
Por: Joaquim Arena*
Para quem assiste ao filme “Ainda Estou Aqui” (de Walter Salles, com Fernanda Torres no papel principal) num voo da TAP, Rio-Lisboa, depois de uma semana de passeios entre a Lapa, Santa Teresa, Copacabana, Ipanema e Leblon, é difícil imaginar um Rio de Janeiro a viver sob a ditadura militar. E a ajudar esta impressão, está a ideia muitas vezes veiculada de que a repressão dos militares foi mais branda nesta cidade do que noutras do país. As imagens bucólicas de crianças e jovens saindo de casa praticamente directas para o areal de uma destas magníficas praias, que o filme mostra, é coisa difícil de imaginar nos dias de hoje.
Já Vinícius de Moraes, num tom de nostalgia, reclamava da mudança que chegava nos anos sessenta, em Carta a Tom, falando dos arranha-céus que despontavam e do tempo em que “da janela se via um cantinho do Redentor.” O filme aborda um período duro da história do Brasil (1964-1988) e o próprio Vinícius pagaria o preço, sendo expulso do corpo diplomático, por não se enquadrar no estilo de vida exigido pelo Itamaraty. Fala de perseguição, rapto e desaparecimento. De controlos nas estradas, de pessoas vigiadas. Mas sobretudo de esperança e tenacidade, uma mãe e esposa, Eunice, obstinada em querer saber do paradeiro do marido, Rubens Paiva, levado pelos militares. Fernanda Torres dá voz e corpo à resiliência de Eunice, na sua determinação inabalável.
Uma Perna Cabeluda no meio da ditadura
Em “O Agente Secreto” vemos a mesma serenidade, coragem e determinação em Armando (Wagner Moura). Mas o seu olhar é mais de fora, de quem vê o Brasil capturado e na indolência da opressão, fora da grande cidade – o céu azul, vento no canavial, estação de serviço – na estrada rumo ao Nordeste. Mesmo se está também umbilicalmente ligado à tragédia e opressão que assombra o Brasil. Se no primeiro filme, o caos e a ruptura que atinge a família são visíveis na intensidade e no esforço de normalidade e de recusa da capitulação, no filme de Kleber Mendonça, a repressão está entranhada naquele quotidiano pacífico e na autenticidade cultural nordestina.
É o Recife do Carnaval e do cinema de bairro, da vida pacata que corre sem pressas. Vemos o regresso de Armando à família da esposa assassinada, a família que tem a guarda do seu filho, enquanto ele próprio tem a cabeça a prémio. É um homem pacificamente marcado para morrer, como o vão informando pelo telefone, enquanto procura o paradeiro da mãe, nos arquivos da cidade, num emprego de circunstância, e aguarda o passaporte para ele e o filho abandonarem o país. O retrato social da época é o mais fiel possível, com o realizador Kleber Mendonça Filho a visualizar várias obras de referência dos anos de chumbo de 1970.
A ditadura militar constrói modelos locais de poder e de terror suavizado, na figura do autoritário e cínico delegado de polícia. Um filme que não inova no conteúdo narrativo. Nem precisa, antes pelo contrário: um matador local contratado, polícias corruptos, empresários conluiados com o poder e até uma mítica Perna Cabeluda, saída do folclore local, que já andou por outros filmes, telenovelas e radionovelas, sempre com o mesmo sucesso popular. O burlesco da Perna chutando casais de homossexuais é apenas um intermezzo no terror vivido pelos perseguidos da casa de Sebastiana. A serenidade e o olhar contemplativo de Wagner Moura preenchem o filme, qual escudo protector de todos aqueles lhe admiram a coragem e as palavras. A sua dúvida parece ser mais capaz de comandar o seu destino e quiçá o próprio destino dos outros perseguidos. E aqui, a actriz amadora Tânia Maria, que interpreta Dona Sebastiana, a costureira que acolhe perseguidos políticos (entre eles um casal de angolanos) rouba qualquer outro papel secundário do filme (cotada para os Óscares de 2026 e vencedora de Melhor Atriz Secundária, pelo Círculo de Críticos de Santiago).

A conquista dos grandes palcos
Portanto, só podemos falar de dois anos de safra extraordinária deste novo cinema brasileiro, que se vai chegando cada vez mais perto de Hollywood, à semelhança do cinema mexicano, pela mão de Alexandre Gonzales Innaritu, Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro, também revelados depois dos anos de 1990. No caso do Brasil, anos de investimento no sector colocam a sua produção em lugares de destaque, no mundo inteiro, em especial nos festivais e premiações mais importantes. Mas, para os menos atentos, é preciso lembrar que o cinema feito no Brasil não passou a ser reconhecido só nos últimos anos. Basta recuar a 1953, ao filme “Cangaceiro”, de Lima Barreto, que levou o Prémio de Melhor Filme de Aventura, e “O Pagador de Promessas”, de 1962, dirigido por Anselmo Duarte, que venceu a Palma de Ouro, o maior prémio do Festival de Cannes, o único troféu desta categoria até hoje para o Brasil.
