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Opinião

Dobrar a língua e desdobrá-la – A excelência de um trabalho pioneiro

Por: Dulce Pereira

Quando o José Luiz Tavares me propôs que apresentasse um livro de sonetos de Camões traduzidos para crioulo cabo-verdiano, fiquei intrigada e curiosa.

Não se tratava da tradução de poemas de verso livre, mas de sonetos, com regras estritas de métrica, rima e acentuação rítmica. (Tipo de composição que o próprio José Luiz experimentou, mas em português, no  seu livro Desarmonia e em parte do livro Cidade do Mais Antigo Nome, e que bem dominava).

Não se tratava de um português atual, nem sequer moderno, mas sim de um português clássico, do século XVI, em fase de consolidação, sustentado por um vocabulário erudito, tantas vezes criado pelo próprio Camões, sobre o modelo do Latim. Um português escrito, literalmente a língua de Camões, de uma época em que o crioulo ainda havia pouco se formara, como resultado do contacto entre diferentes línguas africanas e o português vernáculo, oral, multidia

letal, e ainda marcado por arcaismos. Um crioulo de que só temos registo escrito e experiências literárias a partir do século XIX, três séculos depois da escrita de Camões.

E, mais do que isso, não se tratava de um soneto ou dois, mas de sessenta e cinco! Apeteceu-me glosar o próprio Camões, num dos seus sonetos:

Qual língua pode haver tão atrevida,

 

Que tenha de louvar-te atrevimento,

Pois a parte melhor do entendimento,

No menos que em ti há se vê perdida?

De Camões, para crioulo, só conhecia as Estâncias VIII e IX, d’ Os Lusíadas, sobre a chegada às Ilhas de Cabo-Verde, traduzidas em 1898 pelo Cónego Costa Teixeira, na variante de Santo Antão, e, cinco anos antes (em 1893) a tradução do poema Endechas a Bárbara Escrava, por Eugénio Tavares, não por acaso considerado por Corsino Fortes como o Camões cabo-verdiano:

Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva.

 

Quêl bonita scrába,

Qui teném câtibo,

Pamô n’ dál nha bida,

Cá crê pan stâ bibo.

Nessa altura, o Cónego Teixeira e Eugénio Tavares recorreram ao alfabeto e às convenções gráficas da língua em que tinham sido alfabetizados, o português, para representar, de modo ad hoc e o mais aproximadamente possível, a forma fónica das expressões crioulas.

Eram duas manifestações claras de valorização da língua materna crioula, percursoras do movimento de afirmação da cabo-verdianidade, na literatura, que havia de desembocar no movimento dos claridosos do início do século seguinte.

Mas eram dois casos apenas, e há mais de um século… Razões haveria para tão pouco atrevimento. E havia.

Primeiro que tudo, o crioulo é uma língua de tradição predominantemente oral.

Ao contrário do que alguns, até académicos, ainda pensam (sei-o pela experiência de luta de uma vida em favor da verdade linguística), o crioulo não é um dialeto do português, nem um falar sem regras, nem uma língua gramaticalmente pobre que não se pode ensinar. É uma língua, simplesmente. Uma língua natural, adquirida  como tal, capaz, como todas as outras, de representar o mundo (real ou imaginado), de expressar o pensamento e de o fazer chegar à mente de outros falantes.

Por razões históricas, no entanto, de contacto e dominação social e linguística, foi-lhe abusivamente negado, durante muito tempo, o seu real estatuto e, com isso, o direito ao desenvolvimento (sustentado pela reflexão, pela aprendizagem e ensino formal, pelo acesso a modelos e pela prática) de variedades escritas: uma espécie de segunda língua, dentro da língua materna, com uma gramática textual e um léxico referencial e gramatical próprios. Pois escrever não é o mero transcrever do discurso oral. E escrever em crioulo não é pura e simplesmente transferir para a língua cabo-verdiana o vocabulário e os modelos de escrita da língua portuguesa aprendidos na escola ou no contacto com a literatura portuguesa, mesmo com um alfabeto e regras gráficas próprias, o  alfabeto cabo-verdiano, que o crioulo entretanto já tem, oficializado por decreto, desde 16 de Março de 2009, e que José Luiz Tavares adota na sua escrita.

Sendo o léxico do cabo-verdiano, na sua maioria, de origem portuguesa e o português, ainda hoje, a língua privilegiada de importação lexical, mais fácil é ceder a essa transferência direta, sobretudo num contexto de tradução em que as duas línguas são postas face a face.

Como lidar com o vocabulário camoniano, a que falta equivalente direto em crioulo, sem cair no decalque e na simples adaptação? Como traduzir lustro (cinco anos), ditoso, ousar, celeste, derradeiro, brandura, fera (feroz),em vão?

Fácil é passar de perpetuamente para perpetuamenti, de composição para konpozison, de celeste para selesti, de brandura para brandura, de em vão para en von, mas já não tão fácil (e por isso mais poética, naquilo que a poiesis implica de trabalho, de elaboração), será a escolha, por exemplo, de stara para espalha,  de titxi  para fera (feroz), de kusturi para ousar, de sortiadu para ditoso.

Como acompanhar a estrutura tantas vezes torturada da sintaxe de Camões, em nome da rima ou da métrica, em versos como estes,

Mas como causar pode o seu favor

Nos corações humanos amizade,

(na ordem direta, Mas como pode o seu favor causar amizade nos corações humanos),

numa língua como o crioulo em que a escassez (digo escassez, não pobreza) de flexões, nomeadamente de número e de pessoa, nos verbos, exige a presença de um sujeito e inibe a subversão da ordem básica das palavras, sob pena de se perderem as relações entre elas?

