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Opinião

Cabo Verde: (in)dependências num contexto pós-colonial de clientelismo e mimetismo

Celeste Fortes*

Aqui nas ilhas existe o hábito de se colocar um capacete, quando se faz 40 anos. Este ritual pode ser interpretado como a chegada a um momento biográfico de autonomização, a vários níveis.

A 5 de Julho Cabo Verde colocará o seu capacete e comemorará o quadragésimo aniversário enquanto país independente. Uma conquista alcançada em 1975, depois de cerca de cinco séculos sob a dominação portuguesa. Enquanto jovens, nascidos depois da Independência, o que significa viver num estado independente? Como posicionamos diante desta condição? Como gerimos as nossas heranças coloniais e pós-coloniais, para participarmos activamente e criticamente na construção da nação cabo-verdiana?

Concentremo-nos na questão das heranças e proponho que esta análise seja feita a partir de um diálogo com dois grandes pensadores africanos: Amílcar Cabral e Kwame N Krumah.

Ao longo da sua trajectória intelectual e política, Amílcar Cabral imprimiu, no projecto de luta contra o colonialismo, a necessidade de nós, os colonizados, termos capacidade para pensarmos pelas nossas próprias cabeças. Quarenta anos depois, já não estamos nesta condição de colonização e é importante perguntar se conseguimos, sobretudo enquanto jovens, colocar em prática este legado de Cabral. Talvez a melhor forma de respondermos a esta questão será olhando para o sistema de ensino cabo-verdiano e a relação que mantemos com o conhecimento de nós mesmos.

No geral, o ensino em Cabo Verde sofre de um mimetismo acrítico, fruto de uma importação não problematizada de referências epistemológicas de outro contextos geográficos com os quais mantemos uma relação de admiração.

Neste contexto fica difícil a qualquer jovem empreender um projecto de pensamento autónomo e com implicações directas e quotidianas no seu contexto de vida. Não se pode experimentar um pensamento autónomo enquanto não tivermos recursos para participarmos de forma competitiva na produção do conhecimento, sobretudo endógeno. Ou seja, tenho por mim que a importação intelectual, tanto a nível teórico como prático, do norte, por exemplo, deve-se a uma ausência de conteúdos endógenos, valorizados e com força suficiente para serem usados como armas neste embate.

Quarenta anos depois, ainda muita gente não percebeu que o conhecimento, também, é um campo de competição e que dominarmos o mundo é, também, um processo de marcar a diferença no mercado global.

No geral, é preciso assumirmos que nesta caminhada de independência temos sido incapazes de oferecer, sobretudo aos jovens, estes recursos competitivos. Para uma nação, cujo investimento na educação tem sido cada vez mais notório, é estranho que ainda não tenhamos ainda conquistado, completamente, a nossa independência intelectual.

Ou, será o caso para questionar – agora que temos 40 anos – as intenções deste investimento? Investimos porque queremos ter jovens que pensam pelas suas cabeças, os tais sujeitos inconvenientes ou investimos porque queremos ter jovens reprodutores das conveniências de alguns grupos?

Quando chegamos neste momento biográfico, creio que será altura de assumirmos que um dos impactos negativos da não autonomização reflexiva e epistemológica é a de que temos uma geração que não tem todos os recursos para ser empreendedor. Apesar de grandes sinais de participação de jovens cabo-verdianos, tanto no país como no exterior, no campo do conhecimento e do empreendedorismo, ainda temos uma carência criativa que inclusive atrapalha a nossa relação com o estado.

Quarenta anos depois falta-nos dizer aos jovens que se têm de libertar da grande dependência que têm com o estado e que para isso têm de criar, produzir e contribuir com outras e novas soluções para o projecto nacional.

Frequentemente, ouvimos reclamações – também dos jovens – de que Governo não dá nada!, de que A culpa é do Governo, que nos abandonou! ou ainda O Governo tem que olhar para/por nós!

Um diagnóstico à juventude cabo-verdiana e à sua relação com o mercado de trabalho permite-nos olhar mais afundo estas lógicas dependentistas.  Temos de ser honestos e aceitar a constatação de que os jovens herdaram uma lógica de que o melhor empregador é o estado.

O que leva-me a trazer para o diálogo o pensador ganês Kwame N krumah. Para o que aqui nos interessa debater, é importante considerar a reflexão deste pensador à volta da relação que os países descolonizados continuaram a manter com as antigas potências que os colonizou.

Estes estados clientes, como chama-lhes N Krumah, não conseguiram libertar-se no plano cultural, financeiro e diplomático e apesar de formalmente livres, continuam a manter uma relação de clientelismo com os ex-colonizadores.

Cabo Verde não conseguiu escapar desta lógica clientelista, vigente tanto nas relações internacionais que mantém com a sua antiga potência colonizadora e com outros países, como na relação que os cidadãos cabo-verdianos mantém com o que chamam de estado ou governo, as chamadas estruturas governamentais centrais e locais.

A providência estatal em Cabo Verde tornou-se, em alguns casos, uma situação constrangedora para o próprio projecto de desenvolvimento nacional. Com os seus princípios, vantagens e vícios inerentes criou a ilusão de que as respostas a todos as demandas dos cidadãos estão garantidas pelo estado.

Tanto assim é que, para muitos jovens a solução está no aparelho da função pública como lugar para a construção de uma carreira profissional e como espaço para singrar, num contexto cada vez mais competitivo.

Talvez seja hora de começarmos a aceitar que não, que nem todos os jovens que estão a formar-se e que se vão formar nos próximos tempos serão funcionários públicos como os pais, por exemplo. E de que isso, será um ganho para o país, este poderá ser o caminho para uma nação menos cliente e mais eficiente.

Mais ainda, o clientelismo não se fica apenas pela relação entre o cidadão e  governo. Nota-se também a existência perigosa de um clientelismo partidário. Pertencer a um partido x, y ou z como mecanismo de segurança profissional, sobretudo, e que chega a reforçar mais ainda a dependência de muitos jovens. Este clientelismo partidário cria um ambiente de participação política também mimética, instalando a ideia de combate por um lugar no aparelho político e não tendo como projecto a transformação pela via da crítica.

As estruturas partidárias deviam-se auto-vigiar contra este tipo de participação, mais não seja porque podem ser minadas a partir de dentro, é que não podemos ignorar que o actual clientelismo vem acompanhado de uma postura individualista, cada vez mais afastada da valorização do colectivo. Temos assistido a sinais, perigosos, de acumulação de riqueza tanto pela geração que lutou como pelas gerações pós-independência, que criam um ambiente de tensão entre as gerações. Os sacrifícios em nome do colectivo, hoje, já não são olhados como princípios organizadores do exercício de uma cidadania activa. Neste contexto, fica cada vez mais difícil convencer os jovens de que têm de se entregar à causa da nação e do colectivo.

Passados quarenta anos da nossa independência o desafio é o de ultrapassar estas lógicas de dependência que se têm instalado em Cabo Verde.

Como?

Combatendo os mimetismos e os clientelismos instalados.

Reconhecendo as nossas ingratidões perante a nossa história.

Consciencializando da necessidade de andar-mos pelos nossos pés.

Promovendo a autocrítica como caminho para a criatividade e liberdade de pensamento.

Valorizar os conhecimentos endógenos.

*Antropóloga e docente da Uni-CV

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