
Por: William Sena Vieira
Eram tempos de profundas transformações na sociedade cabo-verdiana, e o futebol não ficou à margem desse processo. Havia uma necessidade evidente de afirmação de Cabo Verde no contexto internacional, sendo a filiação na Confederação Africana de Futebol e na FIFA um passo urgente e estratégico, não apenas para a participação no Taça Amílcar Cabral, mas também para a integração plena nas competições continentais e mundiais.
Figuras marcantes da história nacional, como Joaquim Ribeiro e João Burgo Tavares, em articulação com o governo da época, assumiram com coragem e visão a decisão de posicionar Cabo Verde no mapa do futebol internacional. Foi uma aposta ousada, mas determinante para a consolidação institucional do desporto no país.
Neste contexto, ganha especial relevância o papel de Rito Alcantara. Cabo-verdiano radicado em Dakar, no Senegal, destacou-se como uma das personalidades mais influentes da comunidade cabo-verdiana no panorama desportivo senegalês, granjeando igualmente elevado respeito junto de dirigentes cabo-verdianos, senegaleses, africanos e internacionais.
Até hoje, permanece como o dirigente cabo-verdiano que mais longe chegou nas estruturas desportivas internacionais, em termos de relevância, notoriedade e credibilidade. A sua intervenção foi determinante para desbloquear processos junto da FIFA e CAF, facilitando a integração de Cabo Verde no sistema global do futebol.
Num tempo marcado, por vezes, por excessos de exaltação, protagonismos e alguma falta de discernimento, importa reafirmar o compromisso com o rigor histórico e com os factos, evitando leituras curtas ou distorcidas da história do desporto nacional.

Rito Alcântara, natural de Mindelo, foi vice-presidente da Confederação Africana de Futebol e, até à data, o primeiro e único cabo-verdiano a integrar o Comité Executivo da FIFA
Natural de Mindelo, Rito Alcantara construiu uma carreira de grande prestígio em Dakar, onde se afirmou como farmacêutico e, sobretudo, como dirigente desportivo de dimensão continental. Formado em Farmácia em Montpellier, foi no futebol que deixou uma marca verdadeiramente histórica.
Rito Alcântara, cabo-verdiano natural do Mindelo e radicado em Dakar, Senegal, construiu uma carreira de grande prestígio e, até hoje, permanece como o dirigente cabo-verdiano que mais longe chegou nas estruturas desportivas internacionais, em termos de relevância, notoriedade e credibilidade. A sua intervenção foi determinante para desbloquear processos junto da FIFA e CAF, facilitando a integração de Cabo Verde no sistema global do futebol.
Considerado por muitos como um dos patronos da gestão desportiva no futebol africano, destacou-se na Confederação Africana de Futebol, onde ocupou cargos de elevada responsabilidade, incluindo o de vice-presidente. Em 1968, foi eleito para este cargo e integrou simultaneamente o Comité Executivo da FIFA, tornando-se um dos primeiros dirigentes africanos, e o primeiro cabo-verdianon e o único até à presente data, a atingir tal nível de influência no futebol mundial. Em 1972, foi reeleito no mandato de Ydnekatchew Tessema, mantendo-se como uma figura central da liderança africana num período particularmente exigente.
A sua atuação foi determinante na consolidação institucional da CAF, participando em reformas estatutárias, na organização das competições continentais e na defesa dos interesses africanos junto da FIFA, num contexto marcado por tensões políticas e pela necessidade de afirmação do continente no panorama global.
Ao nível da FIFA, desempenhou um papel estratégico enquanto membro do Comité Executivo, contribuindo para reforçar a representação africana nos centros de decisão e funcionando como elo de ligação entre África e as estruturas internacionais do futebol. A sua presença permitiu dar maior visibilidade às especificidades do futebol africano, numa fase em que este procurava reconhecimento e equilíbrio no sistema global.
Importa ainda destacar o seu envolvimento determinante nos processos que conduziram à integração de Cabo Verde na FIFA, em 1986, e em consequência, na Confederação Africana de Futebol. Em articulação com dirigentes como João Burgo Tavares, Joaquim Ribeiro e as autoridades governamentais da época, participou num esforço coletivo que viria a assegurar o reconhecimento internacional do futebol cabo-verdiano.
Foi particularmente relevante a sua capacidade de influência junto da FIFA, desempenhando um papel decisivo na adesão de Cabo Verde àquela organização. A entrada do país abriu as portas à participação nas competições africanas e mundiais, tanto de seleções como de clubes, representando um marco histórico para o desenvolvimento do futebol nacional.
À época, o então presidente da FCF, Emanuel Pinto, conhecido popularmente por Engenheiro Caré, destacou o contributo indelével e imprescindível de Rito Alcantara na afirmação de Cabo Verde nestes organismos, sublinhando o seu papel facilitador na integração do país poucos anos após a independência.
Este processo ocorreu durante a presidência de João Havelange, Presidente da FIFA, período em que África reforçava a sua presença e influência nas estruturas do futebol mundial.
Para além do desporto, Rito Alcantara teve também uma intervenção relevante no plano social e humanitário. Foi membro ativo do Rotary Club Dakar Soleil e colaborou com a Cruz Vermelha, evidenciando um compromisso consistente com o desenvolvimento comunitário e o bem-estar social.
No plano intelectual e político, esteve ligado à publicação Réalités Africaines, integrando círculos de reflexão das elites africanas no período pré-independência, o que demonstra a sua participação nos grandes debates que moldaram o continente africano contemporâneo.
A sua vida foi retratada na obra Rito, une Vie, onde é descrito como um homem discreto, íntegro e profundamente dedicado às causas humanas.
Rito Alcantara permanece como uma das maiores referências da história de Cabo Verde no plano internacional. Num tempo em que, por vezes, se privilegia o protagonismo imediato, o seu percurso demonstra que o verdadeiro legado se constrói com competência, ética, humildade, visão estratégica e serviço ao coletivo, valores que importa preservar e transmitir às gerações futuras.

