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Covid-19

A COVID-19 parou o mundo. E deu um knock-out no sector do turismo!

Por: Dália Gomes*

Acabo de participar de uma interessante conversa virtual organizada pelo movimento Eco-Feminismo Cabo Verde sobre os impactos da Covid-19 no Turismo. Ficou claramente patente que os próximos tempos serão de muita luta!

Sem uma vacina para o novo coronavírus e com poucas opções de tratamento da doença, diversos países foram obrigados a encerrar as suas fronteiras e a implementar medidas restritivas de viagens, distanciamento social, e confinamento – autênticos golpes para o turismo internacional.

O Turismo é movimento e essa paragem forçada levou a que as companhias aéreas deixassem de voar, hotéis e restaurantes fechassem as portas, e diversos eventos internacionais fossem adiados/cancelados – tudo num tempo record! Essa paragem abrupta trará, sem dúvidas, graves impactos socio – económicos negativos em diversos destinos turísticos. Os dados da UNWTO relatam uma queda de 22% relativo às chegadas internacionais neste primeiro trimestre e uma perda de 80 bilhões de dólares em receitas internacionais de turismo. A WTTC, por seu turno, estima que cerca de 75 milhões de postos de trabalho na indústria de viagens e turismo a nível mundial ficarão em risco.
Estas estimativas devem ser vistas com grande inquietação, pois este sector contribui com 10% do PIB mundial e é responsável pela geração de 1 em cada 4 novos empregos no mundo (WTTC) – pelo que uma crise no turismo terá efeito cascata na economia mundial. Ademais, o turismo é um dos principais criadores de empregos (mesmo que temporários) para os segmentos vulneráveis ​​da população como mulheres e estudantes, e é o recurso para muitos trabalhadores do sector informal. Se acrescentarmos o facto de que cerca de 80% das empresas do turismo a nível mundial são pequenas e médias empresas, pode-se antever momentos muito difíceis, pois provavelmente essas pessoas não estão cobertas por regimes de segurança social, nem têm acesso a capital necessário para salvar os seus negócios.

Efectivamente o turismo internacional atravessa uma tempestade – mas vale ressaltar que nem todos os destinos estão no mesmo barco– alguns terão mais estragos, nomeadamente os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento com forte dependência no turismo, como é o caso de Cabo Verde (onde o sector contribui para mais de 25% do PIB). Segundo os dados do INE, os estabelecimentos hoteleiros receberam cerca de 819 mil hóspedes no ano passado e empregaram 9.050 pessoas. De acordo com a previsão do Governo, a procura turística poderá descer em 60% devido à pandemia da Covid-19, provocando uma contracção de 5,5% na economia Cabo-verdiana em 2020.

Entretanto, ainda é prematuro prever a magnitude da recessão que o país atravessará. A recuperação vai depender de muitos factores, nomeadamente do controle da pandemia a nível mundial e nacional, da duração das restrições de viagens, da possibilidade de uma segunda onda do novo coronavírus no inverno, da situação económica dos mercados emissores, da resiliência das empresas de turismo, e da capacidade de Cabo Verde não só de implementar medidas de prevenção da Covid-19, como de comunica-las aos fiéis/novos visitantes (segurança e confiança!).

Segundo alguns especialistas, a recuperação do turismo a nível mundial será gradual e acontecerá em três fases: a primeira com a retoma do turismo doméstico no verão, a segunda fase com um aumento de viagens regionais (por exemplo dentro do espaço Schengen), e por último a retoma das viagens internacionais – talvez em 2021, conforme a situação mundial da pandemia permitir. Entretanto, o sector é conhecido por ser bastante resiliente e, um pouco por todo o mundo, os gestores dos destinos, as empresas privadas e as associações do tradejá estão a desenhar medidas (algumas temporárias) para acelerar a retoma do sector.

O reforço da segurança sanitária, a limitação de utentes, protocolos de limpeza e higienização, certificações sanitárias, políticas de cancelamento flexíveis, novas tecnologias de atendimento virtual, massificação de testes rápidos, marketing de charme, apoios fiscais às empresas turísticas, e incentivos ao consumo local, são alguns exemplos dessas medidas.

É bem provável que Cabo Verde seja mais lento na retoma do turismo internacional…mas isso pode ser transformado numa oportunidade. Por exemplo, enquanto aguardamos a recuperação dos nossos tradicionais mercados emissores, poderemos usar este tempo para repensar e reinventar a nossa oferta turística: mudar o foco do crescimento“tout court”para a diversificação, inclusão, e sustentabilidade. Ou seja, enquanto destino receptor devemos aproveitar a pausa para intensificar a partilha de informações e criar sinergias para resolver aquilo que está sob o nosso controlo.

Que mudanças de engenharia e procedimentos de segurança sanitária Cabo Verde precisa implementar para ganhar confiança dos visitantes? Quem realmente nos interessa atrair e receber? Como poderemos maximizar os efeitos multiplicadores do turismo nas comunidades das diferentes ilhas? Quais são os gargalos na cadeia de valor do nosso turismo? Quais são as áreas prioritárias de capacitação para os nossos prestadores de serviço? Como colocar as TICs ao serviço do turismo? Essas são apenas algumas questões que devem ser respondidas para que possamos assegurar a “sustentagilidade” do nosso turismo no pós Covid-19.

Já agora, numa altura em que os nossos principais países emissores de turistas estão focados na sua própria recuperação e promoção da economia local, deveríamos implementar mecanismos de incentivo e facilitação de viagens inter-ilhas e estadias em hotéis do país, de forma a permitir que os nossos residentes possam praticar o turismo doméstico (“staycation”). Ademais, na minha opinião, este será o momento ideal para se recorrer à nossa “11ª ilha” como ponto de partida para o turismo internacional. Ninguém mais do que a nossa diáspora quererá visitar urgentemente o país, se arriscando “só” para poder ver os ente queridos e respirar o ar da sua terra natal – principalmente aqueles que estão na faixa etária dos 60-80 anos que provavelmente não tenham sido impactados pelo desemprego (recebem pensões seguras).

Sem sombra de dúvidas que a Covid-19 deu um knock-out no sector do turismo… mas que ela fique ciente que Cabo Verde é uma “Nação Fénix”, e das cinzas levantaremos para vencer o combate!

*Técnica de Turismo

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