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Política

Escolha do presidente da AN agudiza disputa entre veiguistas e ex-militantes do PCD

A indicação de Austelino Correia para o cargo de presidente da Assembleia Nacional (PAN) não foi nada pacífica e pode abrir mais uma ferida no seio do MpD. A rebeldia do novo PAN, apoiado pelo grupo parlamentar do PAICV, deixa exposta uma vez mais a liderança amorfa de Ulisses Correia e Silva.

Neste processo que culminou com a escolha de Austelino Correia para o cargo de presidente da Assembleia Nacional, quando Jorge Santos já tinha sido indicado pela Direcção Nacional do MpD para a sua reeleição, vem pôr a nu, uma vez mais, a disputa latente entre os veiguistas e os antigos dissidentes
que militavam no PCD, partido de Eurico Monteiro e Jorge Carlos Fonseca.

Segundo uma fonte bem posicionada, tanto Ulisses, como Fernando Elísio Freire, têm tido uma posição “dúbia” em relação aos “regressados” do PCD, que, na “surdina” tentam tomar conta do partido. É supostamente o caso de Jorge Santos, de quem Elísio Freire é cunhado.

Com a derrota de Óscar Santos, na Praia, nas últimas eleições autárquicas e com a saída de cena de Jorge Carlos Fonseca, em Outubro próximo, o PCD, que “quer estar no centro do poder”, contava manter Jorge Santos como presidente da AN, e, assim poder ter pelo menos um “peão” na esfera de influenciação política.

Tudo indicava que o deputado cabeça de lista por Santo Antão renovaria o seu mandato como PAN, tendo em conta a sua indicação pelo Direcção Nacional do MpD e do facto desse partido contar com uma maioria absoluta no Parlamento. Sabendo disso, Austelino Correia nem sequer compareceu à reunião, preferindo jogar o que tinha para jogar fora desse fórum.

Como tínhamos avançado na edição anterior, o PAICV não apoiaria uma candidatura de Jorge Santos, como se veio a confirmar na primeira reunião da X Legislatura do Grupo Parlamentar desse partido, que assumiu claramente o apoio a Austelino Correia, que foi vice-presidente na anterior legislatura.

Sem o apoio do PAICV e na iminência de ser chumbado com os votos contra dos deputados do MpD afectos a Austelino Correia, Jorge Santos não teve outra alternativa e acabou por desistir da corrida ao segundo mandato como PAN.

Por outro lado, Austelino Correia, empurrado pela ala veiguista, sempre se manteve firme, desde o momento que aventou a possibilidade de Janine Lélis ser a candidata oficial do MpD para o PAN. Com a desistência de Janine e com a repescagem de Jorge Santos, o cabeça de lista do MpD por Santiago Norte arregimentou as suas tropas, principalmente os deputados eleitos por Santiago Norte e parte do Sul, e fez frente à superestrutura do partido, fazendo vincar a sua ambição de ser a segunda figura na hierarquia do Estado.

No contar das espingardas o grupo contava com pelo menos oito deputados decididos a votar contra o candidato indicado pela Direcção Nacional, Jorge Santos, caso o seu nome fosse levado à plenária.

Mesmo com a retirada de Jorge Santos, Austelino Correia foi submetido a voto no seio da bancada do MpD. Dos 38 deputados, 23 votaram a favor do cabeça de lista por Santiago Norte, 11 votaram contra e quatro em branco. Os resultados mostram a clivagem existente neste momento na bancada do MpD e talvez em todo o sistema ventoinha.

Mas um dos principais derrotados nesse processo é o próprio líder do MpD, Ulisses Correia e Silva, que não soube ler os sinais que davam conta que Jorge Santos já não gozava nem de empatia nem apoio dos seus pares do Grupo Parlamentar, devido ao seu desempenho “sofrível” como presidente da casa
parlamentar, marcado por gafes e atropelos ao regimento e à Constituição. O último desses atropelos foi a sua tentativa de cassar o mandato de António Monteiro, da UCID, em plena sessão plenária, depois das eleições autárquicas de Outubro do ano passado.

Contudo, Ulisses Correia e Silva, que, às pressas, teve que arranjar um lugar para Jorge Santos no Governo, justificou a retirada da candidatura desse deputado à presidência da AN, com facto de o PAICV lhe ter rejeitado apoio. Antes, a ter que sair da Mesa da AN, Jorge Santos dera sinais que preferia ser ministro dos Negócios Estrangeiros ou das Infra-estruturas, já que engenheiro civil.

Orlando Dias, nome proposto pelo MpD como primeiro vice-presidente da Mesa, foi chumbado na plenária da sessão constitutiva com apenas 36 votos favoráveis, menos um da maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções.

Perante esse chumbo, foi chamado o deputado Armindo Luz que foi eleito primeiro vice- presidente com 40 votos a favor.

Com a resolução desse problema no seio do MpD, a Mesa da AN ficou composta por Austelino Correia (presidente), que foi eleito com 64 votos favoráveis, mais um que o seu antecessor Jorge Santos, que obteve 63 votos a favor na anterior Legislatura, Eva Ortet (segundo vice-presidente), Georgina Gemiê (primeira secretária), Julião Varela (segundo secretário) e Anilda Tavares (terceira secretária).

(Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 716, de 20 de Maio de 2021)

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