
Por: José Vicente Lopes
1. Domingo à noite, 17 de Maio, Cabo Verde saberá quem o irá governar nos próximos cinco anos e em que condições politicas o irá fazer. Se num quadro de maioria relativa ou absoluta ou, em caso extremo, se de maioria qualificada. O país saberá também se vai ter uma “evolução na continuidade” com Ulisses Correia e Silva (MpD) ou uma “mudança”, radical e revolucionária, como parece pretender Francisco Carvalho (PAICV).
Qualquer desses dois cenários vai depender, em parte, do desempenho da UCID, do PTS e do PP, isto é, da real capacidade de cada um deles mobilizar os votos com vista a um maior equilíbrio de forças entre os partidos que ambicionam governar o país.
Se é verdade que o sistema actual, de bipolarização e de maiorias absolutas, tem garantido a estabilidade do país, ele tem contribuído também para certos tipos de abusos de poder e de uma certa asfixia da sociedade civil, com todos os males daí advenientes. É óbvio que se é o povo que assim quer e tem ditado, cabe-lhe, igualmente, decidir o dia em que porá fim a esta situação. No próximo domingo, 17 de Maio, poderá ou não ser esse dia.
2. Ao longo das duas semanas de campanha que terminam amanhã, tivemos um repisar de promessas e críticas, sabendo hoje, ao fim de 35 anos de eleições, que uma coisa é o que se promete durante as campanhas e outra, bem diferente, é a governação com os seus limites orçamentais e sem varinhas mágicas, como sabiamente tratou um dia de nos elucidar o ora incumbente primeiro-ministro e líder do MpD, Ulisses Correia e Silva.
E, para quem não sabe como se governa Cabo Verde, os senhores que nos têm de rédea curta, os “parceiros internacionais”, estão também eles, a seu modo, à espera dos resultados da noite de domingo. Se for Ulisses, é só deixar a carroça andar mostrando a cenoura ao burro, mas se for Francisco pode ser que precisem um pouco mais de verbo e paciência para explicar-lhe o que é o Consenso de Washington, mesmo que o candidato do PAICV já tenha mostrado saber para que servem duas bananas no mundo das estatísticas e da política.
Palpita-me, ainda assim, que o que o líder do PAICV tem andado a vender – ensino e saúde de graça, por exemplo – vai contra o receituário dos “parceiros”. E mesmo que ele consiga vender todos os “jipons” do Estado, ou acabe com as consultorias e nos dê um governo esquelético, até prova em contrário, é pouco provável que ele consiga dinheiro suficiente para o que anda a propagandear no seu sonho de fazer de Cabo Verde a Noruega de África, sem os fundos soberanos desse país.
Em nome da verdade, neste caso da boa verdade, é de lembrar que quem convenceu os cabo-verdianos a pagar taxas moderadoras nos hospitais e propinas escolares foram os governos de José Maria Neves, além do IVA, taxa turística, taxa do ambiente… Não porque o então chefe do governo e líder do PAICV gostasse propriamente dessas medidas impopulares, mas porque, para continuar a ter dinheiro da “comunidade internacional”, os cabo-verdianos teriam de pagar a sua parte da factura. Acabar com algumas dessas medidas significa um retrocesso na ideia de que o Estado em Cabo Verde não pode financiar tudo porque, simplesmente, não tem os recursos da Noruega, por exemplo.
Palpita-me, também aqui, no campo das mentiras doces, que andamos à procura de novas frustrações. Mas, como mostra a experiência destes 35 anos de disputas eleitorais, é errando e enganando-nos a cada nova eleição que acabaremos todos, um dia, por tomar juízo, interiorizando que campanha é uma coisa e governar é outra. A descrença e a desesperança que vamos acumulando são já provas disso.
Outra evidência é o número de gente, de jovens e quadros para ser especifico, que já se pôs a andar de Cabo Verde por falta de futuro. É dos manuais que as pessoas emigram por razões económicas, isto é, quando a economia não satisfaz a demanda do emprego e de uma vida condigna. Por isso, faça as magias que o INE entender, é preciso muito desatino para fixar o desemprego em Cabo Verde em 4,9%, o que faz de nós, repito uma vez mais, a Noruega, país de emprego pleno, onde o desemprego situa-se em 3 ou 4%.