Mas ainda na década de sessenta, Ruy Guerra, nascido em Moçambique e radicado no Brasil e um dos pais do Cinema Novo brasileiro, também viu o seu longa “Os Fuzis”, de 1964, receber o Urso de Prata e o Grand Prix du Juri, no Festival de Cinema de Berlim. Em 1986, Fernanda Torres receberia o Prémio de Melhor Actriz, no filme “Eu sei que Vou te Amar”, de Arnaldo Jabor. Mas, mesmo fora das competições internacionais, o cinema brasileiro procurou sempre a sua linguagem própria, abordando temas do quotidiano dessa sociedade, tão multifacetada quanto rica e complexa.
O cinema no Brasil cedo procurou abordar a complexidade do país através da condição dos homens e das mulheres, das dificuldades que de norte a sul eram vividas, de formas diferentes. Aqui se misturaram a fome, a política, o misticismo.
O cinema no Brasil cedo procurou abordar a complexidade do país através da condição dos homens e das mulheres, das dificuldades que de norte a sul eram vividas, de formas diferentes. Aqui se misturaram a fome, a política, o misticismo. Glauber Rocha, um dos principais nomes do Cinema Novo, assinou obras marcantes deste período da década de sessenta, como “Barravento” (1962, e que marca a estreia do actor António Pitanga), “Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), “Terra em Transe” (1967), “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), e ainda “Câncer” (1972) e Idade da Terra (1980).
A retoma pós-Collor de Melo e sucesso internacional
Após um período de alguma indefinição e mesmo de crise no cinema brasileiro, com a extinção da Embrafilme, pelo então presidente Collor de Mello, a retoma surge no início dos anos 1990. Nesta década, um conjunto de filmes (“Carlota Joaquina, Princesa do Brasil”, “Terra Estrangeira”, “O Quatrilho”, indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “O que é Isso, Companheiro?”, “Central do Brasil”, “Baile Perfumado”, “Ação Entre Amigos”, “Bossa Nova”), relançam a produção cinematográfica. “Central do Brasil”, de Walter Salles e com Fernanda Montenegro – que carrega todo o filme às suas costas – é o filme que coloca o Brasil no panorama internacional, nesta nova fase.
A história da professora aposentada que escreve cartas para as pessoas analfabetas na Estação Central do Brasil, e do seu envolvimento com o garoto Josué, na busca do seu pai no Nordeste, seria aclamado internacionalmente. Vieram nomeações para o Óscar, BAFTA (venceu Melhor Filme em Língua Estrangeira) e Globo de Ouro. Hoje é visto como um marco na história do cinema brasileiro. Representa, igualmente, a ascensão internacional do realizador Walter Salles, que vai assinar obras como “Cidade de Deus” (2002), “Diários de Che Guevara” (2004), “Pela Estrada Fora” (2012) e “Ainda Estou Aqui” (2024), para além de outras menos conhecidas, mas de sucesso nacional.
Se a qualidade dos filmes brasileiros já não passava despercebida, os dois filmes referenciados, de Walter Salles e Kléber Mendonça Filho, extrapolaram fronteiras e colocaram a cinematografia do país noutro patamar. “Ainda Estou Aqui “, baseado numa biografia de Marcelo Rubens Paiva, sobre o rapto e desaparecimento do pai, durante a ditadura no país, rendeu 70 prémios em 44 festivais, ao realizador Walter Salles, e um globo de ouro à actriz Fernanda Torres.
Mais recentemente, a parada subiu com “Agente Secreto” (Kleber Mendonça Filho) , ao conquistar o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme de Língua Não-inglesa, e Melhor Actor (Wagner Moura) e Melhor Realizador, em Cannes, entre outros 56 troféus em 36 premiações. Depois das vitórias históricas nestas competições, “O Agente Secreto” está entre os 15 filmes pré-seleccionados para a categoria de Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco nos Óscares de 2026, já em Março.
Porém, outros filmes houve que, se não atingiram competições e premiações internacionais, mostraram toda a pujança e a qualidade do cinema brasileiro. Destaco dois apenas, “Estômago” (2008, Marcos Jorge), um drama que retrata a vida de um cozinheiro nordestino num restaurante e depois numa prisão paulista, e “Casa de Areia” (Andrucha Waddington, 2005), com Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Seu Jorge e Ruy Guerra, na luta pela sobrevivência de uma família na região desértica dos Lençóis Maranhenses, na primeira metade do século XX.
PUB
Você precisa estar logado para escrever um comentário Login
Faça o seu comentário
Faça o seu comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

