
Por: Rui Pereira
As eleições legislativas de 17 de maio abriram em Cabo Verde um novo ciclo político, institucional e psicológico. Mais do que a simples substituição de governos, o país entrou numa fase de enorme exigência histórica. O voto popular transportou uma mensagem clara: os cabo-verdianos querem respostas concretas para os seus problemas, mais oportunidades económicas, melhor qualidade de vida e um Estado capaz de devolver esperança às famílias, aos jovens e às diferentes ilhas do arquipélago.
Mas governar Cabo Verde neste momento talvez nunca tenha sido tão complexo.
O mundo vive hoje uma das suas fases mais instáveis desde o fim da Guerra Fria. As guerras na Europa e no Médio Oriente, as tensões geopolíticas entre grandes potências, a desaceleração económica global, a inflação persistente, a crise energética, as ameaças climáticas, os fluxos migratórios descontrolados e a transformação tecnológica acelerada criaram um ambiente internacional marcado pela imprevisibilidade e pela insegurança.
E os pequenos Estados insulares são dos mais vulneráveis perante este cenário.
Cabo Verde continua fortemente dependente do exterior: importa grande parte dos alimentos, combustíveis, equipamentos e bens essenciais ao funcionamento da economia. O turismo depende das oscilações internacionais. O custo dos transportes condiciona a integração territorial e a competitividade. As fragilidades climáticas afetam a agricultura e os recursos hídricos. A dívida pública limita margens de manobra financeira. E a pressão social cresce num contexto em que muitos jovens sentem dificuldade em encontrar oportunidades reais de ascensão económica e profissional.
É neste ambiente que emerge o novo governo do PAICV. E é precisamente aqui que começa a verdadeira arte de governar.
Porque governar, neste tempo histórico, já não significa apenas administrar instituições públicas ou executar programas políticos. Governar tornou-se a capacidade de interpretar riscos, antecipar crises e construir confiança coletiva em meio à instabilidade mundial.
Um pequeno Estado como Cabo Verde precisa de desenvolver inteligência estratégica permanente. Precisa de saber ler o mundo, compreender as mudanças globais e posicionar-se de forma inteligente nas novas dinâmicas internacionais.
As ameaças são reais. O mundo tornou-se mais competitivo e menos solidário. O financiamento internacional já não será tão abundante como no passado. A disputa global por investimentos, tecnologias e mercados tende a aumentar. A inteligência artificial e a automação poderão alterar profundamente o emprego e os modelos económicos tradicionais. A insegurança internacional continuará a afetar cadeias logísticas, turismo, energia e alimentação.
Mas os tempos de crise também criam oportunidades para países que saibam pensar estrategicamente.
O novo governo precisará compreender rapidamente que crescimento económico sem impacto social visível acaba por perder legitimidade política. O cidadão comum precisa sentir melhoria efetiva na sua vida quotidiana. Precisa perceber oportunidades reais para os filhos, estabilidade no custo de vida, melhores serviços públicos e maior confiança no futuro. Por isso, Cabo Verde necessitará de um novo projeto económico nacional. Um projeto que coloque a produção, a competitividade e a inovação no centro da governação.
Cabo Verde possui ativos importantes que continuam subvalorizados. A estabilidade democrática, construída ao longo de décadas, permanece uma referência africana. A credibilidade externa do país continua elevada. A diáspora cabo-verdiana representa uma poderosa rede mundial de conhecimento, investimento e influência. Existe capital humano qualificado. Existe segurança institucional relativa. Existe localização geoestratégica atlântica. Existe potencial turístico, marítimo, energético, digital e cultural ainda insuficientemente explorado.
Talvez o grande desafio deste novo ciclo político seja precisamente transformar potencial em prosperidade concreta.
O novo governo precisará compreender rapidamente que crescimento económico sem impacto social visível acaba por perder legitimidade política. O cidadão comum precisa sentir melhoria efetiva na sua vida quotidiana. Precisa perceber oportunidades reais para os filhos, estabilidade no custo de vida, melhores serviços públicos e maior confiança no futuro.
Por isso, Cabo Verde necessitará de um novo projeto económico nacional.
Um projeto que coloque a produção, a competitividade e a inovação no centro da governação. O país não poderá continuar excessivamente dependente das importações, do consumo e da vulnerabilidade externa. Será necessário produzir mais riqueza internamente, gerar maior valor acrescentado e fortalecer a capacidade nacional de criação de emprego e rendimento.
Isso exigirá uma política forte de apoio às empresas nacionais, simplificação burocrática, modernização administrativa, crédito produtivo, formação técnica e estímulo à industrialização possível do arquipélago.
Ao mesmo tempo, sectores estratégicos terão de ser profundamente reorganizados: transportes marítimos e aéreos, energia, água, economia digital, saúde, ensino superior, agricultura moderna e economia azul.
Sem transportes eficientes não haverá integração nacional. Sem energia competitiva não haverá industrialização. Sem água não existirá transformação agrícola. Sem ensino superior moderno não haverá capital humano competitivo. Sem conectividade digital Cabo Verde ficará à margem da nova economia mundial.
O Estado também precisará recuperar capacidade estratégica. Não um Estado pesado e controlador, mas um Estado inteligente, regulador, coordenador e mobilizador da sociedade.
A governação terá igualmente de evitar radicalismos, perseguições políticas e conflitos institucionais desnecessários. Cabo Verde é demasiado pequeno para viver permanentemente dividido entre ressentimentos partidários. O país precisará de estabilidade, diálogo e cultura de compromisso nacional.
Porque os desafios do presente ultrapassam governos, partidos e mandatos.
A questão central será saber se este novo ciclo político conseguirá transformar Cabo Verde numa economia mais produtiva, numa sociedade mais competitiva e num Estado mais preparado para enfrentar as turbulências do século XXI.
Como fazer Cabo Verde produzir mais e depender menos do exterior? Como transformar a diáspora num verdadeiro instrumento de investimento produtivo? Como utilizar o mar, a posição geográfica e a conectividade atlântica como fatores de desenvolvimento? Como modernizar os portos, aeroportos e transportes interilhas? Como atrair tecnologia, inovação e conhecimento para acelerar a transformação económica do arquipélago?
Onde ir buscar inteligência tecnológica para construir uma economia mais moderna e competitiva? Como inserir Cabo Verde nas cadeias globais da economia digital, da inteligência artificial, das energias renováveis e da economia azul? Como preparar os jovens cabo-verdianos para profissões e desafios que ainda nem existem?
E talvez a pergunta mais decisiva seja outra: como governar um pequeno Estado num mundo cada vez mais instável sem perder coesão social, estabilidade democrática e esperança coletiva?
A resposta dependerá da capacidade de construir uma nova vontade nacional.
Uma vontade capaz de unir ilhas, gerações, instituições, empresários, trabalhadores, juventude e diáspora em torno de um objetivo comum: fazer Cabo Verde acreditar novamente na força estratégica do seu próprio futuro.
Inadiavelmente, é tempo dum Pensamento Político de que se possa confiar.

