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Opinião

Interesse pela Chuva Artificial – pró e contra (Fim)

Por: João Pires*

À medida que as mudanças climáticas vão causando condições mais quentes e secas em mais partes do mundo, a consequente insegurança hídrica, acoplada a conflitos ou não, continuará a causar mobilidade populacional. No cenário doméstico de insegurança hídrica atual os governantes atarefam-se na busca de soluções para o abastecimento de água às suas populações e terras agrícolas e para a mobilidade interna da população. Por outro lado, o cenário de suficiente disponibilidade e acesso à água em tempo de “boas águas” é uma válvula de escape da pressão social e da pressão sobre o Tesouro.

O interesse pela chuva artificial na nossa sub-região surge com a insegurança hídrica vivida aquando da seca de 1968-1974 no Sahel. Relembremos que o uso comercial da tecnologia SN de mobilização de água na sub-região estimulou o Comité Inter-estados de Luta contra a Seca no Sahel – CILSS – a ponderar a expansão da tecnologia a todos os membros da organização. Há globalmente perto de 150 países que conduzem programas de SN. A maioria das pesquisas estima que, em média, pode-se obter um aumento de precipitação de cerca de 10%; com algumas tempestades pode-se obter 25%; e com outras tempestades pode-se receber 0%. A China é o maior usuário de SN do mundo. Ela conduz SN em 22 das suas 23 províncias. Em 2008 a técnica ganha notoriedade mundial após ser usada por ocasião dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Jeff Tilley, diretor de modificação climática do Instituto de Pesquisa do Deserto, em Reno, afirmou em 2016 que novas tecnologias e pesquisas produziram resultados confiáveis, tornando a SN uma prática de abastecimento de água confiável e acessível para muitas regiões.

A chuva artificial tem sido controversa e tem uma reputação tão duvidosa quanto o clima. Dúvidas quanto à sua eficácia e impacto derivadas da interferência com a natureza surgiram. Assim como é difícil prever o tempo, é difícil saber realmente se a chuva caída foi provocada ou não. Um estudo de 2010 da Universidade de Tel Aviv afirma que a prática comum de SN para melhorar precipitações parece ter pouco ou nenhum impacto.

A preocupação de que a SN possa “roubar” a água de uma área pela qual uma nuvem viaja foi dissipada. As nuvens de tempestade se regeneram continuamente e liberam apenas uma parte de sua humidade quando chove, o que significa que você não pode “arrancar” toda a humidade de uma nuvem… disse Dave Reynolds, um meteorologista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA. Algumas pessoas defendem que o sucesso dos esforços de SN só pode ser alcançado a longo prazo. Outras defendem a crença de que os governos manipulam o clima para controlar várias condições, incluindo aquecimento global, populações, testes de armas militares, saúde pública e inundações.

Os problemas cruciais do foro legal (doméstico), de autoridade, de responsabilidade; do foro ético e ecológico que a perspetiva de chuva artificial levanta poderão ser resolvidos com maior celeridade havendo essa vontade política. Relembremos que nenhum desses problemas impediu que os militares de alguns países desenvolvessem o uso de bombardeamento de nuvens como arma.

A SN tem fortes apoios mas permanece controversa. Diz Dan Breed, cientista do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica: “A questão é: a que custo?”

Há razões para não buscarmos nas nuvens a água de que tanto precisamos?!

Custos e benefícios

O custo da SN é bastante alto. Mas não é desencorajador face aos potenciais benefícios. Nada fazer face à insegurança hídrica não é opção de vida.

A China investe 60 a 90 milhões de dólares dos EUA por ano com a modificação do tempo, além dos $266 milhões gastos de 1995 a 2003 [fonte: “Things Asian”] e o governo central planeja produzir 50 biliões de metros cúbicos de chuva por ano por meio da prática [fonte: Aiyar]. Na Alemanha, relatórios de uma agência de seguros locais sugerem que as atividades de semeadura de nuvens na área de Stuttgart evitaram cerca de 5 milhões de euros em danos em 2015, enquanto a manutenção anual do projeto é de apenas 325.000 euros.

A Weather Modification, uma empresa de Dakota do Norte, EUA cobra $500.000 a $20 milhões por uma operação de semeadura. Em San Ângelo, Texas, a semeadura de mais de 2,9 milhões de hectares custou 411.000 dólares. Nos Emirados Árabe Unidos as várias missões aéreas de SN, efetuadas em 2015, custaram 3.000 dólares por operação.

O Estado da Bahia – Brasil – tem uma experiência de semeadura aparentemente bem-sucedida durante o histórico período de seca que ocorreu na região em 2012. O custo do experimento foi de cerca de 200.000 Reais. As chuvas proporcionaram boas condições de água no solo e rendimentos satisfatórios de abacaxi na região de Itaberaba naquele ano. O governo da Bahia não prosseguiu com o projeto argumentando que o preço, 6 milhões de Reais por ano é insuportável.

*Agrónomo de formação; reformado.

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