Continuando, e agora para dizer que, no estado a que chegamos, o que ainda torna aliciante a disputa eleitoral em Cabo Verde é a sua imprevisibilidade, neste mundo e tempo de incertezas constantes, realidade esta que passou ao largo do debate de sexta-feira passada entre os cinco candidatos que nos querem governar. O que se viu foi cinco políticos candidatos a primeiro-ministro debaterem o país como se Cabo Verde fosse uma realidade blindada aos maus ventos que nos vêm de Ormuz, ou, o que é infinitamente pior, dos humores de Donald Trump.
A ideia de que não há vencedores antecipados para as eleições de domingo explica o nervosismo de uns e outros, traduzido no “toque a rebate” que passa pela aparição da velha guarda das duas grandes famílias – MpD e PAICV – com os seus avisos aos navegantes e esconjuros, conclamando as hostes à luta, cada uma vendendo a ideia de Apocalipse caso o respectivo partido perder a eleição no próximo domingo.
Entenda-se, pondo de lado os valores nobres, a que se junta as boas intenções de uns e outros, para quem joga e vive neste tabuleiro, uma eleição é sempre uma luta de vida e de morte. Lembro-me de 2016. Enquanto Ulisses, já vencedor, continuava a teorizar sobre o gato e o seu famoso colar de linguiça à volta do pescoço, na rua e nos mentideros, o que mais se ouvia era “agora é nós bez!” E assim foi. O Estado tambarina foi rapidamente substituído pelo Estado ventoinha, porque é no Estado onde essa fauna toda, liberal ou não, procura e encontra o pasto de cada dia, mesmo que através de portas giratórias acabem, alguns, por encontrar a zona de conforto dos seus sonhos.
Palpita-me, ainda assim, que o que o líder do PAICV tem andado a vender – ensino e saúde de graça, por exemplo – vai contra o receituário dos “parceiros”. E mesmo que ele consiga vender todos os “jipons” do Estado, ou acabe com as consultorias e nos dê um governo esquelético, até prova em contrário, é pouco provável que ele consiga dinheiro suficiente para o que anda a propagandear no seu sonho de fazer de Cabo Verde a Noruega de África, sem os fundos soberanos desse país
3. O debate de sexta feira, 08, entrou para os anais por uma ou duas razões. Uma delas, como já está sobejamente consagrado pela “vox populi”, por ter revelado ao país a jovem Jónica Brito, do PTS. Para quem acompanhou, estoicamente, as mais de três horas desse massacrante debate, havendo momentos em que mais pareceu que se estava a discutir os problemas da cidade da Praia (lixo, estradas esburacadas…), foi Jónica a revelação dessa noite. Contudo, espremendo o que ela disse não se tira nada de especial e que os outros, especialmente Amândio Barbosa Vicente, do PP, já não tenham andado a apregoar ao longo de todos estes anos de travessia no deserto.
O que se passa é que vivemos num tão mísero quadro politico que o simples facto de naquela noite a única mulher e jovem dos debatedores ter dito o que disse fez dela a grande revelação destas eleições.
Ainda assim, falando directamente para a juventude descrente, recorrendo ao mesmo tipo de discurso de Francisco Carvalho, este PTS de Jónica Brito poderá angariar os votos protestos que tendencialmente poderiam ser canalizados para o PAICV, enquanto principal crítico dos 10 anos de governo do MpD. Brito é, por isso, e por algum mérito seu, um ponderável a ter em relativa conta nestas eleições de domingo.
E no meio disto tudo resta saber igualmente é se será desta que a UCID, de João Santos Luís, chegará à sua velha demanda do fim do bipartidarismo. Com o seu herói e mártir Amadeu Oliveira preso na Ribeirinha, com um discurso que já faz parte da nossa normalidade política, fidelizado que se encontra o eleitorado à volta de dois partidos, MpD e PAICV, as chances de a UCID chegar à Terra Prometida na noite de domingo continuam a ser reduzidas. Mesmo assim, ainda bem que existe a UCID.
