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Sociedade

Rosana deixa ICIEG de cabeça “levantada” e regressa à TCV

Rosana Almeida foi exonerada da presidência do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG), quando ainda faltava cerca de um ano para o término do seu segundo mandato. Em entrevista ao A NAÇÃO, lamentou que se esteja a fazer “muita politiquice” à volta da sua demissão. Diz sair de cabeça “levantada” e que regressa à sua condição de jornalista.

O Governo deu por finda a comissão de serviço de Rosana Almeida, como presidente do ICIEG, numa medida já publicada no Boletim Oficial.

Ainda que sem explicar as razões que levaram à sua demissão, quando ainda faltava um ano para terminar o mandato à frente desse instituto.

 

Uso indevido da sua imagem

Ao que consta, nas redes sociais, a gota de água que fez transbordar o copo terá sido o recente pronunciamento público de Rosana, insurgindo-se contra o uso da sua imagem, na campanha de Carlos Veiga às Presidenciais de 17 de Outubro, próximo.

Aliás, conforme a visada, esta foi a segunda vez que se usa a sua imagem “indevidamente”, sem a sua autorização, pois já tinha sido usada pelo MpD também nas Legislativas de Abril e tomou posição, igualmente, contra esta forma de fazer política em Cabo Verde.

 

Levantamento da imunidade do deputado Damião Medina

Uma outra razão, ao que consta também, está a pressão do ICIEG para que fosse levantada a imunidade parlamentar ao deputado Damião Medina, do MpD, para que pudesse responder pelo crime de suspeita de VBG.

Questionada sobre assunto, Rosana argumenta que se está a “fazer muita politiquice” à volta da sua saída, mas admite que existem factos que não se podem “negar”.

“Quando coloquei pessoas no ICIEG que foram catalogadas como sendo do partido A, disseram-me: Ah, Rosana, toma cuidado.

Depois, muito mais à frente, já na campanha (Legislativas) protestei contra a utilização da minha imagem na campanha de um partido e não gostaram; outra vez, voltaram a usar, agora, a minha imagem numa campanha (Presidenciais)”, começa por expor, advertindo que “há que ter respeito”.

“As pessoas têm direito à imagem e não podem estar em espaços político-partidários sem autorização. É o mínimo que eu peço.

Não me colem sem eu querer, não me obriguem a ser, se eu não quero.

Deixem-me ser cidadã e contribuir sem política- partidária. No dia que eu decidir, tudo bem, mas se eu não decidir, por favor, respeitem-me!”

 

Recusa a convites para filiar-se no MpD

Contudo, há mais factos que devem ter pesado, pois, apesar dos inúmeros convites, também diz que nunca aceitou filiar-se no MpD.

“Convidaram-me para entrar quatro vezes, não aceitei porque não é minha intenção fazer política partidária, se isso impactou, ou não, as pessoas que tirem as devidas ilações, mas eu sei que as coisas não ficaram facilitadas”, admite.

A ex-presidente do ICIEG adverte ainda que não pode “ficar refém de nada, absolutamente nada”, só para poder permanecer num cargo.

“Entro num cargo para dar resultados, executar, ser avaliada e voltar, mais nada para mim importa. E se em Cabo Verde existem outros atributos, e como disse, e disse-o há muito, então eu não tenho perfil e não sirvo.

E, se calhar, por não ter esse perfil, estou a sair de cabeça levantada, voltar para a minha casa que é a TCV, onde espero começar a trabalhar, como trabalhava anteriormente”.

A jornalista salienta que ninguém lhe obriga a fazer política partidária e que o seu compromisso é com causas sociais.

“Chegou aos meus ouvidos que, como eu não era do MpD, não tinha nada que fazer no ICIEG porque há muitos militantes à procura de lugar. Este não é o meu Cabo Verde. O Cabo Verde que queremos deixar para os nossos filhos não pode continuar nesta senda”, apela, deixando transparecer que este tipo de mentalidade é que está a prejudicar o desenvolvimento do país.

