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Tabela Única de Remuneração (TUR) e os desafios da equidade salarial na Função Pública em Cabo Verde

Por: Ligia Lopes*

A implementação da Tabela Única de Remuneração (TUR) em Cabo Verde foi apresentada como uma das reformas mais estruturantes da Administração Pública, com a promessa de introduzir equidade, transparência e justiça salarial no setor público.

Em teoria, trata-se de um passo importante na modernização do Estado. Na prática, porém, começam a emergir sinais claros de tensão e descontentamento em diferentes segmentos da Função Pública.

O que se observa no terreno não é apenas uma questão técnica de ajustamento salarial. É, sobretudo, uma questão de perceção de justiça e reconhecimento profissional.

 Em várias carreiras –    particularmente nas de regime privativo – cresce a sensação de que a TUR não distingue adequadamente a complexidade, a responsabilidade e o nível de especialização de funções historicamente valorizadas.

Em alguns casos, existiam estatutos de carreira já aprovados que consagravam diferenciações claras, precisamente para refletir essas exigências específicas. Com a introdução de um modelo mais uniformizado, muitos profissionais interpretam que houve uma compressão dessas diferenças, traduzida numa perceção de desvalorização relativa das suas carreiras.

Este é um ponto sensível e não pode ser ignorado. Porque quando o Estado altera estruturas remuneratórias sem garantir uma leitura clara de valorização do mérito e da diferenciação funcional, corre o risco de gerar um efeito contrário ao pretendido: desmotivação, frustração e enfraquecimento do compromisso institucional.

A implementação da Tabela Única de Remuneração (TUR) em Cabo Verde foi apresentada como uma das reformas mais estruturantes da Administração Pública, com a promessa de introduzir equidade, transparência e justiça salarial no setor público. Em teoria, trata-se de um passo importante na modernização do Estado. Na prática, porém, começam a emergir sinais claros de tensão e descontentamento em diferentes segmentos da Função Pública.

Por outro lado, importa reconhecer que a TUR responde a um problema real e antigo da Administração Pública cabo-verdiana: a existência de múltiplos regimes, desigualdades acumuladas e falta de coerência global no sistema remuneratório. A intenção de harmonizar e tornar o sistema mais sustentável é legítima e necessária.

O problema não está apenas na reforma em si, mas na forma como o equilíbrio entre equidade e diferenciação está a ser interpretado e sentido pelos profissionais. A equidade não pode significar uniformização cega. E a diferenciação não pode ser confundida com privilégio. Entre estes dois extremos está o verdadeiro desafio da gestão pública moderna.

A TUR revela, assim, algo mais profundo: a dificuldade do Estado em gerir reformas estruturais sem comprometer a perceção de justiça interna. Reformas desta natureza não se esgotam na publicação de tabelas ou diplomas. Exigem comunicação clara, envolvimento efetivo dos trabalhadores e mecanismos de correção que permitam ajustar distorções percebidas.

Ignorar estas perceções pode ter um custo elevado. Não apenas ao nível da motivação dos trabalhadores, mas também na qualidade do serviço público prestado aos cidadãos. Porque a Administração Pública não funciona apenas com normas – funciona com pessoas.

Cabo Verde encontra-se, portanto, perante um momento de decisão. Ou a TUR se consolida como um verdadeiro instrumento de reforma equilibrada e reconhecida, ou corre o risco de ser vista como uma reforma tecnicamente estruturada, mas socialmente contestada.

O futuro da Função Pública não dependerá apenas da uniformização salarial, mas da capacidade do Estado em garantir algo mais difícil: sentimento de justiça, reconhecimento e valorização real do serviço público.

Sem isso, qualquer reforma, por mais bem desenhada que seja, ficará incompleta.

*Mestre em Gestão dos Recursos Humanos e do Conhecimento.

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