4. Não tendo comparecido ao primeiro debate do passado dia 28 de Abril, a aparição de Francisco Carvalho no segundo debate, de sexta-feira passada, elevou de imediato as expectativas em torno do líder do PAICV que tinha a obrigação de cilindrar Ulisses Correia e Silva, o que não aconteceu. Se no primeiro debate UCS apareceu amorfo e sem chama, o que acabou por beneficiar João Santos Luís, da UCID, no segundo embate a história foi outra.
Com o líder do PAICV presente, o balão de UCS encheu-se e o seu desempenho passou de sofrível a suficiente, procurando levar FC às cordas. Como numa luta de boxe, um debate vence-se por KO ou por pontos, o que exige paciência e “cabeça no gelo”, para usar a gíria de Carvalho. E foi nos “pontos” que este acabou por se mostrar mais eficaz que UCS, deixando precisamente para o fim a resposta que trazia pronta para o líder do MpD acerca dos meios para realizar o seu oceano de promessas.
Em suma, grosso modo, UCS passou nesta campanha a justificar os falhanços da sua governação, recorrendo à covid-19 e à guerra na Ucrânia, repetindo o mesmo discurso de 2021, esquecendo que, para o Cabo-verdiano, uma coisa é um segundo mandato, algo a que todo o primeiro-ministro tem direito, e outra coisa bem diferente é um terceiro mandato, quando o candidato a isso se mostra um mero continuador daquilo que andou a prometer e não conseguiu cumprir. JMN chegou ao terceiro mandato, lembre-se, retirando da cartola a promessa de 13º salário, algo que ainda hoje os funcionários públicos continuam à espera.
Assim, em vez de hospitais, aeroportos e transportes eficientes, promessas que todo o mundo já viu que o líder do MpD não consegue garantir nem ao mais crédulo dos ventoinhas, para fechar a campanha, talvez fosse melhor UCS prometer férias graciosas aos funcionários públicos. Isto sim, seria “dja barbari”, como dizem as hostes ventoinhas.
5. Ainda a propósito do debate da passada sexta-feira, no fim desse embate, coube a Jónica Brito apresentar o que me parece ser o segredo desta luta que é, acima de tudo, uma luta entre o MpD e o PAICV: com 90 por cento da população escolarizada, com as redes sociais no seu máximo, já não se mostra fácil para ninguém conquistar e governar os cabo-verdianos, uma mensagem claramente dirigida a FC, mas também a UCS.
Independentemente dessa tirada de Jónica Brito, a “sociedade” cabo-verdiana mostra-se hoje mais atenta e mais crítica, com as redes sociais sempre prontas a desmontar as patranhas que nos vão vendendo, com alguns assassinatos de carácter pelo meio, graças ao empenho das milícias digitais. É a forma que a sociedade, civil ou militante, encontrou para se defender da sua classe política e dirigente.
Vencendo Francisco Carvalho no domingo, este vai ter no dia seguinte gente a cobrar-lhe viagens de barco a 500 escudos, de avião a 5 contos, o ensino e a saúde de graça. Ter um Estado previdência como parece pretender este PAICV de Francisco Carvalho, além de aliciante, é tentador, e quem nada tem a perder sempre vai caindo no canto da sereia. E é isso que deixa a família ventoinha aflita.
Francisco Carvalho está muito longe de ser o adversário ideal dos sonhos do MpD, daí o discurso contra este “novo PAICV” de Francisco Carvalho, dando o MpD a entender que tem saudades do “antigo” PAICV, provavelmente não o PAICV de José Maria Neves, que o derrotou por três vezes, mas o PAICV de Pedro Pires que Carlos Veiga derrotou facilmente em 1991. Francisco joga o mesmo jogo do MpD, das promessas populistas, única via até hoje de se chegar ao poder nestas ilhas.
6. E para concluir, pode até ser que as eleições de domingo venham a revelar-se uma situação nova que ainda não sabemos, de todo, o que será. O cabeça de lista da UCID na ilha do Sal, Aldirley Gomes, tem andado a falar em Terceira República. Esta, um dia, haverá de nos bater à porta com todas as suas consequências. Mas é pouco provável que ela chegue na noite do próximo domingo. Ainda assim, que cada um se prepare para o pior, esperando o melhor, aceitando o que vier. Cabo Verde há-de sobreviver a todos nós.

