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Colunistas

Colecção de factos, reflexões e tiradas minhas (1)

Por: Arsénio de Pina* 

Estando a reordenar um dos meus dossiers onde guardo recortes de jornais, os ditos de alguns que mais me prouveram e tiradas minhas, encontrei assuntos dispersos com algum interesse que me impressionaram ou fizeram sorrir, que irei partilhar com os leitores, em dois bochechos. Serve também essa selecção para me permitir aliviar o dossier que já não comportava mais papeis.

# A minha formação não foi diferente da de algumas pessoas – estudar, ter emprego e levar uma vida civilizada -, mas nunca abdiquei da curiosidade, do prazer da companhia dos outros, de leitura de livros de bons escritores e filósofos.

# Sem jornais independentes, jornalistas livres e leitores informados não há opinião pública, e ela é o primeiro esteio da democracia.

# Se não houver discussão no seio do partido político, haverá intrigas internas…

# O esforço dos camponeses tem sido inútil, a não ser para a criação de calos nas mãos. Quem recolhe os frutos dos seus trabalhos têm sido os intermediários, muitos deles parasitários.

# No islamismo, uma mulher não “coberta”, isto é, sem burka, nigab ou hijab, os homens têm o direito de se servirem, ou seja, podem assediar, forçar, usar até onde lhes apetecer, porque uma mulher sem homem e não “coberta” no espaço público é propriedade pública. É o que diz a Sharia, a lei islâmica.

# Quando uma mulher quer ir para a cama com um homem, não há nada a fazer.

# O Native Land Act de 1913, que foi introduzido pelos ingleses quando geriam a África do Sul em nome da Sociedade das Nações, retirava aos negros sul africanos o direito de possuir terras, portanto, uma discriminação injusta muito antes do estabelecimento da política do Apartheid em 1948.

# Já não me defino como simpatizante paigc/paicvista, mas antes como pós-paigc/paicvista, portanto, identifico-me somente com os seus ideais nobres, mormente a liberdade e justiça social, que, entrementes, descuraram com o tempo e com o exercício do poder em regime de partido único, invenção dos comunistas que muitas ditaduras subscreveram.

# Essa Pérsia é um caleidoscópio das mais antigas civilizações do mundo, com a Mesopotâmia ao lado; inventou a escrita, a agricultura, a cidade e até o monoteísmo. E vê-la, há alguns anos, como Estado sob tutela religiosa, um tanto à semelhança do poder sob a tutela de um partido único no comunismo e noutros países que se inspiraram no comunismo soviético, sob a férula hipócrita de um Estado teocrático, dá dó.

# Foi Mouzinho da Silveira (porventura o mais importante de todos os ministros legisladores), em 1834, que aboliu os dízimos eclesiásticos que revertiam a favor do clero, que eram de 10% sobre os rendimentos dos habitantes de cada paróquia.

# Certamente que rejubilei com a declaração da morna como património da Humanidade, embora sempre me tenha intrigado a razão de a morna se dançar de pé…, isso confessado sem malícia nem maldade.

# Se não me pusesse a pau, seria ministro.

# Embora me diga um amigo que muito estimo do Racionalismo Cristão (RC) haver vida depois da morte, o de que não tenho a mínima dúvida é que há morte depois da vida. Prometi-lhe repetir, publicamente, o que já afirmei algures, que o RC não é seita religiosa, nem ciência, e aceito considerá-lo uma filosofia da vida.

# Há tantas mulheres belas, atraentes e insatisfeitas no mundo que é pena não lhes oferecer ou retribuir uns breves instantes de felicidade.

# Somente através da instrução é que a mulher poderá libertar-se da opressão e humilhação masculinas de que vem sofrendo.

# Emanuel Macron declarou, em visita à Argélia, que o colonialismo francês foi um crime contra a humanidade, embora não tenha pedido desculpa em nome do Estado, o que também não fez de Gaulle, que nem crime aceitou que se tivesse cometido, embora tenha aceitado a sua independência. O único estadista europeu que reconheceu que foi crime a acção dos nazis e pediu desculpas, de joelhos no chão, em nome do Estado, foi o Chanceler Alemão Willy Brandt, numa visita ao gueto de Varsóvia.

