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Sociedade

42 anos/Guiné-Bissau: Cabo-verdianos sentem-se “como se estivessem em casa”

Entre emigrantes e descendentes existem perto de 12 mil cabo-verdianos na Guiné-Bissau, mas “todos se sentem como se estivessem em casa”, tal é o à vontade com que vivem no território guineense há décadas, conta à Lusa Simão Moreira.
Primeiro presidente da AFIDACAV (Associação de Filhos e Descendentes de Cabo Verde) de que agora é “conselheiro e faz tudo”, Simão Moreira explica que os cabo-verdianos se sentem na Guiné-Bissau “como se estivessem em casa”.
Simão Moreira está no país desde 1992, ano em que chegou com o sonho de fazer negócio, mas rapidamente viu as expetativas frustradas.
Mesmo assim decidiu fixar residência – embora não se considere emigrante. Mailing Marisa da Silva nasceu na Guiné-Bissau, mas sendo filha de pais cabo-verdianos, tem dupla nacionalidade, tal como acontece com vários outros membros da AFIDACAV, de que é agora presidente.
Pedro Silva é originário da ilha de Fogo, mas tendo percorrido vários países da África Ocidental, em 2011 decidiu “tentar a sorte” na Guiné-Bissau como comerciante de roupa usada.
Diz que vai e vem, mas que “as coisas não são fáceis” na Guiné-Bissau onde, lamenta, é obrigado a mudar de interlocutor de cada vez que visita Bissau para tentar fechar um negócio.
Apesar das dificuldades “para encontrar um parceiro”, Pedro Silva afirma sentir-se em casa de cada vez que está na Guiné-Bissau, mesmo não percebendo “a confusão na política”.
Profundo conhecedor da realidade dos cabo-verdianos em chão guineense, Simão Moreira explica que estes se dedicam ao comércio, serviços e trabalho burocrático “como qualquer guineense”.
Os cabo-verdianos, emigrantes e descendentes, estão na Guiné-Bissau desde a década de 1940 mas, só nos últimos 10 anos é que as autoridades da capital, Praia, começaram a prestar-lhes alguma atenção, observa Moreira.
Lamenta, contudo, que o Governo cabo-verdiano, através da embaixada no Senegal que cobre a Guiné-Bissau, “não se envolva mais” na vida da Associação de Filhos e Descendentes de Cabo Verde, para que se saiba com exatidão o número e as condições de vida dos seus cidadãos na Guiné-Bissau.
“Sabemos que temos muitos descendentes em Bissau e no interior, em Gabu, Bafatá, Bambadinca, Canchungo e Bolama, mas gostávamos de saber o que fazem e como vivem”, defende Simão Moreira.
Já Mailing da Silva critica a falta de uma embaixada na Guiné-Bissau, preocupação que a líder associativa levou ao primeiro-ministro cabo-verdiano, José Maria Neves, aquando da sua visita a Bissau no mês de julho.
“Muita gente tem procurado a associação para tratar da documentação de Cabo Verde. Tem sido difícil porque somos apenas uma associação. Há muitos descendentes (de cabo-verdianos) a querer os documentos”, nota a presidente da AFIDACAV.
Nas últimas eleições gerais em Cabo Verde, os emigrantes e descendentes de cabo-verdianos na Guiné-Bissau puderam, pela primeira vez, votar para a escolha dos dirigentes, um facto que tem motivado cada vez mais a procura da documentação cabo-verdiana, observam os líderes da associação.
O primeiro-ministro José Maria Neves prometeu analisar a preocupação ao nível das autoridades e dar uma resposta em breve.
Desde há cinco anos que o Governo da Praia paga uma pensão mensal a 38 cidadãos cabo-verdianos residentes na Guiné-Bissau, um gesto que a AFIDACAV elogia, mas pede que o benefício seja alargado a outros membros da comunidade.
“Há muita gente a necessitar de ajuda, sobretudo entre os descendentes idosos”, diz aquele que é tido como a referência dos cabo-verdianos na Guiné-Bissau.
Como “faz tudo” da associação, Simão Moreira conseguiu junto do Governo guineense um terreno de 500 hectares em Bambadinca, centro da Guiné-Bissau, para dar aos membros da AFIDACAV para quem quiser dedicar-se à agricultura.
“Hoje a Guiné tem esses problemas [políticos] mas um dia há de se estabilizar. Aí, o pessoal vai precisar de terras para produzir”, observa Simão Moreira.
A associação pediu mais de 1.500 hectares de terra, por acreditar que o “futuro está na agricultura”, salienta Simão Moreira.
Problemas há em todas as comunidades emigradas. “Nos últimos anos enterrámos cinco cidadãos cabo-verdianos mortos na Guiné-Bissau. Pensamos que se trataram de casos isolados”, diz Simão Moreira, embora lamente que a polícia guineense nunca ter conseguido explicar as causas das mortes.
Fonte: Lusa
 

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