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A noite das facas longas que marcou a operação Mauritânia – V Edição da TAC: Foi há 40 anos

Por: Santa Clara*

Nas rotas dos tubarões azuis

Inédito. Estamos em Julho de 1983, na Mauritânia. Até então, não rezava a história de um seleccionador nacional em futebol ter sido banido da equipa, com a prova ainda em curso. Regra geral, os contratos eram celebrados pelo início das competições e terminavam com o fim das mesmas. 

A história dessa chicotada psicológica em andamento conta-se facilmente. Nesse ano, adeptos e imprensa cobravam à nossa Selecção Nacional (SN) e ao então seleccionador Du Fialho, coadjuvado por José Resende “Djedjé”, a retificação dos sucessivos falhanços nas anteriores edições da Taça Amílcar Cabral (TAC). Pressionavam, agora, se não em favor de uma vitória na V Edição desta prova – a TAC-1983 – pelo menos por um resultado mais dignificante, que impusesse respeito desportivo na sub-região. 

O Senegal e a Guiné Conacri eram os dois papa-troféus dos oito países da Zona II nas competições oficiais da Confederação Africana de Futebol (CAF) – duas edições para os Leões de Teranga (TAC-79 e TAC-80) e outras duas para os Syli (TAC-81 e TAC-82), com as restantes seis SN ainda a fazer contas à vida, sem um único registo nas suas prateleiras. 

Do lado de Cabo Verde, a melhor classificação até então alcançada nesta prova fora um magro 4º lugar, curiosamente, por duas vezes consecutivas – 1981, em Bamaco (Mali), e 1982, na Praia, quando o arquipélago sedeou a competição. Dir-se-ia que ainda andava a meias, sendo que essa 4ª posição alcançada não era assim tão má, se se tiver em conta a péssima prestação que os Tubarões Azuis (TA) tinham tido na edição inaugural – a TAC-1979, em Bissau: último classificado, com derrotas frente aos Djurtus da Guiné Bissau (3-0) e os Leões de Teranga (1-0), nenhum golo marcado, quatro sofridos e mais de 40 situações de foras-de-jogos assacadas. 

Impendia agora sobre a cabeça dos insulares a espada de Dâmocles. Os TA estavam pressionados a fazer uma melhor figura. Num caso extremo, a trazer da Mauritânia um pouco mais do que o título de “Equipa Revelação” conquistado em 1981, no Mali.

1983. Selecção Nacional. De pé, da esq. para a dir.: Neno(GR), Zé Maria, João Cabral, Djoy, Zé-Di-Nhana e Bassana; Zé Edmundo, Calú Pitão, Djoblas, Spencer e Abel I

De resto, não faltaram recordações melancólicas de grandes jogadores que por estas ilhas haviam desfilado no passado pelos vários campos de futebol – federados e suburbanos – todos eles de requintada qualidade técnica: Luís Bastos, Focá, Nery, Bety, Nhartanga, Funinha, Duca, Tinta, Adérito Sena, Mundinho, Burgo Tavares, Homem Preta, Funa Bastos e vários outros. O próprio jornal estatal Voz di Povo, numa das suas edições, fez chegar as suas páginas junto ao muro de lamentações dos cabo-verdianos, depois de escrever, proclamando para quem o quisesse ler, que “hoje, em qualquer campo do país, não nos é possível ver um jogador dotado do gabarito técnico” comparável aos citados.

O eco fez-se ouvir, naturalmente, junto aos decisores desportivos de então. E prova disso foi o facto de, através de Aquilino Camacho, antigo dirigente da FCF, terem recorrido ao antigo internacional luso-cabo-verdiano Carlos Alhinho, à época ao serviço do Portimonense, Portugal, no sentido de este apoiar na vinda dos melhores atletas que, à época, militavam em clubes portugueses, para reforçar a SN. 

Experiente e bom conhecedor do futebol, Alhinho respondeu prontamente, indicando os nomes dos defesas Mariano “Tchibiu” (Salgueiros), Djony (U. da Madeira) e Simão (Águeda); dos avançados Djoy (Idem), João Cabral (Alcobaça) e Pita (GD Riopele); do GR Neno (Barreirense); e do médio Spencer (Braga). Num certo sentido, tinha-se um naipe de bons atletas. E no total Du Fialho convocou 21, entre internacionais e residentes.

