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Cabo Verde e o novo tabuleiro financeiro global

Por: João Vieira Baptista

Vivemos uma transformação silenciosa, mas profundamente estrutural, no sistema financeiro internacional, marcada por dois movimentos centrais: a crescente utilização da dívida offshore como instrumento de captação de capital global e a lenta, porém consistente, transição para a desdolarização.

Durante décadas, o mundo girou em torno de uma lógica dominante, centrada no dólar americano como principal moeda de referência para comércio, reservas e financiamento. Hoje, essa realidade começa a evoluir, não por rutura, mas por adaptação estratégica dos Estados a um ambiente económico mais complexo e multipolar.

A desdolarização não representa um colapso do dólar, nem uma substituição imediata do sistema vigente. Trata-se de um processo gradual de diversificação, no qual países procuram reduzir dependências e ampliar margens de manobra. Paralelamente, a emissão de dívida offshore surge como um instrumento cada vez mais relevante, permitindo aos Estados aceder a mercados internacionais, atrair novos investidores e reposicionar-se no novo tabuleiro financeiro global.

Novos polos económicos emergem, acordos bilaterais em moedas locais multiplicam-se e blocos como os BRICS procuram alternativas ao modelo tradicional.

É neste contexto que decisões como a emissão de dívida pública offshore por parte de Portugal ganham particular relevância. Ao recorrer a mercados externos e atrair capital internacional, Portugal demonstra uma leitura estratégica do momento global. Não se trata apenas de captar financiamento, trata-se de reduzir dependências, diversificar riscos e posicionar-se num sistema financeiro cada vez mais multipolar.

A questão que se impõe é clara: onde está Cabo Verde neste novo cenário?

Cabo Verde possui uma característica singular que poucos países podem reivindicar com igual intensidade, uma diáspora forte, qualificada e profundamente integrada em algumas das economias mais dinâmicas do mundo. Nos Estados Unidos, na Europa e em outras geografias, os cabo-verdianos afirmam-se como agentes económicos relevantes, com capacidade de poupança, investimento e criação de valor.

No entanto, o país continua a olhar para a diáspora sobretudo como fonte de remessas. Essas transferências são vitais, sustentam famílias e alimentam a economia, mas representam apenas uma fração do verdadeiro potencial existente.

Vivemos uma transformação silenciosa, mas profundamente estrutural, no sistema financeiro internacional, marcada por dois movimentos centrais: a crescente utilização da dívida offshore como instrumento de captação de capital global e a lenta, porém consistente, transição para a desdolarização. (…) Cabo Verde não pode ficar à margem desta transformação. A diáspora cabo-verdiana não é apenas uma extensão cultural ou emocional. É uma força económica concreta, com capacidade de influenciar o rumo do país. Transformar essa força em motor de desenvolvimento exige visão, liderança e coragem política

Num mundo em rápida transformação, Cabo Verde precisa de dar um salto estratégico. É necessário passar de uma lógica passiva, baseada em fluxos tradicionais, para uma abordagem ativa, orientada para a mobilização de capital e investimento estruturante.

Isso implica criar instrumentos financeiros modernos, credíveis e direcionados à diáspora. Obrigações específicas, plataformas seguras de investimento, incentivos fiscais claros e mecanismos transparentes que transformem poupança em desenvolvimento. Trata-se de construir uma ponte sólida entre o país e os seus cidadãos no exterior.

A possibilidade de emissão de dívida offshore, adaptada à realidade cabo-verdiana, deve ser encarada com seriedade. Não como uma imitação de modelos externos,  mas como uma estratégia própria, assente na confiança, na credibilidade institucional e na proximidade com a diáspora.

Mais do que uma decisão técnica, esta é uma escolha política e estratégica. Num contexto global marcado por incertezas, tensões geopolíticas e reconfiguração económica, os países que prosperam são aqueles que conseguem antecipar tendências, diversificar fontes de financiamento e reduzir vulnerabilidades.

Importa reconhecer que ainda estamos longe de uma desdolarização plena. O dólar continua a ser a principal âncora do sistema financeiro internacional. No entanto, também é evidente que o mundo está menos dependente do que estava há duas décadas. Ignorar essa evolução seria um erro estratégico.

Cabo Verde não pode ficar à margem desta transformação.

A diáspora cabo-verdiana não é apenas uma extensão cultural ou emocional. É uma força económica concreta, com capacidade de influenciar o rumo do país. Transformar essa força em motor de desenvolvimento exige visão, liderança e coragem política.

O futuro de Cabo Verde não se constrói apenas dentro das suas fronteiras. Constrói-se também nos mercados internacionais, nas comunidades emigrantes e na capacidade de criar soluções inovadoras que liguem essas realidades.

Num mundo em mudança, a diferença entre avançar e ficar para trás está na capacidade de agir antes dos outros.

A questão  não  é se o sistema financeiro global vai mudar.
A questão é se Cabo Verde terá a ambição e a estratégia necessárias para mudar com ele.

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