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A Depressão: O silêncio sufocante do grito duma luta em terra do sem ninguém!

Por: Adelino Barros*

Quando a tristeza profunda e persistente sufoca a “alma” no silêncio e consegue aprisionar a consciência num sofrimento prolongado no tempo, a escuridão sem motivação nem forças para se fazer ouvir, faz cair em negatividade e perder assim a capacidade de ver o lado positivo da vida e de operar mudanças, sem poder de reacção e visão de libertação: estamos perante a Depressão!

Frequentemente apelidado de “doença dos fracos e covardes”,  de “frescura” e se ainda for homem a vítima, este é capaz de até ser desconsiderado pelos inconscientes pensamentos machistas pondo em causa a sua masculinidade ou “machesa” como normalmente muitos consideram por desconhecimento.

Pelos motivos acima e por um certo complexo existente acerca das doenças do foro psicológico frutos da desinformação, as pessoas com depressão praticamente sentem-se inibidos de assumir a doença submetendo-se ao isolamento. Perdem a motivação e coragem, complicando assim o quadro da doença e a recuperação abandonados às suas dores e confusões negativas internas.

Existe um preconceito ignorante e gritante por parte das pessoas comuns com relação a esta doença que hoje assola a humanidade e como as próprias estatísticas apresentam, “o mundo encontra-se depressivo”. Por outro lado podemos verificar um silêncio ensurdecedor no que se refere à estratégias de educação e comunicação para fazer face aos preconceitos e desinformação existentes a volta dessa doença muito séria e que basta observarmos as terríveis consequências dela provenientes podemos ter clara noção de quão importante é necessária a mudança de postura perante a depressão.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 400 milhões de pessoas no planeta todo neste momento sofrem de depressão. A estimativa é que, em 2030, ela seja a doença mais comum do mundo, afetando mais as pessoas do que doenças cardiovasculares e cânceres”. Nesse sentido urge começar a definir quais as estratégias mais eficazes, as acções imediatas a serem desenvolvidas e ou implementadas para prevenir e controlar os números de casos mitigando às tendências apresentadas pelos números estatísticos e previsões nada animadores.

Estudos afirmam de que “a interação entre fatores genéticos, ambientais e psicológicos podem levar ao desenvolvimento dessa doença silenciosa. Porém, são os fatores psicológicos e emocionais que funcionam como um gatilho para o transtorno vir à tona. Hoje, considerando toda a evolução científica nesse campo emocional, podemos afirmar que a depressão é uma espécie de “Programa Emocional – (que são padrões que cada ser humano registra e usa para reagir aos estímulos que recebe”), que foi desenvolvido e gravado durante as fases mais importantes da vida de todo ser humano: a gestação e a primeira infância. As experiências e traumas vividos nessas fases são seguidos de dores e tristezas que podem ser carregados para o resto da vida, especialmente se a pessoa não der um novo significado a esses factos.” Também durante as fases de adolescência e adulto por consequências dos eventos e circunstâncias do dia a dia, como situações de perdas, choques emocionais mal resolvidos, a “ignorância emocional” principalmente no que se refere à gestão das emoções em situações de crise e a não aceitação da condição presente de forma consciente, bem como a falta de controlo do conflito interno e as influências do externo, qualquer indivíduo pode desenvolver uma depressão. Estas são algumas das causas que podem provocar uma depressão dependendo de cada indivíduo,  seu ambiente, “história” da vida, sua capacidade de conhecimento de si mesmo e controlo situasional na vida prática.

Como qualquer outra doença à depressão também apresenta seus  sintomas característicos. Normalmente “a doença é caracterizada por uma tristeza prolongada, profunda e aparentemente sem motivo. Ela impede que a pessoa tenha consciência do lado bom das coisas existentes em sua volta ou em sua vida. A pessoa depressiva normalmente não consegue se recordar de acontecimentos positivos e isso poderá ser acompanhada de pensamentos suicidas. Uma pessoa com depressão pode apresentar ansiedade e dificuldade de concentração, perda de reacção e o gosto pelas coisas, podendo apresentar choro sem motivo e com frequência. Perda de controle situasional com riscos de comportamentos agressivos, além da falta de prazer, com total desmotivação e melancolia. A depressão pode causar ainda alterações no apetite, acompanhadas por perda ou ganho de peso. Pode ser acompanhada por dores e outros sintomas físicos não justificados por problemas médicos, como dores de barriga, má digestão, azia, diarreia, constipação, flatulência, tensão na nuca e nos ombros, dor de cabeça ou no corpo, sensação de corpo pesado ou de pressão no peito, entre outros. Diminuição do desempenho sexual, insônia ou outras alterações do sono.” Ter atenção a estes sintomas ajuda a identificar a doença, seu desenvolvimento e consequentemente facilita avaliar a necessidade de intervenções imediatas e eficazes.

Com relação à cura ou tratamento da depressão é de extrema importância saber que o primeiro passo será assumir a doença. Logo de seguida procurar apoios, principalmente dos proficionais e ter a consciência de que a recuperação dependerá sobretudo da nossa vontade de vencer a doença e da atidude ou comprometimento e esforços para mudar a situação.