E tudo seria preparado ao pormenor. Desde logo, com um estágio no Tarrafal (Santiago), sob o olhar atento dos elementos da FCF, que tudo investiram para que, desta vez, nada falhasse, e dois jogos de preparação – um na Praia e outro no Mindelo, o que aproximou muito os adeptos dos Tubarões Azuis.

A noite das facas longas 

Iniciado o torneio, em Nouakchott, os TA entraram em campo com o pé esquerdo e deslizaram-se, perdendo os primeiros pontos, frente aos anfitriões – os Mourabitones – que tinham em Traoré e Mimi os artilheiros de serviço. Não poderia haver pior começo, duas bolas sem resposta foi o score final. As responsabilidades foram imediatamente assacadas a Du Fialho, um técnico conhecido pelo seu mau humor, arrogância e mau feitio. Tornou-se, então, imperioso removê-lo do comando técnico da SN. Na verdade, 24 horas após esse jogo inaugural – e à noitinha – atletas, equipa técnica e dirigentes desportivos reuniram-se no hotel Marabá, na capital mauritaniana, e sobre ele descarregaram forte e feio, com o argumento de que os atletas não tinham sido preparados psicologicamente para o jogo inaugural. Evocaram, concomitantemente, enquanto factor preponderante para o desfavorável score, o “mau relacionamento com um treinador que sempre impõe, dita as leis, não ouve a opinião de ninguém, não procura ensinar”, além de outras acusações.

Década de 60. De pé, da esq. para a dir: Kiki, Tinta e Petchas; Luis Bastos e Nhartanha

Foi uma verdadeira “noite das facas longas”. Todos, sem excepção, bateram forte e feio no técnico da SN, ostracizando-o. Por exemplo, o então presidente da FCF, Joaquim Ribeiro, disse que “a equipa atravessa[va] uma situação difícil”, pelo que a solução seria “afastar Fialho”. Tanto mais que, asseverava, já no decurso do jogo frente à Mauritânia “a nossa SN deu-me a impressão de que não tinha treinador”. E, com o jogo de palavras aberto, seguiu-se uma catadupa de ataques cerrados ao já cabisbaixo Fialho. Mariano “Tchibiu”, eleito porta-voz do grupo dos jogadores, falou num seleccionador que nunca com eles encetou “o diálogo necessário, não conversa com ninguém” e que sequer lhes apoiava (…); Nildo Brazão, então Presidente do CD da FCF, referiu-se a uma “situação muito grave”, pelo que se impunham “medidas drásticas (…)”; J. Brito, Presidente do Núcleo Associação F. S.V. sugeriu “que [sejam] tomadas medidas sérias”.

O ambiente tornou-se plangente. Du Fialho parecia não estar presente no encontro. Mas, apesar de ferido no seu orgulho profissional e pessoal, o antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica, ex-treinador do Desportivo das Aves (Portugal), do Benfica e do Sporting de Angola vacilou entre ripostar à letra e quebrar a loiça ou optar pela desresponsabilização fácil. Surpreendentemente, empunhou a bandeira de fair-play, portou-se como gentleman e colaborou fria e positivamente a favor da sua própria saída, colocando-se ao lado da equipa. Mas não sem antes dizer: “a maior parte das acusações que fizeram não corresponde à verdade (…), não me encontro ultrapassado como treinador, apesar dos meus 55 anos de idade. Não me sinto magoado por isso. Só quero que os restantes jogos sejam ganhos (…), porque a vitória também é minha. Peço o meu afastamento”.  

O adjunto Djidjé era doravante “o senhor que se seguia”. Ele venceu logo  o desafio seguinte: 1-0 frente às Águias do Mali. 

E os Tubarões Azuis mostraram finalmente os dentes. Curiosamente, pela última vez, pois, cairiam no jogo seguinte, desta feita, frente à Serra Leoa (0-1), e fariam as malas de volta. Os senegaleses levariam novamente a taça, agora pela terceira vez.

Na próxima edição, falarei sobre “A Pior Façanha de sempre dos Tubarões Azuis”. Foi em 1979, na edição inaugural da TAC, em Bissau. Escreva-me para santaclaraj2m@gmail.com

*Pseudónimo de José Mário Correia

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