Mas modi ki na kurason umanu

ael el pode pruvoka amizadi

Perplexidades que me aguçaram o desejo de ter em mãos o livro de José Luiz Tavares e de perguntar, como ele, no título, a partir de um dos versos de Camões, ku ki vos? 

Com que voz chorarei meu triste fado,

Que em tão dura prisão me sepultou,

Ku ki vos n al txora nha tristi fadu,

ki na prizon sen pena el ntera-m,

Com que voz teria ele dado o salto criativo entre as duas línguas em confronto, aparentemente tão próximas, mas afinal tão distantes, tanto que exigem tradução?  Distantes também no tempo e na história de construção da escrita?  Com que voz?

E, logo na introdução, depois de um enquadramento, em cabo-verdiano e em português, sobre a época, a vida e a obra de Camões, uma primeira resposta. Ele, que nasceu no Tarrafal, terra de batukaderas famadu, como Nha Bibinha Kabral, e que aí viveu com a avó, analfabeta, no seio do crioulo mais fundo, até aos 14 anos, ele para quem a língua materna escrita foi o português e para quem o português clássico não trazia segredos, teve de inventar uma terceira língua.

Nas suas próprias palavras, procura trazer os sonetos para a sua língua materna, e cito, transfundindo o sangue numa inventada terceira língua.

Livre (por opção, e por fidelidade à prosódia crioula), da métrica e do ritmo de origem, embora não da rima, José Luiz Tavares joga, em crioulo cabo-verdiano, na alternância e no compromisso entre a distância e  a dependência ou a adaptação direta do vocabulário, da sintaxe e até do estilo dos sonetos em português.

Eis alguns exemplos, em que se observa um progressivo afastamento do modelo: 

1.

Um mover de olhos brando e piedoso,

Sem ver de quê; um riso brando e honesto,

Quase forçado; um doce e humilde gesto,

De qualquer alegria duvidoso;

 

Un mexe odju, brandu i piadozu,

sen razon; un ri brandu i onestu,

kuazi forsadu; un dosi i umildi jestu,

di kualker alegria duvidozu;

 

2.

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no Céu eternamente,

E viva eu cá na terra sempre triste.

 

Alma dimeu jentil, ki bu parti

ton sedu des bida diskontenti,

ripoza la na séu iternamenti,

i mi li na téra senpri tristi ta kati-kati

 

3.

O rouco som do mar, a estranha terra,

O esconder do sol pelos outeiros,

O recolher dos gados derradeiros,

Das nuvens pelo ar a branda guerra;

 

Kel son roku di mar, kel téra stranhu,

kel kanbar di sol la kelotu ladu,

kel rakodje limárias más atrazadu,

di nubris na ar kel géra sen lanhu;

 

4.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;

Move-se brandamente o arvoredo;

Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita

 

Ningen ka ta kudi-l; la lonji mar ta bran-bran;

arvi tudu ta mexe, sen kebra susegu;

bentu ta leba-l vos ki el ta bota na bentu.

 

Ku ki vós?, pois.

Uma voz em que uma das certezas é a incerteza   e daí a pergunta , própria de um trabalho pioneiro.

Surpreendentemente, mas por isso mesmo, José Luiz Tavares oferece ao leitor, numa secção final, para muitos dos sonetos, uma série de variantes, sete em alguns deles, que foi construindo até à versão preferida, adotada no corpo principal do livro, sempre a par do original português, para facilitar o confronto.

É o caso dos dois versos seguintes, em que se realçam as variantes:

Ku ki vos n al txora nha tristi fadu,

ki na prizon sen pena el ntera-m

 

Ku ki vos n al txora nha tristi fadu,

ki na prizon ton duru el ntera-m

 

Ku ki vos n al txora nha tristi fadu,

ki na prizon di pena el ntera-m

 

Ku ki vos n al txora nha distinu tristi,

ki na prizon di sufrimentu el ntera-m

 

Ku ki vos n al txora nha tristi distinu,

ki na prizon di pena el ntera-m

 

Ku ki vos n al txora nha tristi distinu,

ki na prizon di pena el ntera-m

Neste árduo empreendimento, que iniciou em 2005, foi preciso dobrar a língua e, dobrando-a, desdobrá-la, dar-lhe diferentes formas e opções, e abrir assim caminho à reflexão dos leitores e de outros poetas cabo-verdianos apostados no mesmo desafio: a laboriosa arte de tecer a escrita poética, em verso, mas também em prosa.

E a tradução, que ao mesmo tempo aproxima e afasta as línguas em confronto, tal como nesta edição propositadamente bilingue, é um lugar privilegiado, José Luiz Tavares percebeu-o, para, aproveitando o modelo, ir cortando o cordão umbilical e deixar a língua nascer de vez. (Assim aconteceu nos últimos séculos, com as variantes mais fundas do crioulo oral e da tradição poética popular, outro modelo a escutar na construção da escrita) .

Deixar a língua nascer, ou renascer: também Camões se apoiou no Latim para a renovação da língua portuguesa.

Nalguns passos terei traído miseravelmente Camões  diz José Luiz Tavares, mas a língua cabo-verdiana terá ganho […].

Não só. Também a portuguesa, em Cabo Verde. Essa a bondade do bilinguismo.

Deixem-me citar João de Barros, contemporâneo de Camões, no seu Diálogo em louvor da nossa linguagem (1540), pela boca de seu filho António:

“se eu não soubera da gramática portuguesa o que me vossa mercê ensinou, parece-me que em quatro anos soubera da latina pouco e dela muito menos. Mas com saber a portuguesa fiquei alumiado em ambas”.

Afinal, a história repete-se, não se repetindo.  E José Luiz Tavares faz parte dela.

Há sempre um tempo que é preciso assumir sem medo.

 

Outubro de 2019

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