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Sociedade

Professora Mimi: Da sala de aulas à fama nas redes sociais

Hermínia Curado é uma figura bem conhecida dos cabo-verdianos. Professora de profissão, mãe e avó, escritora ex-deputada e activista em diversas áreas, “Dona Mimi” como é carinhosamente tratada, aceitou, aos 77 anos, sem qualquer “vergonha” ou “censura”, o desafio de dar a cara nas redes sociais pela candidatura de José Maria Neves. A tal ponto que é um dos fenómenos destas eleições.

Hermínia Curado, Mimi, ou Dona Mimi, como é conhecida, nasceu em São Vicente, em 1944, filha de mãe cabo-verdiana de São Nicolau e pai português, “chefe da Polícia”, crescendo entre São Vicente e Praia, criada pelo pai e pela madrasta. “Nós íamos sempre atrás dele”, diz, para explicar o conhecimento que acabou por ter das várias ilhas onde viveu.

Completou os estudos primários e secundários entre Praia e São Vicente, e tinha 14 anos, quando veio “de vez” para a Praia, estudar “para o liceu, na altura ainda era a antiga Casa Cervantes, e fui inaugurar o liceu Adriano Moreira, na década de 1960”.

Fez o magistério primário, depois de fazer um bacharelato de três anos, em Cabo Verde, e, mais tarde, fez mais dois em Coimbra, para completar a licenciatura em Línguas e Literaturas Romanas, ensino do português, altura em que regressa a Cabo Verde para fazer Estudos da Língua Cabo-verdiana.

Entretanto, antes, casou “por procuração” em 1965 e foi para Guiné, onde se encontrava o marido. “Em 1971 fomos para Angola e em 1975, quando se deu a Independência, regressamos ao país”, sendo certo que já tinha começado a dar aulas em Angola, antes de iniciar carreira em Cabo Verde.

“Dei aulas na Escola Grande e, depois, no ciclo preparatório. Entrei para o curso de Formação de Professores do Ensino Secundário, eu a Amália Melo, a Nezi Brito, o Frutuoso… Com vários outros companheiros esse curso, éramos uma primeira leva, logo no primeiro ano. Ainda era numa sala do Liceu Domingos Ramos”, revisita.

Depois, foi de novo para Portugal, completar os estudos em Coimbra e regressa a Cabo Verde onde trabalhou no Ministério da Educação, para mais tarde dar aulas no Liceu Domingos Ramos.
“Foi a minha base até ser eleita deputada” pelo PAICV, em 2001.

Mais respeito

Ser deputada, garante, foi uma experiência “muito boa”. Porém, não esconde que ser parlamentar hoje em dia, e naquele tempo, “era um bocadinho diferente”.

“Levava-se a democracia mais a sério e havia mais respeito pelos colegas”. “Eu era de um partido que, nessa altura, estava no poder.Fiz dois mandatos, de 2001 a 2011 e, quando saí, saí amiga de toda a gente, de todas as bancadas”, orgulha-se.

“Eu e as minhas colegas é que fundamos a Rede de Mulheres Parlamentares, foram 10 anos de muito trabalho…”, lembra, avançando que, mesmo depois da reforma, continuou “sempre” ligada à Rede, porque “o nosso Regulamento prevê isso e, até hoje, ainda me chamam”.

Paralelamente, continua ligada a uma série de instituições sociais, “abraçando” as causas em que acredita e defende, como a Associação de Cinema de Cabo Verde, ou a Verdefam, entre muitas outras. Na prática, mais que conhecida, Hermínia Curado é acima de tudo uma referência da sociedade praiense.

No Facebook há “muito tempo”

No tempo do magistério ou do Parlamento, Mimi estava longe de imaginar que um dia ia virar famosa nas redes sociais, ao dar corpo a “Dona Mimi, sem mimimi”, um vídeo de marketing político que tem como objectivo “repor a verdade” a favor do seu candidato presidencial, José Maria Neves.

Embarcar na aventura não foi difícil, por há muito ter aderido às redes sociais. “Através do Facebook consegui rever, virtualmente, muitos ex-alunos. Uma coisa linda.
Eles ligavam-me, mandavam mensagens: Oh, professora como é bom saber de si. Então, como é que está? Porque nas aulas eu falava muito com os meus alunos, despertava-os para a escrita. E alguns seguiram-me tanto na escrita, como enquanto professora”.

