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Opinião

O princípio da humanidade

Arsénio Fermino de Pina*

Essa avalanche de gente que foge dos seus países a caminho da Europa, que morre afogada no Mediterrâneo, é mal aceite ou afugentada de certos países europeus, por exemplo da Hungria, que tem um governo reacionário direitista, como se fossem animais pestilentos, fez-me rever o princípio da humanidade desenvolvido pelo jornalista e escritor Jean-Claude Guillebaud num livro com esse título. Esses refugiados a que chamam de migrantes, fogem da guerra, da insanidade mental de certos dirigentes indígenas, da morte e da miséria mais negra, sonhando em recuperar a normalidade de vida na Europa, não são turistas nem andam à procura de trabalho como emigrantes económicos, embora bem poucos aproveitem essa eventualidade, oriundos de países sem guerra, à procura de trabalho mais bem remunerado. Qual a culpa deles por terem nascido em países onde não se respeitam os Direitos do Homem e se é forçoso a ser muçulmano? Situação realmente trágica, jamais vista, motivada pela estupidez de governantes ocidentais que os levou a destruir o Iraque, liquidando o seu presidente (durante a inqualificável presidência de Bush), a desestabilizarem a Síria e a Líbia (América e países europeus), permitindo a liquidação de Kadafi, na ilusão de substituírem esses regimes autocráticos por outros democráticos, quando, em verdade, julgavam ser fácil, com essa manobra, poder controlar ou apoderar-se do petróleo desses países, tendo como resultado entrega-los a terroristas islamitas que os transformaram em açougues de pessoas que discordam da sua religião ou seita e destroem patrimónios pré-históricos da Humanidade.

No Líbano, por cada três habitantes, um é sírio, na Jordânia, algo semelhante – com 83.000 refugiados sírios -, bem como na Turquia. A Grécia, com os seus graves problemas, e a Itália, são países de passagem dos refugiados a caminho de outros, europeus, geralmente para a Alemanha e Suécia; países como a Macedónia e Hungria dificultam ou impedem a passagem desses refugiados, estando esta a construir um extenso muro – será que se esqueceram da vergonha do Muro de Berlim?- que a separa da Sérvia para impedir a entrada de refugiados. Há cerca de 3,5 milhões de refugiados sírios no Líbano, Turquia e Jordânia, e até o Uganda alberga 200.000 refugiados congoleses.

É bom de ver que esses refugiados que provêm da Síria, Iraque, Líbia, Eritreia e Somália são aqueles que podem pagar até vinte mil euros aos passadores para os transportar, porque a grande maioria não dispõe de meios e sujeita-se a morrer ou tenta fugir a pé, correndo todos os riscos, morrendo em grande número pelo caminho. O que é intrigante é não se dirigirem para os países de seus irmãos de sangue e religião que regurgitam riqueza e possuem boas condições de alojamento, como a Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Qatar e Barhein. Eles (também nós) lá sabem as razões, de que pouco se fala por serem países cujos governantes, embora ditadores ou reliquats da Idade Média, são favoráveis ao Ocidente e totalmente subordinados aos interesses destes.

Há todo um enorme burburinho na Europa por causa desses refugiados. Constroem-se barreiras de arame farpado com electrificação de alta tensão e muros intransponíveis (Hungria) para impedir a passagem desses refugiados, como se fossem portadores da peste negra ou animais selvagens em fuga, quando são seres humanos que fogem à morte, à guerra civil e à insanidade mental de alguns dos seus governantes. Este procedimento fez-me lembrar a justificação que deu o primeiro-ministro francês de De Gaulle, Debré, para justificar a produção da bomba atómica: “dispor de uma arma para prevenir ou combater uma eventual invasão do país pelos bárbaros do Sul”.

Há países europeus abertos e receptivos dispostos a receber esses refugiados integrando-os na sua sociedade – a Alemanha, à cabeça, que aceita 800.000/ano, a Suécia, em segundo plano, aceitando mais do que a França, Portugal com 1.500 e hipótese de receber mais, com experiência na matéria por ter conseguido integrar um milhão de retornados, e outros renitentes, quando a União Europeia, ainda hesitante e morosa, parece ter admitido receber, anualmente, por cada país, um refugiado por cada mil habitantes, conhecendo a situação trágica no Líbano, Jordânia e Turquia.

Onde está a humanidade desses países, sabendo-se que a sua riqueza e desenvolvimento se devem à exploração no passado dos habitantes e das riquezas das terras desses refugiados? Contabilize-se o lucro obtido por muitos desses países europeus e da América do Norte da exploração das matérias-primas, minérios, diamantes, madeiras raras, petróleo, etc., das especiarias do Oriente, das plantas inexistentes na Europa e América do Norte (nos Estados Unidos, aquando da sua descoberta, a única planta comestível que existia era o girassol e a abóbora; a batata veio da América do Sul e permitiu combater a fome na Europa, o milho, do México, o arroz, do Oriente, etc.), que foram introduzidas e contribuíram para o enriquecimento desses países. Inclusive, muitas das sementes colhidas no Sul, foram modificadas geneticamente e patenteadas e são vendidas, devendo os agricultores do Sul comprar anualmente essas sementes porque, modificadas, possuem um gene letal incluído que não permite utilizar as sementes que germinarem.

Verdade irrefutável é todo o homem, toda a mulher e toda a criança – mesmo física ou mentalmente diminuído – ser membro da espécie humana. É titular, como tal, de uma dignidade que ninguém pode violentar, como exigência da dignidade humana, e, com maioria de razão, quem foge da guerra, da perseguição e da morte certa. Infelizmente, como venho escrevendo e dizendo há largos anos – mas quem é que ouve um simples João Semana Insular? -, as coisas não se passam assim, porque uma poderosa máfia financeira e indústria biotecnológica desenvolvem-se em todo o mundo orientadas em exclusivo no sentido do lucro ilícito, inteiramente mercantilistas, poderes que se aproveitam do enfraquecimento da política, servindo-se da desregulação/privatização para adquirir uma força e autonomia sem equivalente na História. O Papa Francisco lembrou que “esse tipo de economia mata!”. Os neoliberais mais extremistas – aqueles que dominam a actualidade – até já garantem a liberdade de negociação entre as raposas e as galinhas no interior da capoeira! Parece que a tal “mão invisível” de Adam Smith é agora capaz de canibalizar até a Humanidade do ser humano… Fi d´cadon!

Queremos crer que o Estado-providência está sendo substituído pelo Estado-penitência, muito provavelmente porque a indiferença e a passividade do cidadão levam a que medíocres e corruptos se apoderem do poder.

A matéria presta-se a várias leituras que reservarei para próximos artigos.

*Pediatra e sócio-honorário da Adeco

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