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Política

Orlando Dias é candidato à liderança do MpD

Orlando Dias admite concorrer à liderança do MpD e, por isso, defende que a convenção extraordinária do partido, a ser convocada para o primeiro trimestre de 2022, seja electiva. Esse deputado ressalva, porém, que ele pode contar com o apoio de uma “sensibilidade” interna, que conta com cerca de metade da bancada ventoinha.

Orlando Dias, que diz ter o apoio de uma sensibilidade no interior do MpD, revelou ao A NAÇÃO que pondera concorrer à liderança do partido na próxima convenção extraordinária. Considera, no entanto, que este não seria o momento ideal para a realização desse conclave, tendo em conta que
a convenção ordinária está aprazada para 2023.

“Caso não apareça ninguém com coragem, pondero avançar como uma candidatura”, adianta. “Temos uma sensibilidade no partido que está a trabalhar nessa possibilidade”, acrescenta.

Metade dos deputados com Orlando Essa sensibilidade, faz saber, é formada por cerca de metade dos deputados do Grupo Parlamentar do MpD, grupo este que é constituído por um total de 38 assentos, contra 30 do PAICV e 4 da UCID.

Mas se a Direcção Nacional  do MpD decidir avançar com a convenção extraordinária, Dias afirma que será obrigado avançar como uma candidatura, para evitar que os militantes da sua sensibilidade sejam “expurgados” dos órgãos do partido.

“O ideal seria esperar pela convenção ordinária em 2023, que se realizaria com um ano de diferença em relação à eventual convenção extraordinária”, defende este dirigente que considera que esse tempo permitiria uma melhor preparação das candidaturas.

Porém, segundo o nosso interlocutor, há uma corrente que quer fazer uma convenção extraordinária não electiva, que “não faz sentido”, além de ser “uma perda de tempo e de recursos”, dado que em 2023 está prevista uma convenção ordinária.

“Se há assuntos para se debater, podemos debatê-los sem a convenção. Podem ser debatidos a nível da Comissão Política, da Direcção Nacional e até numa assembleia de militantes”, realça Dias, para quem o recurso à convenção extraordinária servirá apenas para relegitimar a actual liderança de Ulisses Correia e Silva, “uma vez mais sem disputa” e, desta feita, com “o risco de serem expurgadas as vozes discordantes nos órgãos do partido, sem uma eleição”.

Orlando Dias defende, igualmente, uma profunda revisão nos estatutos do MpD.

Isto porque, do seu ponto de vista, as sucessivas revisões, a partir de uma certa altura, “retiraram praticamente todos os poderes aos órgãos e, por outro lado, concentraram poderes no presidente do partido”, leia-se, Ulisses Correia e Silva.

“Como as convenções não foram disputadas, há a tendência de o presidente querer dar ordens. Temos que regressar ao passado, com convenções disputadas, também com a alteração dos estatutos no sentido de dar aos órgãos mais poderes, para que possa haver uma liderança partilhada”, advoga.

Como exemplo de centralização de poder no presidente do partido, cita a situação da Comissão Política que tem tido um “papel passivo” na hora de fazer ou remodelar o Governo.

“O presidente do partido não leva propostas, mas sim informa a Comissão Política das suas escolhas. Anteriormente os nomes eram validados na Comissão Política”.

Gordura governamental

Orlando Dias é também muito crítico em relação à “gordura” do actual elenco governamental, por considerar que um país como Cabo Verde, “com  de 500 mil habitantes, não deve ter um governo com mais de 15 membros”.

Essa questão relacionada com a gordura do Governo pode ser levantada na convenção extraordinária, mas Dias acredita que, independentemente das convenções, “essa situação terá que ser resolvida” o mais breve possível.

Orlando Dias realça, no entanto, que se vencer as eleições, “Ulisses Correia e Silva levará o seu mandato como
primeiro-ministro até ao fim da legislatura”, sendo igualmente certo que neste momento existe na bancada do MpD uma “sensibilidade” constituída, como antes referido, por cerca de metade de elementos.

