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Opinião

Eugénio Duarte Spínola Loff – Um nonagenário de espírito forte cuja história é marcada por muitas aventuras…

“Eugénio di Nha Nita” como é popularmente conhecido no Tarrafal, nasceu em Chã de Capela, arredores da Vila (hoje Cidade de Mangui), a 7 de Julho de 1928.
O primogénito de um humilde casal, oriundo do interior do Tarrafal, de seus nomes: José Honorato Loff e de Fausta Duarte Spínola.
Dos cinco irmãos, um rapaz e quatro raparigas, apenas uma das quatro se encontra ainda viva, encontrando-se radicada em Portugal há vários anos.
As outras três raparigas faleceram de tenra idade, no Hospital da Praia. No tocante ao único irmão já citado, faleceu em Portugal, há já alguns anos, já com família constituída.

Primeiras provações: a morte do pai
Aos dez anos de idade, Eugénio perde o pai e, em consequência disto, vai trabalhar para casa de “Xin Pulísia” onde era, efectivamente, Polícia na então Colónia Penal do Tarrafal. Ali ganhava “qualquer coisa” que dava para ajudar a mãe a cuidar dos outros irmãos. Não demorou lá por muito tempo. Posteriormente, foi trabalhar para a casa de um português, onde o salário era melhor e o trabalho um pouco mais adequado à sua idade.

Contrato para São Tomé e Príncipe
Perante as dificuldades da terra, Eugénio embarca com a mãe para o Sul, em companhia de outros irmãos. Instalados na Roça Rosema, a mãe se entrega ao trabalho. Findo o contrato de três anos, regressam a Cabo Verde.

Retorno ao Sul
Entretanto, as crises cíclicas e as dificuldades de toda a ordem forçaram a mãe a se arriscar, de novo, para as ilhas de São Tomé e Príncipe. Desta feita, parte apenas com dois filhos. Os outros três tinham já falecido no Hospital da Praia. Com a partida da mãe para o Sul, Eugénio, já órfão do pai, na casa dos seus 13 anos de idade, fica ao cuidado da Tia “Mana Loff”, em Ganxemba.
Eugénio ainda se lembra de um episódio do seu percurso da Praia à então Vila do Tarrafal, tudo a “buts”.
“Dipoz ki N kunpanha nha mãi pa Praia pa inbarka, di la, como karu era poku, N rizolvi ben pa Tarrafal, pe na txon. N leba três dia pan txiga Tarrafal. Ta noti, N ta durmi na un kaza; ôtu dia, Nta durmi na kelotu ; asin pur dianti, ti ki N txiga Ganxemba”, conta.
Uma verdadeira história de coragem e sacrifício. Entretanto, a mãe veio a falecer em São Tomé, antes do fim do seu contrato.

Vida militar
Bem, a vida militar de Eugénio Loff não passou de uma miragem. Ele próprio nos relata o facto, no seu peculiar estilo: “Bom, ami N listadu pa tropa, N pasaoito dia na Kuartel di Praia ta trena tudu dia, djuntu ku kezotus kolegas, ta kumi ta bebi. Dipôz nu mandadu tudu pa kaza. Guentis kre ka tinha kumida pa nôz”, ironiza, assim, o facto.

Aventura em Angola
Estávamos em 1953, Eugénio na casa dos 25 anos, ainda bem jovem. Sem compromisso resolve aventurar-se para as terras de Angola.
Estando, então, na Praia, viu à pouca distância, descendo do carro, uma mulher com uma criança ao colo. Logo pressentiu que através dessa mulher alguma coisa ia mudar na sua vida.
O destino teria já traçado o plano dos dois. Mas, ele mais que ninguém, traça-nos, a seu modo, uma breve resenha dessa novela. Aliás, um verdaeiro romance fora do seu torrão-natal, que viria ter um final feliz:
“Mi na Praia, N odja un rapariga kun mininu na brasu, ta dixi di karu”, começa a desfilar o seu rosário.
E ajunta: “Kel minina djan tinha el na odju, diazá. N ba pa el, N purguntal si el tanbe e sta ba pa Angola. É flan sin. N flal, ma nu ta bai djuntu. Nu bai sina kontratu, nu inbarka na mesmu barku. Nu txiga Angola, nu fla ma nos e kazadu. Nu dadu nos kuartu di kazadu. Bom, a partir di la, nu fazi nôs vida djuntu, te data di oxi”, revela, enfatizando o facto: “É kel mudjer ki sta li na nha ladu!”.
Mas, vamos reservar esta apaixonante estória para mais à frente.
Por agora, concentremo-nos sobre a lida dos dois em Angola. Instalados pois, em Catumbela, aí labutam juntos até ao fim do contrato.
Em Catumbela nasceram-lhes quatro filhos: a primeira foi uma rapariga, que morreu, infelizmente, pouco tempo depois. O segundo foi um rapaz, que ainda vive com os dois, sob o mesmo teto. No terceiro veio uma rapariga, que se encontra, hoje, casada, vivendo nos Estados Unidos da América, há largos anos. No quarto parto veio, também, uma rapariga, que viria falecer, com o desembarque dos pais em Cabo Verde, com apenas sete dias.

