
Por: António Delgado Medina*
Durante décadas, Cabo Verde construiu um paradigma de desenvolvimento fortemente ancorado na valorização do capital humano, assumindo a educação como eixo estruturante das políticas públicas e como principal mecanismo de mobilidade social. Este entendimento, amplamente sustentado por abordagens teóricas do desenvolvimento, nomeadamente a teoria do capital humano, consolidou a ideia de que o investimento na formação académica e profissional dos indivíduos constitui um fator determinante para o crescimento económico, a redução da pobreza e a promoção da equidade social.
Neste quadro, o acesso à educação passou a ser encarado não apenas como um direito fundamental, mas como uma verdadeira estratégia nacional de desenvolvimento. As famílias cabo-verdianas, mesmo em contextos de elevada vulnerabilidade socioeconómica, responderam a este apelo com um esforço significativo e continuado, canalizando recursos escassos para garantir trajetórias educativas prolongadas aos seus filhos. Este investimento material e simbólico traduziu-se na formação de uma geração com níveis de escolaridade sem precedentes no país, incluindo um número crescente de licenciados, mestres e doutorados, muitos dos quais formados no exterior.
Do ponto de vista estrutural, este processo contribuiu para a emergência de um perfil de recursos humanos mais qualificado, com competências técnicas, capacidade analítica e potencial inovador, alinhado com as exigências de uma economia em transformação. Criaram-se, assim, as condições para que essa geração desempenhasse um papel central na modernização das instituições, na dinamização do tecido económico e na consolidação de um modelo de desenvolvimento sustentável.
Contudo, a realidade atual parece contrariar, de forma inquietante, esse percurso.
Cresce, entre os jovens cabo-verdianos, um sentimento de frustração e desencanto. A promessa implícita de que o mérito académico e a qualificação seriam recompensados de forma justa está, em muitos casos, a ser colocada em causa. Progressivamente, instala-se a perceção de que o acesso a oportunidades profissionais e a posições de responsabilidade não depende exclusivamente das competências, mas também — e por vezes sobretudo — de fatores extrínsecos, como a proximidade a círculos de poder, o alinhamento político ou a capacidade de adaptação a lógicas de conveniência.
Assiste-se, assim, a uma preocupante inversão de valores: o mérito deixa de ser o principal critério de valorização, enquanto práticas de favorecimento, compadrio e conveniência ganham espaço, ainda que muitas vezes de forma silenciosa. Neste contexto, o pensamento crítico e a autonomia intelectual, características essenciais de uma sociedade democrática e inovadora, podem tornar-se elementos incómodos, ao invés de serem reconhecidos como ativos estratégicos para o desenvolvimento do país.
As consequências desta dinâmica são profundas. Ao fragilizar a meritocracia, compromete-se a qualidade das instituições, limita-se a eficiência da ação pública e reduz-se a capacidade do país de responder aos desafios contemporâneos. Mais grave ainda, gera-se um clima de desconfiança que afeta diretamente as expectativas das novas gerações e a sua confiança nas instituições e no futuro do país.
Perante este cenário, muitos jovens confrontam-se com uma questão inevitável: vale a pena investir anos de estudo e qualificação num contexto onde o mérito não é plenamente reconhecido?
As respostas a essa pergunta têm-se refletido em comportamentos concretos. A emigração de jovens qualificados continua a aumentar, não apenas por razões económicas, mas também pela procura de ambientes onde o esforço, a competência e o talento sejam efetivamente valorizados. Trata-se de uma perda significativa para um país com recursos limitados, que depende, em larga medida, da qualidade do seu capital humano para garantir o seu desenvolvimento.
Importa sublinhar que este não é um problema meramente individual ou conjuntural. É uma questão estrutural, com implicações diretas no modelo de desenvolvimento que Cabo Verde pretende seguir. A persistência de práticas que desvalorizam o mérito compromete a construção de uma sociedade mais justa, mais competitiva e mais sustentável.
A resposta a este desafio exige mais do que discursos. Implica a adoção de mecanismos efetivos de transparência, a valorização real das competências, o reforço da ética institucional e a responsabilização nos processos de decisão. Exige, sobretudo, uma mudança de cultura, onde o mérito deixe de ser um princípio abstrato e passe a constituir uma prática concreta e verificável na vida pública e institucional.
Cabo Verde não pode dar-se ao luxo de formar gerações qualificadas para depois não lhes oferecer espaço para contribuir. Um país pequeno, com limitações estruturais evidentes, depende de forma decisiva da inteligência, da capacidade crítica e do potencial inovador dos seus cidadãos.
Se a meritocracia continuar a ser substituída pela mediocridade, o país arrisca-se a perder não apenas os seus melhores quadros, mas também a confiança no seu próprio futuro.
E talvez, nesse momento, a pergunta que hoje inquieta muitos jovens deixe de ser uma dúvida…
Para se tornar uma certeza amarga.
Não, não valeu a pena.
24 de março de 2026
*Geógrafo, doutorando em Ciências Sociais