MpD há 17 anos sem disputa de liderança

A última Convenção Nacional do MpD, em que houve disputa interna, foi realizada em 2004. Nessa altura, Agostinho Lopes saiu vencedor sobre Jorge Santos e Ulisses Correia e Silva. Depois os líderes que se seguiram foram Jorge Santos, Carlos Veiga e Ulisses Correia e Silva, que concorreram sozinhos à presidência do partido, num contexto em que o MpD procurava a sua pacificação interna.

O facto de não ter havido disputa para a liderança do MpD, há 17 anos, tem sido, no entender de Orlando Dias, neste momento em rota de colisão com UCS, um factor limitador da democracia interna no partido.

E é para evitar o marasmo instalado que Dias diz defender que a convenção extraordinária deve ser electiva, para que os militantes, simpatizantes e amigos se possam envolver com “serenidade e firmeza”, na defesa “intransigente” dos valores, princípios e práticas compatíveis com a liberdade, a

democracia e da transparência.

“Desta forma”, defende o entrevistado do A NAÇÃO, “o partido será restituído à base da sua militância, que, com a energia e dinâmica necessárias que

lhes são características, participarão na honradez e cumprimento dos compromissos, em ordem à consolida ção da democracia e do desenvolvimento de Cabo Verde”.

Para Orlando Dias, “estes são os fundamentos por que o partido do Governo, urge arrepiar caminhos, para que, de facto, o MpD volte a ser uma organização política que inspira confiança, baseada num dos fundamentos essenciais, como: o pluralismo de ideias e o direito à diferença”.

E conclui: “Mas, para isso, é absolutamente, necessário que na próxima Convenção Nacional, a liderança do partido seja disputada em toda a linha, para que possamos ter órgãos de Direcção do MpD, escolhidos pela vontade expressa dos seus militantes, de forma plural, partilhada e, com isso, restituir o respeito pelas ideias diferentes e direito à diferença aos militantes e dirigentes do partido”.

Percurso de Orlando Dias

Médico desde 1987, colocado em vários pontos do território nacional, deputado nacional desde 1991, pelo MpD e Santa Cruz, Orlando Pereira Dias foi ministro da Presidência do Conselho de Ministros, no último governo de Carlos Veiga (1995-2001).

Durante muito tempo foi uma figura de destaque no sistema ventoinha, particularmente, em Santiago Norte. Nesse tempo, depois de 2001, chegou a concorrer Câmara Municipal de Santa Cruz, por duas vezes, sem sucesso.

Nas duas últimas legislaturas foi eleito pelo círculo eleitoral de África e Resto do Mundo.

Como deputado, Dias foi vice-presidente do Parlamento da CEDEAO (mandato 2016-2020). Nesta qualidade, em 2017, falhou a presidência dessa Comunidade, acusando o governo de UCS de falta de empenho e de apoio nesse projecto, que, do seu ponto de vista, daria grande visibilidade a Cabo Verde.

Mais recentemente, em Maio passado, aquando da instalação do actual Parlamento, Orlando Dias voltou a averbar mais uma derrota, altura em que contava ser eleito primeiro vice-presidente desse órgão.

Num post no Facebook reclamou de uma “traição organizada” pelo seu sistema ventoinha, incluindo nisso membros do actual Governo, pelo que, ameaçou, “haverá consequências imprevisíveis”.

Desde então, Dias tem dado sinais de estar de costas viradas ou de manter relações frias com Ulisses Correia e Silva, que o preteriu na hora de formar o seu actual elenco governamental.

Orlando Pereira Dias assume-se como militante do MpD desde 31 de Outubro de 1990, tendo nesta qualidade estado presente como delegado a todas as convenções do partido, membro de várias Comissões Políticas Nacionais, Comissões Permanentes, Direcções Nacionais. Foi também secretário Geral do MpD numa dada altura.

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 743, de 25 de Novembro de 2021

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