem assumido com Cabo Verde é feito mais assente numa premissa de amor incondicional de milhares de cabo-verdianos por Cabo Verde e quase sempre fora de um sentido estratégico de ação.

Aproprio-me do termo “ruptura” com a consciência exata do peso da palavra, e sem nenhum intuito de desvalorizar o enorme trabalho que os diferentes responsáveis políticos e as suas equipas desenvolveram e do desejo que existe em desenvolver uma política mais consequente e com ganhos mais visíveis para Cabo Verde.

A primeira ideia que quero defender é esta: criarmos as condições para, por exemplo, o Congresso de Quadros se possa transformar num Think-Tank. Cabo Verde tem pela frente inúmeros desafios que, associados a graduação do país de desenvolvimento médio, implica novos posicionamentos dos agentes de desenvolvimento, novas abordagens e, sobretudo, novas atitudes. Esta nova realidade implica que tenhamos vozes e estruturas que possam des(construir) os discursos políticos que sendo importantes não devem ser exclusivos no processo de edificação das opções e de definição dos caminhos de desenvolvimento de Cabo Verde. Esta estrutura de Think-Tank deverá ser, essencialmente, um espaço debate e de apresentação de propostas concretas para o desenvolvimento de Cabo Verde. Insisto na ideia de que devemos ter uma estrutura ágil, dinâmica e com uma forte capacidade de influenciar positivamente o processo de desenvolvimento de Cabo Verde.

Hoje, para além da discussão sobre a importância das transferências das remessas dos emigrantes, impõe-se uma discussão cuidada sobre os mecanismos que devemos convocar por forma a colocar as ideias, as vontades, o Khow How e as redes de contatos que a diáspora têm em prol do desenvolvimento de Cabo Verde. Não podemos desvalorizar tudo o que já foi feito em nome desta construção de diálogo entre a diáspora e Cabo Verde e da enorme vontade que existe em fazer com que Cabo Verde possa aproveitar da melhor forma possível a enorme potencialidade que a sua diáspora representa. A questão é saber se poderemos andar mais depressa e com mais eficácia. Parece-me que temos todas as condições de construir este diálogo de forma mais célere e mais consequente.

Ter uma relação forte com a diáspora implica criar as condições para uma boa integração dos cabo-verdianos e dos seus descendentes nos diferentes espaços de acolhimento. A nível de participação política da comunidade cabo-verdiana é regra geral muito deficitária e temos condições em diferentes países de fazer muito melhor.

A nível de intervenção associativa e apesar do meritório trabalho que centenas de associações cabo-verdianas desenvolvem, é um trabalho muitas vezes fechado sobre a própria comunidade e com um alcance deficitário na criação de plataformas de influência de criação de lóbis. Ao contrário do que possa parecer, muitos cabo-verdianos em posição profissional de algum relevo não contribuem com seria de esperar para a valorização do movimento associativo.

Em relação aos descendentes de cabo-verdianos, o potencial que apresenta para o desenvolvimento de Cabo Verde assume a mesma proporção nos desafios, na medida em que a relação afetiva com Cabo Verde não é tão forte. Impõem-se, por isso, a necessidade de reinventar esta ligação.

Existe um papel insubstituível que cada um de nós pode e deve desempenhar, independentemente da nossa posição ou geografia, no desenvolvimento dos nossos dez grãozinhos de terra que, pequenos no tamanho, são grandes em ambição e na vontade de continuarmos a ter um país melhor do que ontem e olhar para o nosso percurso e dizer: tenho orgulho em ser cabo-verdiano.

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