PUB

Diáspora

Ensino Superior: A des(ilusão) de estudar fora do país

Quando o assunto é estudar fora de Cabo Verde, muito se fala das enormes vantagens acadêmicas e, principalmente, profissionais. No entanto, estudar no exterior vai muito além de competências técnicas e educacionais, há também uma série de desafios que os estudantes enfrentam. Em conversa com alguns alunos, o A NAÇÃO online mostra-lhe o que pode estar por detrás dessa des(ilusão) de estudar fora do país.

A experiência de estudar no exterior vislumbra, cada vez mais, os estudantes cabo-verdianos. Além dos benefícios acadêmicos e profissionais, a experiência também exige desenvolver outras habilidades pessoais.

Conforme constatado, durante esta reportagem, muitas vezes, a desilusão se encontra no sistema de ensino do país acolhedor, que não se ajusta com o sistema do país de origem, neste caso Cabo Verde. A este, acrescem outros factores, económicos, sociais e emocionais, que contribuem para que muitos optem por desistir do curso.

“Nem sempre as coisas vão como planeado. Temos tanto que aguentar e ao mesmo tempo ser forte, é cansativo”, quem o diz é a Athina Freire, uma cabo-verdiana recém-licenciada em Química Industrial, pela Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, em Portugal.

Também Sheila Correia, estudante de Medicina na Jinan University, na China, alega que estudar fora não foi o que estava à espera e ainda revela ser muito “frustrante e difícil” conseguir acompanhar as aulas em chinês. Esta jovem cabo-verdiana confessa que se sentia como um “peixe fora de água”, acabando por abandonar o curso.

“Eu não queria simplesmente ter um

diploma, eu queria ser uma excelente profissional na área da Saúde em Cabo Verde e, quando desisti, e voltei para o meu país, fiquei muito feliz e senti-me livre”, conta.

Depois de ter desistido do curso e ter voltado para Cabo Verde, Sheila Correia, diz agora estar a estudar Enfermagem em uma das universidades da capital.

“Agora sinto-me uma aluna ativa e participava. Quero continuar com o curso de Enfermagem e quando terminar a licenciatura quero fazer o mestrado nessa área”, perspectiva.

A integração

Estudar fora do país implica enfrentar novos idiomas, culturas e um ambiente completamente diferente da habitual zona de conforto, além do desafio de se ter que interagir com pessoas de toda parte do mundo, principalmente nas universidades internacionais.

A cabo-verdiana, Ândrea Frederico, que escolheu fazer o curso de Engenharia Naval, no Brasil, na Universidade Federal de Santa Catarina, afirma que a sua integração foi “difícil” por estar longe dos familiares, num país de cultura “diferente” e também devido ao facto de ser a única de origem cabo-verdiana na sua cidade. No entanto, realça que apesar de ter pensado em desistir acabou por abraçar as “adversidades”.

Já Athina Freire, a estudante da UBI, actualmente a fazer Mestrado admite que a sua adaptação foi muito boa, até porque esta Universidade tem uma grande tradição em acolher estudantes cabo-verdianos. Porém, apesar da ajuda das colegas, ficar longe da família e ter que estar “sozinha” ainda é uma das maiores dificuldades. 

Sheila Correia, a estudante que abandonou o curso na China, recorda que em termos de integração não foi tão difícil adaptar-se à nova cultura, mas sim a língua, que acabou por ser a sua maior dificuldade.

“Nós aprendemos 1 ano de língua chinesa, mas mesmo assim não é o suficiente para assistir às aulas, na sala de aula não entendia quase nada”, recorda a estudante.

Conselhos

As jovens ouvidas pelo A NAÇÃO online garantem que escolher estudar fora do país inclui ter autoconfiança e independência para melhor se adaptar às diversidades e adversidade e muita consciência de que a decisão parte de nós próprios.

Ândrea Frederico aconselha precisamente a não se sair do país por influências dos pais ou amigos, mas sim porque é aquilo que nós próprios queremos.

“É muito importante ter foco nos estudos e ser bem dedicado, porque a adaptação pode não ser bem fácil para alguns”.

Por sua vez, Athina Freire admite ser um desafio muito difícil ir para um país desconhecido, mas por outro lado realça o lado positivo, a independência.

“O meu conselho é para aproveitares cada momento mas nunca esqueças o principal objetivo que te trouxe aqui, então concentra nos estudos e sinta-se realizado. Mereces!!!!!”.

Sheila Correia, a jovem que abandonou o curso na China, aconselha a todos os que querem estudar fora de Cabo Verde a se informarem sobre o país, e a língua, sendo que esta última dificulta bastante a aprendizagem, como é o caso do mandarim.

Brasil, Portugal, China e Macau – os destinos mais procurados

Segundo o diretor geral do ensino superior, Aquilino Varela, existem, actualmente, cerca de 6.032 estudantes cabo-verdianos activos no ensino superior no exterior, em vários países. Mas nem todos abrem as portas para estudantes estrangeiros.

Varela explica que dos países que disponibilizam vagas, os mais procurados pelos estudantes cabo-verdianos são: Portugal, Brasil, China e Macau.

Relativamente ao acesso ao ensino superior fora do país, esse responsável garante que “é feito mediante a disponibilidade de vagas/bolsas que são colocadas ao serviço de Cabo Verde através dos parceiros de desenvolvimento. Cabo Verde quando recebe, pela via diplomática, a comunicação das vagas/bolsas, lança um edital e seleciona os melhores candidatos”, conclui.

PUB

PUB

PUB

To Top