Simplicidade
“Eugénio di Nha Nita” é um homem simples, alegre, bem-humorado e, apesar do seu avançado estado de idade, ainda se mantém lúcido, bem orientado no tempo e no espaço. Ora, normalmente quem experimentou a vida de emigração tem sempre histórias a contar.
“Nhu Eugénio” não foge à regra. Tem, realmente, registado muitas, mas, dado à idade e outras circunstâncias da vida, muitas delas já lhe fugiram da memória.
Na plantação da cana-sacarina, onde trabalhara em companhia de seus conterrâneos, registou uma que ainda mantém na cachimónia, que já vamos relatar.
Segundo ele, as mulheres trabalhavam lado-a-lado com os homens nessa tarefa. As que se encontravam grávidas, beneficiavam de meia empreitada e, dessa “sorte”, não gozavam as que não se encontravam nesse estado.
Gerou-se, então, à volta disto, uma certa “revolta” entre estas últimas, uma espécie de ciúme para com as que foram “beneficiadas”, levando as mesmas a se atirarem, sem pudor, aos seus maridos.
“Nhu Eugénio” que testemunhou a cena, conta como que as mulheres de “barrigas lisas” confessavam: “Xatisa di nha maridu! É ka sta pon prenha, pan trabadja só meia empreitada”.
O trabalho, se calhar, era duro. Com isso, o coitadinho dos homens chegavam à casa exaustos e, quem pagava o preço da canseira, eram as pobres companheiras.
É a sina de um crioulo!
“Nhu Eugénio” garante que para ele a bateria não estava apontada. Que mesmo que estivesse, sairia incólume da situação, porque a sua companheira foi, graças a Deus, sempre “abençoada” com “meia empreitada”.

Casamento
A novela iniciada na Praia, na altura do embarque, viria a entrar numa das páginas mais importantes de toda a trajectória da vida de Eugénio Loff.
O enlace aconteceu, efectivmentente, na Igreja Paroquial de Catumbela, em Angola.
Dois dos seus primeiros filhos foram baptizados no mesmo dia do casamento. “Nhu Eugénio” não recorda a data do enlace, mas, pelos cálculos, tanto dele como da esposa, andavam na casa dos 30 anos.

Regresso a Cabo Verde
Depois de dez anos de permanência em Angola, “Nhu Eugénio” e família regressam à terra-natal.
Em Cabo Verde viria a falecer a última filha, nascida ainda em Catumbela, isto é, poucos dias depois do desembarque, após sete dias.
Os últimos três rebentos: uma rapariga e dois rapazes nasceram, pois, em Cabo Verde, estando hoje todos com a vida organizada.

Vida no Tarrafal
Estávamos na década de 60. “Nhu Eugénio” como homem determinado que é e habituado às intempéries da vida, ainda rijo e valente, vai trabalhar como ajudante no carro de Zebedeu Macedo, para sustentar a família.
Posteriormente trabalha na apanha de areia e pedras, para arranjo da canalização de água da Ribeira da Prata à (então) Vila do Tarrafal.

Emigração para Portugal
Depois de tantas lides em Cabo Verde, “Spínola Loff” lança, de novo, em aventuras por além-fronteiras. Assim, em 1971, na idade de 43 anos parte para Portugal, à procura de um novo horizonte. Homem maduro e experiente, facilmente, se integra na sociedade lisboeta. Como na vida nem tudo são rosas, a única recordação amarga que guarda na memória, se refere ao seu 2º filho que caíra de um prédio de 7º andar e tendo sobrevindo graças ao socorro imediato que lhe fora assistido mas, as sequelas do acidente ainda permanecem.

Retorno definitivo a Cabo Verde
Nos meados dos anos 90 Nhu Eugénio regressa definitivamente à terra-mãe já reformado juntando-se à sua família desfrutando dos seus longos e sacrificados anos de luta. Rebentos: 7 filhos dois dos quais falecidos. Vários netos e alguns bisnetos. Terminamos assim este trabalho formulando votos de muita saúde ao amável casal: Nhu Eugénio e Nha Nita.

Tarrafal, 11 de Março de 2019

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