No princípio, diz, não foi muito fácil. “Quem me ensinou foi o meu neto Malik (Nuno Miguel), que agora já é pai, já é casado e tem uma filha de oito anos. Tinha ele uns nove ou dez anos”.

Quando surgiu a oportunidade de dar cara pela Dona Mimi, que na verdade, é ela própria, não deu muito que pensar. “O senhor que me entrevistou da equipa de Marketing, da candidatura do José Maria Neves, já me tinha dito: ‘A senhora vai bombar’. E eu perguntei, ‘Eu vou bombar porquê?’ Ele só me disse: ‘Vai ver…”, e assim foi.

Mimi ficou famosa nas redes sociais como a professora que dá “caroladas” (no bom sentido) aos alunos que não aprendem a lição. “Estou aqui por uma boa causa”, diz ela, justificando em parte o que a levou a aceitar o desafio “sem vergonha” nenhuma de, aos 77 anos, virar famosa nas redes sociais.

Mimi garante que não é só os jovens que podem aparecer nas redes sociais. “Eles acharam que eu era a pessoa perfeita para aquilo que queriam. E eu identifico-me com o que estou a fazer. Mas nunca pensei que o vídeo ficasse tão bom”, confessa.

Antes de embarcar nesta aventura digital, Mimi partilhou com a família a intenção, da qual recebeu todo o apoio. “Disseram logo, sim, mãe, vai. A minha nora, que vive comigo, viu o vídeo mais de 10 vezes quando saiu e ria-se…” Hoje, não tem dúvidas que se revê na causa pela qual dá a cara. “A Dona Mimi é a Mimi autêntica…”, garante.

A receptividade foi tão positiva, que até o ex-primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, que foi casado com uma sobrinha de Mimi, que já faleceu, ligou-lhe para dar os parabéns. “Ele viu um dos vídeos e partilhou e eu até me perguntei, como é que o Pedro já viu isso em Portugal?”

Quando terminar a campanha, Mimi diz que vai ter “saudades” e garante que vai continuar ligada e conectada com as redes sociais. “Tenho Messenger, Facebook, WhatsApp, email…”

Amiga de toda a gente

Hermínia Curado vê as ligações à política e à vida democrática, como algo natural, defendendo sempre o respeito pelas diferenças de cada um. Até porque diz ter grandes amizades em todos os quadrantes políticos, já que sempre soube “separar as águas”, e que a cor política não deve interferir nas amizades.

Enquanto professora, por ela passaram inúmeros quadros da vida política, económica e social de Cabo Verde. Apesar de já não se lembrar de muitos nomes, porque foi apanhada desprevenida, arrisca alguns, sem prejuízo daqueles que não citou.

“Janira Hopffer Almda foi minha aluna, o ministro da Agricultura, Gilberto Silva, também… O Olavo (Correia), estou na dúvida se foi meu aluno, mas ele chama-me só Professora, troco mensagens com ele, somos amigos, o Herménio (edil de São Miguel) foi meu aluno, também somos amigos, o Hélio Sanches idem… A lista é longa”, recorda com carinho. Isto, para dizer que é e sente-se amiga “de toda a gente”.

Por isso não é só amiga de José Maria Neves, pelo qual dá a cara nesta disputa presidencial, mas também de Carlos Veiga. “Ele (Veiga) é meu amigo de infância.
Eu era mais velha. Ele, o actual presidente da República (Jorge Carlos Fonseca), o Luís Almeida, que era meu vizinho, o irmão da antiga directora do Liceu, que está hoje em Macau, e que é médico, também, o Djoy Monteiro, que foi nosso embaixador (Nações Unidas), iam jogar à bola na minha casa. Nós tínhamos um passeio, em frente à nossa casa (casas antigas de meia porta) e, então, o nosso passeio era muito lisinho e eles iam jogar à bola
lá. E, quando a bola entrava, eles chamavam-me e sussurravam-me: ‘Mimi a bola já caiu lá dentro, dá-nos a bola?. Eu ia e dizia: ‘Eu dou-vos a bola, mas ponham-se em fila, cada um, uma carolada. E era assim, meus amigos de infância, brincadeiras de antigamente”, recorda com saudade.

Também nesta altura, que dava “caroladas” aos amigos de infância, estava longe de imaginar que um dia, noutro século de existência, ia dar “caroladas” nas redes sociais, ao dar corpo à personagem “Dona Mimi, sem mimimi”.

Enfim, coisas que só acontecem em Cabo Verde e que dão às eleições um sabor muito particular.

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 737, de 14 de Outubro de 2021

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