“Vou continuar. Apaixonei-me pelas questões do Género. Eu quero ver Cabo Verde a seguir em frente, não importa o partido político”, finaliza.

Trabalho reconhecido dentro e fora do país

Olhando agora para trás, Rosana Almeida garante que deixa o ICIEG com sentimento de “muito orgulho”, especialmente da “equipa que ajudou a impactar, a salvar vidas, a fazer com que a questão do género venha, cada vez mais, à praça pública”, e que fez com que o instituto ganhasse mais visibilidade, apesar das “extremas” limitações financeiras.

“Porque toda a verba que mobilizámos no instituto foi graças aos parceiros internacionais, que foram ter connosco e que acreditaram nos nossos projectos. E se acreditaram é porque dávamos resultados”, justifica.

Aos parceiros, diz, “não temos palavras para agradecer”. “O quanto ajudaram a salvar vidas, a empoderar meninas, a falar de novas masculinidades, a fazer aprovar a Lei da Paridade, a criar as casas de abrigo. Hoje transportamos vítimas da VBG num carro exclusivo para o efeito e não nos carros da polícia.

Hoje temos quase sete casas que acolhem vítimas de alto risco, sem um tostão do orçamento de Estado.

Temos 22 centros de atendimento às vítimas, ainda com vínculo precário, mas que fazem atendimento psicológico, seguimento, e a esses técnicos não temos como agradecer.

Lá onde não temos casas de abrigo, assinámos protocolos com as Aldeias SOS, as mães e mulheres, em dificuldades têm ajuda e, portanto, ninguém fica para trás. Formámos centenas de polícias, centenas de magistrados, líderes comunitários”, inúmera.

Rosana diz ainda ter tido o privilégio de ter deixado “algo essencial”, que é a introdução da temática da Igualdade “na Educação, na Formação Profissional” e “trabalhar novas masculinidades, trabalhar a Igualdade do Género nas escolas do país, formar professores, ou seja, é interminável a quantidade de boas práticas, em que houve uma equipa, muito pequena, engajada”.

A mesma alerta ainda para a escassez de recursos humanos e financeiros. “O ICIEG não tem mais 10 a 12 pessoas, incluindo condutor e pessoal de limpeza e telefonista.

Portanto, cada vez mais tínhamos ONGs e, também, membros da Cooperação Internacional, que vinham ter connosco, que ofereciam verbas para continuarmos a trabalhar.

Estivemos no terreno com mulheres pobres a dar educação financeira. O ICIEG, hoje, é uma instituição com cada vez mais visibilidade”, defende, exemplificando que “o trabalho fala por si”.

“Insistimos com o Ministério da Justiça nas questões que continuam ano, após ano, a não serem resolvidas. Tivemos agora com a ministra da Justiça, o Fundo de Apoio à Vítima que nunca foi implementado apesar de várias lutas.

O ambicioso plano de Igualdade do Género que está alinhado com o PEDS, alinhado com os compromissos internacionais, foi muito bem aplaudido pelo Ministro da Família (Elísio Freire)”, enumera.

A nível de compromissos internacionais, Rosana Almeida lembra que, ainda há bem pouco tempo, “por causa da forma como combatemos a covid-19, fomos considerados o país campeão em África, em termos de Igualdade do Género, juntamente com Nigéria e Senegal”.

Questões aplaudidas, refere, “inclusivamente pelo Governo”. Perante o quadro de realizações, que inclui várias outras “conquistas”, Rosana Almeida diz que gostava de ver mais reconhecimento pelo desempenho da equipa.

“É triste quando o trabalho da equipa não é valorizado. Eles podem dizer que é, mas agindo assim, não estão a agir da mesma forma”.

Uma equipa, como diz, que “ainda tinha muito a dar”. Rosana Almeida acredita que o trabalho deveria falar mais alto. “Eu acredito que quem vá possa dar continuidade, mas pergunto até que ponto os resultados apresentados não falaram mais alto do que qualquer outro problema que possa haver?

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 733, de 16 de Setembro de 2021

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