“Por meio da utilização de medicamentos, a ciência permite o controle das partes química e genética, mas também é necessário cuidar dos fatores emocionais que levaram à doença para que os medicamentos não sirvam apenas como “camuflagem” para uma ferida que precisa ser curada. A depressão tem cura somente quando tratada em todos os aspectos – neurológicos e emocionais. Uma pessoa que sofreu maus-tratos na infância e mais tarde desenvolveu depressão, por exemplo, não irá se curar apenas com medicamentos. Como também a pessoa que desenvolve a doença na sua fase de adolescência ou adulta, ela precisa também cuidar das dores emocionais que fazem parte da sua experiência. Quando damos um novo significado para essas memórias, “limpamos” o conteúdo doloroso que desencadeou a depressão. Dar e receber contato fisico (incluindo abraços com amigos e filhos, beijos e relações sexuais com parceira (o), o cérebro libera ocitocina no organismo, o que aumenta a felicidade e ajuda a diminuir a depressão. Alimentar de modo saudável aumentando o consumo de frutas e vegetais. Compartilhar traumas, perdas, rupturas e transformação não superadas conversando com alguém de confiança sobre o assunto e estar disposto a recomeçar. Praticar atividades físicas regularmente, os exercícios liberam endorfinas no cérebro, aumentando o bom humor e reduzindo a depressão com o tempo. Dormir melhor organizando a rotina de sono para evitar piorar os sintomas da depressão, pois a doença costuma ser bastante associada com a falta ou o excesso de sono. Resgatar os sonhos olhando para as realizações, reconhecendo o potencial e ver como é capaz de alcançar todos os sonhos. Praticar meditação segundo diversos estudos sugerem, beneficia as pessoas que sofrem de ansiedade e depressão por meio do treinamento da mente para reconhecer pensamentos negativos e manter o foco no presente”.

Anotemos e partilhemos essas sugestões  importantíssimas para facilitação do despiste, controlo e da recuperação duma depressão.

A prevenção

Quando se trata da saúde o melhor combate será sempre a prevenção. Esta passa pelo desenvolvimento de estratégias eficazes que possam oferecer condições e ferramentas práticos que capacite as pessoas a  conseguirem com mais clareza entender, evitar, controlar e tratar a depressão sem tabus nem preconceitos. Seguidamente apresento algumas sugestões de medidas práticas para facilitação na prevenção da depressão. Medidas essas que passam por campanhas de sensibilização da sociedade com informações realistas e esclarecedoras que diminuam ou eliminem os preconceitos existentes sobre a doença. Esclarecimentos esses que ajudem os afetados a assumirem de forma  livre e abertamente a sua condição. Divulgação massiva dirigidas por profissionais das áreas da saúde mental e mentores em inteligência emocional de acções práticas que ensinem aos indivíduos como despistar ou evitar e tratar uma depressão. Criação de espaços de partilha com reuniões periódicos de pessoas com experiência vivida da doença,  pessoas que estão de momento lutando contra e aqueles que nunca tiveram passagem pela depressão. Assim, para que através dos testemunhos se consiga um efeito terapêutico e se adquira conhecimentos importantes para a prevenção ou cura. Sendo a depressão uma doença causada por fatores psicológicos e emocionais é de capital importância que se aposte fortemente também em programas de educação emocional. Com o auxílio dos profissionais da área estarão criadas condições para que se combata de forma mais eficaz à doença, tanto na prevenção como no tratamento das feridas emocionais que estão na sua causa. Individualmente todos devem assumir o compromisso com o autoconhecimento ou conhecer a si mesmo, como nos ensinaram vários sábios de entre eles Sócrates com sua famosa máxima “Conheça-te a ti mesmo”. Sendo o ser humano movido pelas emoções, conhecer a nós mesmos também significa perceber as nossas emoções e os seus efeitos sobre os nossos pensamentos,  decisões e comportamentos. Pois esse exercício constitui principal força para a prevenção de qualquer doença física ou mental. Por isso aconselho à toda pessoa individual a criar compromisso com o desenvolvimento da sua inteligência emocional que na prática é um trabalho de autoconhecimento e progresso.

Valerá sempre a pena investir na prevenção para que efetivamente tenhamos uma sociedade saudável e preparada para lidar com as circunstâncias da vida, os fenómenos, as consequências indesejadas e manter um bom nível de bem estar comum.

Com esta humilde partilha espero contribuir com mais valia, transmitindo mensagem de despertar à nossa sociedade com relação a um dos males que neste momento assola o mundo e particularmente o nosso Cabo Verde. Precisamos ter uma postura consciente e diferenciada para que possamos melhor conviver com esta doença silenciosa que se tornou um “fenómeno mundial” e causa de outros tantos gravíssimos fenómenos sociais comuns ou frequentes hoje em dia no nosso país. Pois, sem conhecimentos e atitudes acertadas pouco poderemos fazer para prevenir, controlar e vencer, A Depressão!

Juntos para um país mais saudável e que todos unidos partilhemos com amor conhecimentos e experiências para que sejamos todos felizes.

*Mentor em Inteligência Emocional.

Praia, 30 de Julho de 2021.

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 732, de 09 de Setembro de 2021

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