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Política

A importância das redes sociais nestas presidenciais

Que as redes sociais já se tornaram uma peça fundamental – e até decisiva – nos resultados das campanhas eleitorais pelo mundo é um dado consumado. Cabo Verde não tem fugido a esta regra. Pelo contrário, o digital tem sido um separador de águas entre algumas das sete candidaturas ora em presença. O dinheiro é importante, mas não é só isso que conta.

Ainfluência das redes sociais nas eleições presidenciais de domingo, 17 de Outubro, é significativa,
tendo claramente suplantado a TV, em termos de relevância na comunicação com o eleitorado. Em tempos de covid-19, em que os comícios passaram a ser mal vistos, as redes sociais tornaram-se indispensáveis na conquista dos eleitores.

“E não é para menos”, observa Vadini Ferreira, especialista em marketing ao A NAÇÃO, “já que temos aproximadamente 74% da população cabo-verdiana residente, com idade para votar, nas redes sociais, e a diáspora tem nessas plataformas a sua forma de conexão com o país”.

Valdini Ferreira

O divisor de águas, na visão do nosso entrevistado, foi a vitória do MpD em 2016, apoiada em uma sólida campanha nas redes sociais. Desde então, considera, essas plataformas têm recebido uma atenção crescente dos partidos e políticos.

Num panorama internacional, o professor universitário e jornalista Geremias Furtado, aponta a campanha que deu vitória a Barack Obama, em 2008, após traçar uma intensa e bem programada agenda digital, com a inclusão de várias esferas sociais.

Geremias Furtado

Criatividade

Mas o que chama a atenção nesta campanha presidencial, em que pela primeira vez o eleitor é chamado a escolher entre sete concorrentes, para Vadini Ferreira, é o elevado nível de criatividade. “As equipas das duas principais candidaturas têm feito uma disputa aguerrida com estratégias distintas e executadas com maestria, obrigando-se mutuamente a evoluir e a encontrar formas criativas de passar a sua mensagem”, constata.

Vadini reconhece que tem havido críticas quanto a essa criatividade e diz que são legítimas. “A nossa sociedade civil precisa tomar responsabilidade sobre o marketing a que está sujeita, principalmente quando se trata do marketing político. Mas, analisando apenas a performance nas redes sociais das duas principais candidaturas, sem juízos de valor, este é, sem dúvida, o melhor embate eleitoral que já tivemos em Cabo Verde”, analisou o especialista.

Entretanto, diz, as redes sociais não representam um mundo à parte e estão condicionadas pelos movimentos reais da sociedade. Neste aspecto, chama a atenção para a fraca mobilização da sociedade
civil que caracteriza as presidenciais no país, e que se traduz numa alta percentagem de abstenção.

Aliás, segundo diz, uma das medidas do impacto da mobilização feita nas redes sociais será precisamente o nível de abstenção. Normalmente, esta anda à volta de 40 por cento, o que à partida representa um desafio para as candidaturas a conquista dos abstencionistas, ao que se junta os absentistas, aqueles que não vão votar, aconteça o que acontecer.

Poder financeiro

A diferença de investimento nas redes sociais, diz o nosso entrevistado, é um factor importante, mas não determinante. Quer com isso dizer que um certo poder financeiro é crucial, uma vez que permite contratar uma equipa de profissionais competentes para construir uma estratégia e executá-la num alto nível. Permite ainda patrocinar os conteúdos, ou seja, pagar ao Facebook para que dê maior visibilidade aos conteúdos que a candidatura coloca na sua página.

“Por exemplo, se um candidato compartilha um vídeo na sua página e não o patrocina, mais ou menos 200 pessoas conseguem ver esse vídeo, mas se ele o patrocinar com mil escudos, este aparecerá à frente de 5 mil pessoas”, exemplifica.

Não obstante, ressalva Vadini Ferreira, se uma candidatura tiver uma equipa de “feras” no marketing digital, mesmo com um orçamento bem menor, tem todas as condições de produzir melhores resultados, suplantando o rival mais endinheirado. “Mas é claro, se não houver um mínimo de orçamento para ao menos ter uma equipa especializada, aí não se está sequer no jogo”, reconhece.

Condições desleais para os candidatos

Este peso que se atribui ao financiamento, segundo Geremias Furtado, fica visível quando temos dois candidatos com uma estratégica de marketing digital e acções em várias redes sociais (Facebook,
Instagram, Twitter e Tik Tok), enquanto que outros não passam de uma conta amadora no Facebook. São os mesmos que, acrescenta, dispõe da máquina financeira dos dois partidos do arco do poder, ou seja, e para dar os nomes aos bois, Carlos Veiga e José Maria Neves, por ordem alfabética.

Para Vadini Ferreira, todos os candidatos sem excepção estão a fazer o seu marketing, com as ferramentas que têm disponível. “Todos querem a nossa atenção, ganhar a nossa confiança e nos levar a tomar uma acção, isso é marketing. Quando um candidato diz que não está fazendo marketing ele provavelmente quer dizer que não está gastando dinheiro com publicidade”, esclarece.

Comparativamente às eleições legislativas, Vadini Ferreira diz que, em termos do marketing nas redes sociais, não existe uma diferença per si, no sentido de que tanto o candidato ou o partido na disputa são produtos que se quer vender. Ou seja, muda a estratégia, mas o ‘modus operandi’ continua o mesmo – persuadir as pessoas a tomarem uma ação desejada.

Eleitorado mais crítico

Indagado sobre o poder de decisão das redes sociais perante um eleitorado tradicionalmente partidarizado, Geremias Furtado é taxativo ao afirmar que as pessoas hoje estão mais críticas.

“A questão da partidarização já começa a ser ultrapassada. Há alguns anos as pessoas votavam por indicação familiar, porque a família era apoiante do partido A ou B. Hoje temos pessoas mais esclarecidas que estão interessadas no discurso do candidato, em o que o candidato vai fazer se for eleito.
Portanto são eleitores amadurecidos, que pensam pela própria cabeça, alguns recusam inclusive a pressão familiar na hora de votar”, afirma.

Não obstante o notável investimento na campanha digital, Furtado identifica ainda alguns “pecados” que, segundo diz, fazem toda a diferença em uma boa estratégia de marketing. Isto passa por identificar públicos específicos, em espaços específicos e produzir mensagens direcionadas unicamente para cada tipo de receptor.

“Pelo que eu tenho estado a observar, tem havido uma comunicação muito direccionada à malta jovem. Mas é preciso ter em atenção que todas as pessoas já estão nas redes sociais. Então é preciso pensar a mensagem e traçar uma estratégia de comunicação capaz de satisfazer o jovem, mas também gente mais adulta, mais madura também”, aponta, acrescentando que se tem esquecido das pessoas que querem ouvir propostas concretas, ainda estribadas em mensagens mais “softs” para a “malta jovem”.

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 738, de 21 de Outubro de 2021

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