# Afinal, são os livres-pensadores laicos os mais fiéis depositários do espírito cristão original.

# Um afecto, como diz Espinosa em Ética, não é jamais erradicado pela razão, mas por outro de sinal contrário.

# Ninguém deve pedir por favor o que lhe pertence por direito, mas exigi-lo, se disso necessitar.

# Retornados – termo aplicado aos que regressaram das colónias com a independência destas – foi expressão utilizada no passado longínquo aos ex-escravos africanos ou brasileiros que tiveram a chance de cruzar novamente o Atlântico no sentido contrário ao das rotas convencionais do tráfico de escravos, e cujos descendentes habitam hoje o Benim e países vizinhos.

# Como nos relata Gomes Eanes de Azurara, ao amanhecer de 8 de Agosto de 1444, chegaram a Lagos, no Algarve, seis caravelas. Dos seus porões começou a sair uma carga inusitada: 235 homens, mulheres e crianças, todos escravos que ali seriam arrematados em leilão. O primeiro lote de 46 escravos ficou reservado para o homem de chapéu de abas largas e botas de cano comprido até aos joelhos que, montado num cavalo, supervisionava toda a operação. Era o infante D. Henrique.

Acreditava Azurara, cronista do Infante D. Henrique, perante tanta dor e sofrimento, que o cativeiro daqueles africanos era a oportunidade de salvar-lhes as almas, retirando-os da escuridão da barbárie e do paganismo em que então se encontravam. Este foi o primeiro leilão de escravos, mouros e negros. No total, cerca de 150 mil cativos foram capturados ou comprados na costa d´África pelos portugueses entre 1450 e 1500.

# O que conheço dos países africanos francófonos onde vivi e trabalhei, e dos que atingiram a independência na década de cinquenta/sessenta do século passado, o que lhes falta é o sentimento de identidade nacional, prevalecendo a identidade tribal e clanica que, infelizmente, presidentes e ministros, interesseiramente, cultivam. A autocomiseração colonial, a hipertrofia do seu papel de vítimas culpando o colonialismo de tudo, não ajuda a superar as dificuldades. Embora a divisão da África em países, feita pelo Ocidente, tenha sido arbitrária, com separação de povos com a mesma língua e interesses, a República Centro-Africana, por exemplo, com a mesma língua para todo o país, o sango, talvez  tivesse condições para ser diferente, à semelhança da Indonésia, cuja língua comum, bahasa, favoreceu a sua identidade nacional, a criação de uma nação e a sua organização política em Estado, não fora a liquidação do seu primeiro presidente, Boganga, pela polícia secreta francesa, cuja formação,  ideologia e rectidão de caracter não convinham à França.

# As pessoas que defendem a todo o custo e preferentemente as coisas naturais, esquecem-se de que o lírio é tão natural como o percevejo.

# A Revolta da Madeira contra o Estado Novo deu-se em 1931. Os presos desterrados para Cabo Verde, foram parar a Santo Antão e S Nicolau, não para o campo de concentração do Tarrafal de Santiago, simplesmente porque ainda não tinha sido construído, como veio a ser, pouco depois, sob o modelo do primeiro campo de concentração nazi de Dachau.

# Na invasão e ocupação de Goa, Damão e Diu pelas poderosas forças armadas da União Indiana, Salazar determinou RESISTIR a todo o custo. Não queria prisioneiros nem derrotados, queria vítimas, para impressionar o mundo e os seus aliados.

# Como sabemos, os mitos escondem verdades, disfarçam mentiras e têm utilidade.

# Em 1618, a população do México passou de 20 milhões a 1,8 milhões, segundo afirma o historiador americano Jared Diamond, atribuindo a Cortez esse sucesso no México, isso ajudado por doenças como a gripe, varíola, sarampo, paralisia infantil, etc, de que eram portadores-sãos os espanhóis.

# Segundo conta Diogo Couto, dos 4.000 homens da armada em que viajou para o Oriente, somente 2.000 chegaram a Goa. Pyrard Laval diz ter visto chegar a Goa 200 homens em navios partidos do Tejo com 2.000 homens. A maioria das mortes era por escorbuto, disenteria e malária.                                                                                                     (Continua)

Parede, Agosto de 2021       

*Pediatra        

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 732, de 09 de Setembro de 2021

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